Ao virar de cada esquina

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de quase dois anos a procurá-lo obstinadamente, encontrei um Citroën DS no dia 15 de Dezembro do ano passado e fotografei-o. Desde então parece que não posso sair à rua sem encontrar um: no Domingo, 16 de Fevereiro, encontrei mais um; ontem, 23, dei com outro. O primeiro estava no meio de uma concentração – embora informal – de clássicos na Foz. Aliás, a sessão fotográfica desse dia foi como pescar num viveiro: não precisei de fazer qualquer esforço para encontrar clássicos. O Boca-de-sapo de ontem estava mais isolado, embora a poucos metros do local da concentração da semana anterior. Não posso dizer que a sorte tenha estado totalmente do meu lado: já tinha poucos fotogramas por expor e o rolo chegou ao fim depois de três fotografias. É melhor que tenham ficado decentes!

Passada toda esta penúria, os DS aparecem-me ao virar de cada esquina. Pode dizer-se que não há fome que não dê em fartura. Ainda bem que é assim – porque, além de imensamente fotogénico, o DS é um automóvel com um lugar só dele na história do automóvel. E não apenas pela estética: este é um dos automóveis com maior número de inovações técnicas e tecnológicas, o que o torna importante na evolução do automóvel. Em 1955, ano da sua apresentação, estava equipado com direcção assistida, travões de disco, suspensão hidropneumática autonivelante, cintos de segurança de série, faróis direccionais e uma caixa de velocidades semiautomática que prescindia do pedal da embraiagem. Um carro verdadeiramente revolucionário que deve, com certeza, ter causado uma sensação de estranheza e fascínio quando foi lançado, em 1955, no Salão Internacional do Automóvel de Paris. Numa altura em que os automóveis eram quase todos inspirados nas linhas dos carros americanos, nos Buicks e Cadillacs de linhas redondas e de barbatanas proeminentes, o DS deve ter sido uma aparição, como uma nave espacial vinda de uma banda desenhada do Flash Gordon que se tivesse materializado e tornado automóvel.

Comparado com outros topo-de-gama da sua época, o DS era, de muito longe, o mais avançado: podia não ser o mais luxuoso – embora fosse dos mais caros –, e a Citroën, apesar de tudo, nunca teve o prestígio de uma Mercedes ou a imagem dinâmica de uma Alfa Romeo, mas o DS era um automóvel que mais parecia surgido de um laboratório, um carro cuja linha era a manifestação exterior de um conteúdo tecnológico que era simplesmente único. Os engenheiros da Citroën não seguiram o caminho de tentar agradar a todos os compradores e propuseram-se fazer um automóvel resolutamente diferente que contivesse todos os avanços da indústria automóvel em matéria de conforto e segurança. Decerto, os DS eram pouco potentes e tinham problemas de corrosão graves, mas nenhum outro automóvel se parecia com aquele nem competia com ele em conforto, segurança e inovação.

Por que persegui eu este automóvel tão teimosamente? E, já agora, qual a relevância disto para a fotografia e para os leitores do Número f/? Bem, quando era chavalo já gostava de automóveis. No meio dos carros daquela época, que consistiam em viaturas tão interessantes como os Ford Cortina e os Austin 1100, o DS era um automóvel particularmente distinto, mesmo muitos anos depois do seu lançamento. Não se confundia com nenhum outro. As suas linhas eram de tal maneira ousadas que este automóvel manteve o seu ar de carro do futuro mesmo nos anos 70, quando o design automóvel já evoluíra e abandonara as linhas moles e balofas das pequenas imitações de automóveis americanos que pululavam nas ruas e nas estradas. Para o pequeno M. V. M., ver um DS era uma fonte inesgotável de espanto e maravilhamento: era um automóvel solene, majestoso e distinto, quase inacessível na sua singularidade, mas, ao mesmo tempo, estranho – como se não fosse deste planeta. Foi esta impressão duradoura, quase de reverência, que me levou a considerar o DS o automóvel mais sofisticado e distinto de sempre – até surgir o Citroën SM.

É evidente que esta impressão, conjugada com o gosto por automóveis – que perdurou até hoje e não parece dar sinais de querer desaparecer –, tinha de se aliar a este gosto mais recente pela fotografia: fotografar um DS era algo que simplesmente não podia deixar de fazer – mais tarde ou mais cedo teria de acontecer. E vou fazer tantas fotografias quantas as oportunidades que tiver, porque quero fazer a fotografia perfeita do Citroën DS. Perfeita para mim, claro: pode não o ser para mais ninguém, mas tem de ser uma que me deixe completamente satisfeito.

Uma vez que mencionei o facto de ter esgotado um rolo com esta sessão de três fotografias, cumpre também informar que o dito rolo é o Ilford Pan F 50, que conto enviar para revelação e digitalização ASAP. Tenho bastante curiosidade em saber o que este rolo vale, porque nunca tinha fotografado com uma velocidade tão baixa. Não será um rolo para usar com regularidade – ASA 50 é limitativo em muitas situações fotográficas, como a fotografia de interiores –, mas espero algumas conclusões curiosas. Stay tuned

M. V. M.

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