A fotografia como representação da realidade

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A grande diferença entre a fotografia e as artes, em especial as plásticas, está no facto de a primeira estar confinada ao real. As artes, essas, podem ser representações do real ou explorar livremente arquétipos que apenas existem na mente dos seus criadores; é uma opção do artista. Já tivemos movimentos artísticos cuja ligação à realidade era total e outros em que se prescindia da realidade por completo. A fotografia, por seu turno, é sempre uma representação do real porque parte sempre dele. A fotografia está limitada aos objectos que se podem ver, sentir e tocar. É evidente que o mundo interior, explorado nas outras artes pelos seus autores, é mais vasto, por não ter um lastro físico, que a matéria que constitui o objecto da fotografia. O pintor, o escritor e o músico podem libertar-se das fronteiras da materialidade e explorar territórios criados pelas suas mentes; o fotógrafo não. Ele tem por objecto da sua arte a realidade. Por outras palavras: o fotógrafo não pode inventar. Ele não pode alterar a realidade; o seu ponto de partida, de onde nasce a sua criação, é imutável e objectivo.

É esta dependência do real que distingue a fotografia das outras artes. Enquanto estas podem ser criadas a partir de uma ideia, a fotografia está amarrada à materialidade. Esta é, não uma limitação, mas o maior desafio da fotografia: tomar um objecto real e concreto e exprimir uma ideia original tendo-o por ponto de partida. O ponto de partida da fotografia é sempre a realidade, a qual não pode ser alterada: mesmo quando se compõe uma natureza morta, em que o fotógrafo pode criar uma nova realidade, os objectos que vão figurar no enquadramento são reais.

Naturalmente, esta aptidão para descrever a realidade explica que uma percentagem avassaladora das fotografias existentes tenha um carácter meramente documental, ilustrando a realidade que se vê. Isto nada acrescenta à fotografia enquanto arte, mas esta é uma questão que não interessa aqui discutir.

O que o fotógrafo pode fazer – e fá-lo frequentemente, quando é bom – é interpretar a realidade que vê. Claro que esta interpretação é feita de acordo com a sua maneira de ver as coisas, que pressupõe um acervo de experiências e uma sensibilidade que pode levá-lo a transformar o objecto real que vê (ou antes a transformar a percepção desse objecto) numa abstracção dificilmente reconhecível na sua forma, mas o ponto de partida é sempre o concreto com que se depara quando fotografa.

Nem toda a gente vê a realidade da mesma maneira. Desde sempre se discutiu, na filosofia, o que é a realidade. Berkeley afirmava que os objectos só existiam pela nossa percepção, Kant que vemos a realidade através de lentes coloridas. Ninguém pode afirmar, ao certo, de uma forma peremptória e definitiva, o que é o real. Há sempre interpretações diferentes de um objecto concreto e este pode ser mostrado de inúmeras maneiras. É aqui que a fotografia encontra a sua força. Enquanto representação do real, ela é – ou pode ser – uma interpretação do nosso real. Esta subjectividade é que torna a fotografia uma forma de arte rica e inspiradora.

Por tudo isto, não tenho grandes dúvidas de que a realidade que é a matéria-prima da fotografia está longe de ser uma limitação da expressão fotográfica. O que torna a fotografia aliciante é exactamente a diversidade das maneiras de interpretar os objectos reais e materiais com que o fotógrafo se depara. Estes estão à vista de todos e, como tal, podem ser fotografados. O interesse de uma fotografia está em como esses objectos são mostrados pelo fotógrafo. Pode sê-lo de uma forma absolutamente prosaica, descrevendo o objecto tal como ele pode ser visto por qualquer um, ou pode ser o resultado de uma mente original e criativa. Daí que, mesmo que um determinado motivo já tenha sido fotografado milhões de vezes, haja sempre um modo diferente de representá-lo. É por esta razão que a fotografia é inesgotável.

M. V. M.

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