Fotografia pimba

Dave Hill, o Emanuel da Fotografia
Dave Hill, o Emanuel da Fotografia

Ontem fartei-me de me referir à música de pessoas como o Tony Carreira, os One Direction e a Britney Spears (na verdade, aludi a esta última por engano: queria referir-me à Miley Cyrus, mas mais década, menos década, vai dar exactamente ao mesmo). Estes profissionais do espectáculo foram mencionados porque aquilo que fazem é seguir fórmulas de sucesso garantido para obter êxito. Podia ter referido muitos mais nomes: o nosso Emanuel, por exemplo. Este homem inventa um refrão vagamente inspirado no folclore, ilustra-o com versos brejeiros e adiciona-lhes frases musicais tocadas num acordeão. Resultado: um sucesso! Até os estudantes universitários gostam (pelo menos quando já estão completamente bêbados, como acontece com tanta frequência no trajecto académico das mulheres e homens que um dia decidirão os destinos do país).

E que tem isto que ver com fotografia?, poderão alguns perguntar. Ora bem: se eu aludi àqueles emissores de ruído no texto de ontem, foi para estabelecer uma analogia com a fotografia. Esta também vive muito de fórmulas de êxito instantâneo. E, já que mencionei o Emanuel, parece-me oportuno perguntar: existirá fotografia pimba?

É evidente que sim. Há fotografias que são concebidas de acordo com fórmulas, com o único propósito de agradar a milhares de pessoas. Estas fórmulas são de uma simplicidade comparável à das mentes dos seus apreciadores: temas foleiros, que sejam do agrado e do entendimento de toda a gente, um padrão estético que constitui o mínimo denominador comum, e já está.

Neste momento, o Emanuel da fotografia é um americano chamado Dave Hill. Já me referi a ele aqui e, nessa altura, alguns comentaram que o que Hill faz não é fotografia. Concordo, mas apenas em parte: é que aquilo que Dave Hill faz é a partir de fotografias. 95% é Photoshop. Seja como for, desde a estética de mau gosto até às temáticas (cujo gosto é também duvidoso), as imagens de Dave Hill são foleiras até dizer chega. Contudo, é possível ser-se pimba mesmo sem recorrer aos extremos de manipulação deste Dave Hill. As fórmulas empregues neste caso são menos elaboradas, mas também são usadas para atrair o olho do máximo de pessoas de que se for capaz. Todos conhecemos o repertório: pôres-do-sol (de preferência com um casal de namorados, mas tem de ser um casal heterossexual, senão não resulta), paisagens deslumbrantes, alguns animais (especialmente gatos). Ah! – e não esqueçamos aquelas sobreposições feitas contra o sol, dando a ilusão que alguém o está a agarrar, a engolir ou a jogar basquetebol com ele. Não há mais pimba do que isto. Estas fotografias – todas as que enumerei – são o equivalente fotográfico das aguarelas dos grandes artistas da Rua Sampaio Bruno e do quadro do menino lacrimoso que enfeita tantas salas de estar pelo mundo fora.

Poupem-me...
Poupem-me…

Há outras fórmulas infalíveis que, embora não tão declaradamente pimba, são também de uma banalidade que já enjoa. Flores com muito bokeh, passadiços sobre a água fotografados com um tempo de exposição de 30 segundos e, no geral, tudo o que tiver céus dramáticos. E, evidentemente, toda e qualquer fotografia, desde que seja feita com recurso ao HDR. Sobretudo se forem flores com muito bokeh, passadiços sobre a água fotografados com um tempo de exposição de 30 segundos e céus dramáticos. O HDR tem a virtude de transformar uma bosta de uma fotografia numa bosta de uma fotografia espectacular. É infalível: o utente do Facebook ainda não teve tempo de respirar depois de publicar uma fotografia destas e já tem cem likes. Para ser honesto, isto já não é bem pimba: é mais Celine Dion em linguagem fotográfica. Ou Dire Straits, se quiserem. Vai dar ao mesmo.

Há também fotografias que, não sendo pimba e patenteando mestria técnica, estão contudo estafadas de tanto serem vistas. São aquelas fotografias maravilhosas que nos mandam pelo correio electrónico, em apresentações de Power Point acompanhadas por uma banda sonora de música tocada em flautas de Pã. Os temas são, normalmente, paisagens belíssimas. O facto de nos esquecermos dessas fotografias em menos de um minuto diz muito, não apenas sobre o seu conteúdo, mas também sobre a saturação que o excesso de fotografias desta época digital causa nas pessoas. Cada uma destas fotografias pode ser boa, mas é apenas mais uma entre muitos milhões. Digamos que são fotografias Pink Floyd (os da época pós-Roger Waters): toda a gente lhes reconhece qualidade, mas não são mais que dinossauros.

Sim – existem fotografias pimba. Tal como existem fotografias pomposas e outras que são simplesmente foleiras. É como em todos os outros domínios da expressão. Cabe aos apreciadores dotados de discernimento fazer a filtragem – o que é difícil, atenta a proliferação de fotografias que existe hoje em dia. Contudo, tal como escrevi a propósito de Vivian Maier, o verdadeiro valor vem sempre ao de cima. Felizmente, não fica soterrado debaixo de tanta foleirada e acaba sempre por obter o devido reconhecimento.

M. V. M.

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