Sobre fotografar sozinho

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Uma vez escrevi aqui um texto sobre o que é melhor: se é fotografar sozinho ou acompanhado. Aparentemente, não sou o único a pensar nestas coisas: no painel da exposição de Rui Palha em que o autor é apresentado, ele mesmo refere a sua preferência por fotografar sozinho. Fotografar é, de facto, um acto solitário – pelo menos quando se fazem fotografias com intenção criativa.

Neste aspecto a fotografia não difere em nada de outras artes. Toda a criação é um acto solitário. Escrever, compor música, pintar ou esculpir são actividades que o artista desempenha sozinho. Por que o faz parece-me mais ou menos evidente: ele precisa de se isolar de tudo o que está em seu redor, o que inclui outras pessoas, para encontrar o seu mundo interior – porque é dele que emana a sua criação. Precisa dessa solidão, antes de mais, para poder abstrair-se do mundo exterior; e, depois, para se concentrar. Esta última razão pode parecer prosaica, mas existe. É imperioso, para quem cria, que a sua mente não vagueie por territórios alheios ao que está a fazer.

E na fotografia? Alguns poderão opor que lhes dá prazer fotografar em grupos, e isso pode ter interesse e ser divertido, mas não é a maneira de fazer fotografias significativas. Como referi no texto mais antigo, já fotografei acompanhado e, mesmo se fiz algumas fotografias conseguidas nessas ocasiões, senti sempre que não estava a fazer o que queria, mas a atingir uma espécie de acordo com a pessoa com quem estava quanto aos motivos a fotografar. É um compromisso, mas quando fotografo não gosto de compromissos: gosto de estar completamente imerso no que estou a fazer. Fotografar como o faço exige, antes do mais, muita concentração – seja na procura dos motivos, no enquadramento ou na escolha da exposição correcta. Por exemplo, eu demoro uma eternidade a escolher o melhor enquadramento. Considero a composição dos motivos dentro do rectângulo que vai delimitar a fotografia fundamental, pelo que demoro o tempo que for necessário até que a composição fique como eu a quero. Ao proceder assim, estou a dar uma verdadeira seca à pessoa que está comigo. E eu sou completamente avesso a dar seca seja a quem for (leitores do Número f/ excluídos).

Outra frase que constava desse painel era (e esta, cito-a de memória): «quando fotografo nunca me sinto sozinho». Nem eu! Por vezes, quando tenho algo a fazer que me obriga a andar sozinho pelas ruas apinhadas de gente, sinto a solidão e só me apetece voltar rapidamente para junto de alguém. Quando fotografo é diferente: estou sozinho com um propósito e estou a fazer uma das coisas que mais gosto na vida. Estou sozinho, não por dever, mas por opção. A minha mente nunca vagueia, todos os meus sentidos estão alerta e estou concentrado. É impossível a solidão penetrar quando estou a fotografar porque o prazer se sobrepõe a tudo. Nesses momentos sinto-me perfeitamente bem acompanhado pela câmara e pelas lentes que transporto. Se fotografar acompanhado tudo é diferente: a concentração desaparece, a busca torna-se limitada, os motivos escasseiam. Tenho de prestar atenção a quem está comigo, e com isto estou a perder muito do instinto de que necessito quando fotografo.

Quando se cria algo, a solidão pode ser fecunda: podemos encontrar facilmente tudo o que precisamos – a inspiração, a calma, a concentração e, no caso particular da fotografia, os bons motivos. Eu não sei se as minhas fotografias valem o suficiente para que me considere um criador; sei, contudo, que se um dia fizer fotografias com valor, terão sido feitas sozinho, porque quero que emanem de mim e só de mim. Serão uma expressão pessoal e transmitirão algo que só eu sou capaz de sentir.

Não é para mim inconcebível que outras pessoas gostem de fotografar acompanhadas; por vezes desafiam-me para irmos tirar umas fotos, mas escuso-me. Não porque não estime essas pessoas, mas porque fotografar é para mim um acto pessoal. A fotografia é para ser mostrada; o acto de fotografar não.

M. V. M.

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Uma opinião sobre “Sobre fotografar sozinho”

  1. Em parte, também concordo, mas apesar de me sentir perfeitamente bem quando fotografo sozinha ha alturas em que o prefiro fazer com companhia. Se o resultado é melhor ou pior é que nao sei avaliar, até porque até agora ainda só somo 3 rolos e uma dúzia de fotos em digital…

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