As agruras da Sony e eu

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Há um erro muito comum em que nós, os aficionados do equipamento fotográfico, incorremos com demasiada frequência. É o de pensar que um determinado fabricante, pelo facto de produzir câmaras e lentes, é uma companhia de material fotográfico. Tendemos a pensar que a sua actividade depende da fotografia e, porventura, alguns imaginam que essas empresas irão ao fundo por as suas câmaras estarem a vender mal; sempre que há notícias de dificuldades dessas multinacionais – nem que seja uma baixa de 1% no índice Nikkei –, a comunidade fotográfica entra em pânico, como se o fim dos tempos estivesse iminente.

A verdade é que, das multinacionais que tomam parte na indústria fotográfica, a Nikon é a única que tem o fabrico de ópticas e corpos como actividade principal. (Aliás, isto diz muito sobre a qualidade do equipamento que a Nikon produz.) Nas outras corporações, os departamentos de imagem são secundários. A Canon tem uma posição proeminente no mercado do equipamento de escritório e consumíveis e a Fujifilm há muito que diversificou a sua produção para o material de imagiologia médica, sector que a Olympus domina de uma forma quase monopolística. A divisão de imagem da Olympus, aliás, conta apenas para cerca de 16% do volume de negócios da sociedade. A Panasonic tem uma divisão de material fotográfico residual e a Sony é um caso à parte, sobre o qual vale a pena elaborar um pouco – até por ter sido uma notícia sobre este gigante da electrónica que me motivou a escrever o texto de hoje. Seja como for, se abstrairmos da Nikon, as divisões de material fotográfico das grandes companhias são uma parte relativamente pequena da sua actividade. Se as respectivas divisões de fotografia derem prejuízo, tal não se repercute grandemente no volume de negócios global, nem faz perigar a subsistência da empresa ou dos respectivos departamentos de material fotográfico.

Pelo que os medos de que se perca um fabricante de câmaras são, quase sempre, largamente infundados. O problema é que os entusiastas do equipamento apenas associam essas marcas à produção de material fotográfico e as campainhas de alarme começam a soar sempre que há más notícias sobre o desempenho financeiro dessas empresas. Tomemos o exemplo da Sony: na semana passada, soube-se que esta multinacional, que nos anos 80 era tão poderosa que comprou os estúdios da Columbia, nos Estados Unidos, e construiu um verdadeiro império nesses tempos em que o Japão era um gigante da indústria e da tecnologia, pretende vender a sua primeira sede, em Tóquio, por uma quantia que, a esta escala, pode ser considerada irrisória. Logo aqui começaram os entusiastas do equipamento a entrar em pânico, alguns deles temendo que o duopólio conhecido por «Canikon» ficasse ainda mais reforçado por perder um concorrente.

O futuro da Sony não me aquece nem me arrefece. A minha única preocupação, quando tomo conhecimento de notícias como esta, é o destino dos trabalhadores. O desemprego, como ouvi uma vez da boca de Vítor Gaspar (por vezes a razão e a verdade provêm das fontes mais improváveis), é a única condição que o ser humano não ultrapassa: podemos superar a dor da morte de um ente querido e ultrapassar todas as adversidades, mas o desemprego deixa marcas irreversíveis; de súbito, toda a vida do desempregado se altera e as consequências desta condição são de tal maneira gravosas que podem – e fazem-no com frequência – conduzir ao suicídio. Há um sentimento de perda e de alienação tão profundos que levam o desempregado a sentir-se num ser estranho ao mundo, à vida e à sociedade, tornando-se num ser desenraizado e levando a todo o tipo de perturbações, da simples neurose à loucura.

fd88_front_angleDiante disto, peço as minhas mais sinceras desculpas se entendo que a possibilidade de redução da oferta de produtos fotográficos que um eventual desaparecimento da Sony pode implicar não passa de uma frivolidade. Eu não quero saber disso para nada e, de resto, a Sony é uma marca de equipamento fotográfico que pouco me diz: antes de mais, só sabem fazer electrónicas e são um desastre a fazer lentes; depois, é uma recém-chegada que só surgiu no mercado fotográfico com o advento do digital (alguém se lembra das Sony Mavica?) e que, não tendo a reputação da Nikon ou da Pentax, entendeu que podia comprar prestígio e imagem de marca adquirindo a Minolta – com o resultado de se perder uma marca respeitada e cheia de tradição para que uma arrivista se implantasse no mercado. Claro que ganhou uma imagem de tecnologia de ponta, mas os resultados dessa tecnologia são um sistema (SLT) que desvirtua o conceito de DSLR e a oferta da primeira CSC full-frame do mercado. Não é especialmente relevante, nem se pode dizer que tenha sido um contributo semelhante aos que, ao longo da história da indústria fotográfica, foram trazidos por marcas como a Nikon, Pentax, Leica e Olympus. Há, evidentemente, os sensores, que são tão bons que são usados nas full-frame da Nikon e nas Pentax e Olympus com excelentes resultados, mas há outros fabricantes de sensores capazes de fazer tão bem ou melhor.

Por tudo isto, não posso carpir a possível morte da Sony, nem me preocupa o futuro dos seus administradores e accionistas. Estes ficam sempre bem: daqui a nada estarão a afundar outra multinacional qualquer. Só a perda de postos de trabalho me preocupa. De resto, seria muito pior se fosse a Ilford a atravessar dificuldades. Neste caso é que estaríamos diante de uma perda irreversível para a fotografia.

M. V. M.

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