Entre Imagens (uma reflexão televisiva no dia de Carnaval mais miserável que o autor já conheceu)

run-lucy-runAqui estou eu, aprisionado pela chuva num dia de Entrudo que muito pouco tem que ver com o Carnaval do Rio: aqui faz frio, sopra um vento desagradável e está a chover. Mais um Carnaval miserável! Não é que eu celebre o Carnaval, mas há dois anos diverti-me imenso a fotografar mascarados na Avenida dos Aliados e ainda deu para fazer alguns arrastamentos dos carrocéis que nessa altura haviam sido instalados na Baixa. No ano passado também foi um Carnaval triste, mas este ano está a ter a alegria e animação de um funeral. Deste modo, em vez de estar a fotografar figuras carnavalescas e diversões, estou em casa a escrever textos que vão ser lidos por seis ou sete pessoas – se tiver sorte e, entretanto, não tiver afastado mais alguns leitores por estar sempre a escrever sobre rolos 135 a preto-e-branco. Citando a Lucy van Pelt dos Peanuts: RATS!

Resta-me, à míngua de fazer fotografia, escrever sobre ela. Felizmente não tive dificuldade em encontrar um assunto: ontem estreou na RTP 2 uma série de documentários, com o título Entre Imagens, sobre alguns fotógrafos portugueses contemporâneos. O primeiro deles foi António Júlio Duarte, cuja obra me era de todo desconhecida. Não arrancou nada mal esta série: António Júlio Duarte é um fotógrafo que criou uma obra extremamente interessante e este primeiro documentário resultou numa espécie de homenagem, não apenas à fotografia e ao fotógrafo documentado, mas à película: António Júlio usa uma câmara de telémetro que fotografa com película 120 (médio formato) e usa rolos de slide, ou positivos.

Que posso eu dizer sobre a fotografia de António Júlio Duarte? Quanto às temáticas e à estética, talvez que quero um dia chegar aos seus calcanhares – se conseguir. Alguém que faz da fotografia profissão no tempo do iPhone e do Facebook merece a minha admiração irrestrita, à qual há que acrescentar uma pontinha de inveja. Ao ver o documentário, apercebi-me de como as minhas fotografias são banais e irrelevantes. Aquele é o tipo de fotografia que gostava de fazer: fotografias do lado menos brilhante da vida. Em lugar disto, deixei-me inspirar por um fotógrafo conservador e fotografo temas antiquados. Muito interessante é também a maneira como A. J. D. lida com os constrangimentos da relação de aspecto 6:6 da sua câmara de médio formato. Não é fácil enquadrar num formato quadrado, mas ele consegue-o muito bem.

Por António Júlio Duarte
Por António Júlio Duarte

Há algumas notas em que não deixei de reparar: A. J. D. confessa-se lento a fotografar. Eu também, o que significa que, afinal de contas, talvez eu não seja assim tão azelha como pensava. Não é o focar, nem a escolha da exposição adequada, que demoram: é a composição. A. J. D. tem um sentido de composição extremamente interessante, pelo que compreendo-o perfeitamente quando afirma que demora a fazer uma fotografia.

Mais relevante, porém, é um comentário absolutamente certeiro de A. J. D. quanto à pretensão de fazer fotografias literais. Isso é impossível. Uma fotografia nunca é literal: é sempre a forma como quem fotografa viu um determinado objecto. O que pode acontecer é que a pessoa que fotografa um dado motivo tenha uma forma mais ou menos objectiva de o ver, mas a fotografia, em si, é, quando muito, uma ilusão de literalidade.

É de aplaudir que um canal de televisão ponha no ar documentários como este. É evidente que esta série documental só podia passar na RTP 2, que não está envolvida na guerra dos shares e da publicidade. Nunca passaria entre duas telenovelas da SIC ou da TVI, nem entre um telejornal apresentado por essa criatura inacreditável chamada João Adelino Faria e um concurso de talentos da RTP 1. Ainda bem que o Relvas não teve tempo de produzir todos os estragos que pretendia na RTP e a 2 se mantém no ar, porque é o único canal de sinal aberto em que Entre Imagens poderia passar. Contudo, não posso deixar de referir que não gostei do modelo do documentário, com o fotógrafo a narrar as suas experiências: os programas televisivos portugueses, sejam eles filmes, séries ou documentários, têm todos a mesma sonoplastia horrível que recusa ao telespectador qualquer envolvimento com o que está a ver; de resto, a despeito de António Júlio Duarte ser um excelente fotógrafo, não é um bom narrador – nem se lhe pedia que o fosse. É a própria opção por este modelo de documentário que está errada. Devia ter sido feito de outra maneira, porque, tal como está, torna-se monótono. Mas é preferível assim a não haver documentário nenhum, evidentemente.

M. V. M.

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1 thought on “Entre Imagens (uma reflexão televisiva no dia de Carnaval mais miserável que o autor já conheceu)”

  1. Recordo-me de comentar um ou dois posts deste blog, apesar de ter lido provavelmente os últimos 100 posts ou mais. Fico lisonjeado pela exclusividade que me encontro como leitor (embora o autor entenda mais como um descontentamento).
    De qualquer forma, gostaria de parabenizar pelo blog e a qualidade dos textos, todos bastante oportunos para os aficionados por fotografia, sobretudo analógica.
    Sou brasileiro e aprendi muitos ao longo de todo esse tempo. Interessei-me por este documentário português e lembrei de um documentário brasileiro que achei oportuno citar pela qualidade: Caçadores da Alma, produzido pela TV Brasil (EBC). Fica a quem possa interessar.

    Grande abraço,
    Carlos Eduardo.

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