Dos benefícios de fotografar com sensibilidades reduzidas

f536pan_product_1_media_galleryEstou, presentemente, a usar um rolo ASA 50. Quer se use a expressão ASA (de American Standards Association), que prefiro por pertencer ao mundo da película, quer nos exprimamos em termos de ISO, também usado na fotografia convencional mas com maior incidência na digital, ASA 50 (ou ISO 50) é um valor de sensibilidade muito baixo. É mesmo o valor mais baixo que já usei em toda a minha experiência de amador da fotografia, independentemente do modo como as câmara que usei registam as imagens. Esta é uma velocidade que me obriga a usar 1 EV abaixo do que é normal. Em lugar de fotografar a 1/500, tenho de usar 1/250; em lugar de 1/1000, uso 1/500. Isto obriga-me, por força da lei da reciprocidade, a usar aberturas maiores – o que não é tão mau como cheguei a pensar. Fotografias de interiores com pouca luz e ao anoitecer sem um tripé estão fora de questão, evidentemente, mas uma sensibilidade tão baixa é óptima para fotografar sob luz intensa: tem-se um domínio muito maior da exposição e da profundidade de campo. Usar aberturas mais largas é uma vantagem em muitas ocasiões: por exemplo, quando fotografo surfistas, um dos meus temas preferidos. Para quem tem uma câmara limitada a 1/1000, isto é um benefício incomensurável. Embora a OM-2 se comporte melhor a 1/1000 que a E-P1 a 1/4000 quando apontada para uma fonte de luz intensa, a redução na sensibilidade à luz é sempre vantajosa nestas condições: é como se tivesse montado um filtro de densidade neutra de 1 EV. Deste modo não tenho de optar por aberturas da ordem dos f/11 ou f/16, as quais introduzem difracção.

Os valores de sensibilidade baixos são sempre recomendáveis, a menos que precisemos insuprivelmente de fotografar com pouca luz (o que, convenhamos, não acontece assim com tanta frequência) e não possamos recorrer ao flash ou ao tripé. Em condições de luz intensa, pode-se fotografar sem o receio de sobreexpor; sob luz normal, é possível usar aberturas maiores sem que a imagem perca contraste ou nitidez. Contudo, o que vemos hoje é uma tendência universal para a procura de valores de sensibilidade extremamente altos, à custa de uma mentalidade que valora mais os algarismos do que a percepção: todos querem que as fotografias feitas com ISO 25200 fiquem perfeitamente nítidas, como se, de repente, todos tivessemos sido acometidos da premência de fotografar sob escuridão total sem flash nem tripé. Claro que a quantidade de ocasiões em que essas pessoas vão usar essas sensibilidades não justifica a aquisição das câmaras que são capazes desses valores – em regra as full frame como a Canon 5D e as profissionais –, mas é como avaliar um carro pela velocidade que consta do taquímetro: não chegamos a atingir essa velocidade, mas podemos sempre gabar-nos, nas conversas com os amigos, que o nosso carro 250 Km/h. Há pessoas assim. Elas andem aí.

Pessoalmente, gostava que houvesse mais fabricantes a apetrechar as suas câmaras digitais com uma sensibilidade ISO 50. A Nikon fá-lo, mas tanto quanto é do meu conhecimento nenhuma outra marca propõe valores ISO abaixo dos 100 (mas posso estar enganado). É que, além da vantagem de usar aberturas maiores, um valor ISO assim baixo tem outra vantagem sobre a qual ainda não me pronunciei, mas faço-o agora: o ruído, tal como o grão nas películas, é muito menor. Tanto nas películas como nos sensores, quanto menor for a sensibilidade, menores são também esses artefactos designados, respectivamente, como grão e ruído. Isto significa, evidentemente, imagens mais limpas. Mesmo na fotografia nocturna, desde que se use um tripé, é melhor usar sensibilidades baixas, já que o ruído não afectará a qualidade da imagem. O mesmo quando se usam rolos: usar um rolo ASA 50 ou 100 garante fotografias isentas de grão. Apesar de o grão poder ser usado em benefício da fotografia em muitas ocasiões, o ruído digital só estraga. Mesmo o grão, quando é demasiado agressivo (como no Ilford HP5, mas não no Tri-X 400), estraga mais do que beneficia. Tive sempre a percepção de que o ruído é o maior inimigo da qualidade de imagem e, até hoje, ainda não aconteceu nada que me provasse o contrário. Não gosto de ver ruído nas fotografias, especialmente se este for de crominância. E também não gosto de um grão agressivo nas películas.

Que aprendi, então, com este uso de um rolo ASA 50? Que se torna muito mais fácil e recompensador fotografar sob luz intensa, antes do mais. E que, quando se fotografa, deve sempre jogar-se com o tempo de exposição e com a abertura, e não apenas com um deles. Usar aberturas grandes só traz vantagens, desde que não se abuse do valor máximo de que lente é capaz. No terreno – e eu só posso pronunciar-me sobre este aspecto, porque ainda não conheço os resultados das fotografias que estou a fazer com este rolo –, aquilo que se pode aprender sobre os requisitos da exposição, ao usar uma sensibilidade tão baixa, é imenso: é, certamente, muito mais do que aquilo que aprendi depois de usar rolos ASA 400 e infinitamente mais do que quando uso sensibilidades ISO elevadas na câmara digital: o único ensinamento que recolhi, sempre que fotografei com ISO 800 numa câmara digital, é que as fotografias ficam imprestáveis. O que, convenhamos, não é um contributo assim tão grande para a aprendizagem da fotografia.

M. V. M.

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1 thought on “Dos benefícios de fotografar com sensibilidades reduzidas”

  1. Caro MVM:

    As Pentax (pelo menos a K5) permitem ir até ISO 80, mas esqueço-me com frequência desta possibilidade, pois é necessário ter uma função designada por “Sensibilidade expandida” em “on”. Esta mesma função permite igualmente chegar, no extremo oposto, a ISO 51200 (ruído em quantidades industriais).
    Um facto é que nunca comparei a prestação a ISO 100 com ISO 80, mas penso que a diferença não será muita.
    Nota: li num fórum de fotografia que agora não me recordo qual (penso que terá sido no dpreview, mas não tenho a certeza) que alguns fabricantes “mentem” em relação aos valores ISO – por exemplo quando está selecionado ISO 6400 o valor real é um pouco mais baixo, aí por volta de 5000 (aproximado). Não sei se isto é verdade ou não, mas fica a informação.

    Cumprimentos

    Paulo Rodrigues

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