(I)literacia

Na página das estatísticas do Número f/, que diligentemente me mantém informado sobre quais os termos de pesquisa usados pelos visitantes para descobrir este blogue, apercebi-me que um motor de busca, provavelmente o Google, trouxe o respectivo utilizador até este blogue depois de ter pesquisado «o que significa inteligível».

Tenho de confessar que nunca imaginei que o adjectivo «inteligível» pudesse ser havido por alguém como uma palavra difícil ou, pelo menos, desconhecida. Nunca me passou pela cabeça que fosse uma palavra complicada: se aceitarem um trocadilho estúpido, nunca imaginei que a palavra «inteligível» fosse ininteligível. Não será decerto uma palavra que se use com muita frequência, mas pareceu-me sempre suficientemente comum para que fosse do conhecimento de todos. Aparentemente, enganei-me.

E, no entanto, «inteligível» não devia ser uma palavra cara. O facto de o ser para alguém só pode querer dizer que, a despeito de vários séculos de democracia – sendo que, no último deles, foi construído o estado social –, o ensino universal e tendencialmente gratuito tem ainda muitas falhas. Ou, em muitos casos, nem sequer chegou a ser implementado. Parece-me que o caminho normal do ensino para a sua verdadeira universalização inflectiu algures no caminho, deixando a sua obra incompleta. Não quero, de maneira nenhuma, colocar toda a culpa no estado, na escola ou nos professores, porque sei bem que cábulas sempre os houve, tal como sempre existiram e existirão pessoas refractárias por natureza à aprendizagem, mas parece-me que alguma coisa falhou nos sistemas de ensino e, em geral, na evolução da sociedade. É que esta busca do Google é apenas um grão de areia no extenso areal da iliteracia. Quando navego pela Internet e dou comigo em espaços de comentários, fico consistentemente horrorizado com os erros primários que leio. Isto não me faz sentir superior, nem me traz consolo por imaginar que estou numa classe distinta pela sua erudição: pelo contrário, isto assusta-me porque faz-me perceber que os sistemas de ensino falharam a sua missão de ensinar a totalidade da população. E, sobretudo, de ensiná-la com a qualidade exigível. Isto é, provavelmente, intencional: investir menos no ensino, contribuindo para que menos pessoas tenham acesso ao conhecimento, é decerto favorável a alguém: uma pessoa iletrada não lê nem se informa – é mais um carneiro no rebanho, pronto a seguir o pastor sem fazer perguntas e formatada para obedecer.

Os mais atentos poderão ter notado que aludi aos sistemas de ensino. Empreguei o plural. Propositadamente, porque este não é um fenómeno exclusivamente português. Apesar da nossa tendência endémica para pensarmos que somos o pior país do mundo, em que tudo o que é mau acontece, este fenómeno da iliteracia é universal. Nos sites de língua inglesa que frequento, os erros são tantos e de tal natureza que me fazem pensar se aquelas pessoas frequentaram a escola. Mais uma vez tenho de o dizer: não escrevo assim por arrogância, mas por surpresa. Surpreende-me ver que, apesar de todas as novas competências que se adquirem na escola, as questões mais básicas parecem estar a ser negligenciadas. É assim com o português – ou com a língua materna de seja que país for –, mas também com a matemática. Deveremos culpar os alunos? Os professores? O sistema de ensino? O Estado? O mundo em que vivemos?

Ou será antes o facto de os sistemas de ensino ocidentais prepararem os alunos para uma profissão, em lugar de os formar como seres humanos completos e sapientes? É bem possível que as escolas se estejam a transformar em linhas de montagem de criaturas produtivas, como se fossem apenas peças que vão integrar um mecanismo. E as peças não precisam de ser muito letradas: basta fornecer-lhes o entretenimento em doses necessárias para que não se apercebam que são apenas peças de uma maquinaria que mais tarde ou mais cedo os rejeitará, por já não precisarem delas ou por serem demasiado velhas para funcionar correctamente. E uma peça mecânica não precisa de saber o que significa «inteligível».

M. V. M.

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