Contraste

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Tenho para mim que o contraste é o elemento mais importante no aspecto gráfico de uma fotografia a preto-e-branco. Se estiver ausente, a fotografia não faz sentido. O contraste é o que chama a atenção numa fotografia. É, na maior parte dos casos, a sua razão de ser. Na fotografia a cores, o problema do contraste fica resolvido automaticamente na maior parte dos cenários, porque a própria cor se encarrega de o estabelecer. No preto-e-branco, porém, não há uma cor que sobressaia e providencie o contraste porque só há uma cor e respectivas tonalidades. O preto-e-branco implica, necessariamente, uma diferença tonal significativa entre os vários elementos presentes no enquadramento.

No ano passado, pelo Verão, andava a fotografar na freguesia da Sé, mais precisamente na parte habitada das Escadas do Codeçal – mais ou menos por baixo do tabuleiro superior da Ponte Luiz I. Um puto, dos seus nove ou dez anos, fazia traquinices para irritar a mãe (ou a irmã, ou a tia, não faço ideia) com expressões corporais e faciais burlescas. Fotografei-o, sem pedir licença a ninguém, numa das suas poses pantomimeiras. Como nessa altura estava a fotografar digital, converti a fotografia para preto-e-branco – nessa fase já só concebia fotografias monocromáticas – no DxO Pro 8.

O resultado foi um fracasso. O catraio não se distinguia do cenário das escadas e das casas. Não havia uma diferença tonal significativa entre o motivo e o fundo. Pelo contrário, a roupa que o puto usava fazia, pela sua textura, parecer que estava camuflado, pois mal se conseguia dar pela sua presença. O resultado desta conversão para preto-e-branco foi uma fotografia excessivamente homogénea na qual o olhar não se fixava no que devia ser o seu motivo de interesse. Por muito que manipulasse a curva de tons, os comandos do contraste e os das sombras, negros e altas luzes, o resultado foi sempre insatisfatório: não havia maneira de realçar o motivo.

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Por outras palavras: não havia contraste. Não havia nada que chamasse a atenção, o motivo não sobressaía, não se destacava do enquadramento, não saltava aos olhos. Acabei por manter a fotografia com as suas cores, porque esta era a única maneira de dar algum ênfase ao motivo. (Outra maneira teria sido reduzir a profundidade de campo, o que não era possível dada a distância considerável entre mim e o miúdo.) O resultado foi que, apesar de a fotografia ter ganho a sua razão de ser com a preservação da cor, não me deixou lá muito satisfeito.

Uma fotografia sem contraste é, por definição, desinteressante. Um desconsolo. No caso da fotografia a cores, estas tornam-se mortiças e criam uma sensação desagradável à vista; na fotografia a preto-e-branco, a imagem torna-se indistinta e apagada, sem que nada atraia os sentidos. O grau de contraste necessário para que a fotografia se torne satisfatória, porém, depende em muito de quem fotografa: alguns usam um contraste menor intencionalmente, de maneira a obter uma imagem propositadamente ambígua e indefinida – o que é válido, desde que seja consciente; outros levam o contraste tão longe que transformam a fotografia num chiaroscuro (o que é igualmente válido, evidentemente, mas só quando se sabe o que se está a fazer). Pessoalmente, penso que a fotografia não pode viver sem elementos contrastantes. Gosto de linhas sólidas, bem desenhadas e proeminentes, pelo que o contraste é essencial. Nem sempre é necessário um contraste pronunciado para conferir expressão à fotografia, mas tem sempre de haver um mínimo para que a imagem resulte.

M. V. M.

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