O Agfa APX 100

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As digitalizações do Agfa APX 100 chegaram mais cedo do que o previsto, mas não posso dizer que tenha ficado terrivelmente excitado com o que vi. Antes de mais, fiz uma coisa que não quero voltar a fazer: fiz fotografias só para testar, para ver como o rolo reagia a certas condições de luz. Não consegui, em relação aos fotogramas em que procedi dessa maneira, deixar de ficar com uma sensação dolorosa de desperdício e esbanjamento – não apenas por causa do dinheiro, embora esse seja um factor importante, mas porque sinto que, ao agir dessa maneira, apunhalei o espírito da fotografia pelas costas. Um rolo não é para fazer fotografias irrelevantes e desinteressantes: para isso tenho uma câmara digital, com a qual posso fazer todos os disparates que entender necessários. Fiquei, numa palavra, com pena de ter tido pressa em expor o rolo e ver os resultados. Não voltarei a fazê-lo: mesmo quando estiver a experimentar outros rolos, vou agir como se estivesse a usar o meu rolo de sempre e procurar fazer fotografias das quais sinta algum orgulho.

Dito isto, aqui ficam as minhas impressões sobre o Agfa APX 100:

Este é um rolo que me deixou indeciso porque, ao contrário dos Ilford, não tem um comportamento homogéneo: nalgumas fotografias é tão bom ou melhor que o FP4, mas noutras os resultados podem ir da mediania ao fracasso rotundo.

Ao contrário dos Ilford, o Agfa não reage muito bem a ser exposto contra a luz: nestes casos as altas luzes dominam por completo a imagem. Eu pensava que o Ilford FP4 era um rolo demasiado entusiástico com as altas luzes, mas o Agfa é ainda mais exuberante. O problema é que os médios tons são também afectados, privando a fotografia de contraste. E o preto-e-branco vive do contraste. Nas fotografias feitas debaixo de sombra existe a mesma perda de contraste, deixando as fotografias algo deslavadas. Esta característica, que é mais ou menos de esperar num rolo ASA 100, lembra-me o Kodak T-Max 100.

Em contrapartida, sob condições de luz ideais, o Agfa APX é capaz de uma qualidade maravilhosa: a nitidez, embora não esteja ao nível dos Ilford, é contudo bastante melhor que a do T-Max. Não há aquele microcontraste que me fez optar pelo Ilford FP4, mas a resolução que há é francamente entusiasmante. Mais ainda: quando o contraste está presente, os resultados são muito, muito bons. Penso que a imagem acima, apesar da baixa resolução, é eloquente. Talvez esta fosse a característica mais previsível do Agfa, atenta a sua velocidade ASA 100 – o contraste aumenta na proporção inversa da sensibilidade à luz –, mas não deixa de ser surpreendente, porque é um tipo de contraste que deixa o Kodak T-Max 100 a chorar baba e ranho e, em certas imagens, se mostrou mesmo superior aos Ilford. O problema é que não consegui obter este contraste com o nível de consistência que extraio do FP4: seja contra o sol, à sombra ou na semiobscuridade, o Ilford nunca falha na reprodução do contraste. Só mesmo se eu sobreexpuser grosseiramente é que perco contraste.

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Por outro lado, este rolo dá à maior parte das fotografias um aspecto excessivamente granuloso, privando a imagem de limpidez. Este é um facto que está completamente fora da minha compreensão, por ser um rolo ASA 100 e, desse modo, dever, teoricamente, ser isento de grão. Fiquei perplexo ao ver que certas fotografias têm um aspecto decididamente ordinário e lo-fi que, de todo, não esperava. Não faço ideia qual a explicação para este fenómeno, que é mais patente em certas fotografias feitas a contraluz.

Avaliando as fotografias que fiz, parece-me que o Agfa APX se comporta melhor se for ligeiramente subexposto. Penso que a sua qualidade se deteriora com o uso de aberturas amplas, pelo que o melhor será usar tempos de exposição longos e aberturas mais estreitas que aquelas que seria normal usar. As fotografias que fiz com a lente 28mm-f/3.5 pareceram-me bastante melhores que aquelas em que usei a 50mm-f/1.4, o que pode significar que o Agfa não se dá bem com grandes aberturas. A minha recomendação é que se use este rolo com a agulha do fotómetro a apontar ligeiramente para baixo.

Por esta altura o leitor já terá percebido que o Agfa APX 100 não conseguiu convencer-me e não fará mudar a minha preferência pelo Ilford FP4. O APX não tem nem a resolução, nem a limpidez do Ilford. Contudo, há muito de bom a dizer quanto ao Agfa. Em primeiro lugar, devo dizer que a comparação entre os dois rolos é injusta: o Ilford é um rolo de qualidade premium que seria ainda mais caro se, à semelhança de quase todos os outros rolos de 35mm, fosse embalado dentro de um cilindro de plástico e de uma caixa de cartão. Só a poupança no packaging obtida com a folha de plástico, que o faz parecer um rebuçado king-size, permite que seja vendido por €6,50. Ora, o Agfa, com a sua embalagem convencional, custa €4,50. Não está na mesma categoria. Que este rolo consiga, pelo menos sob certas condições, fazer imagens tão boas como o Ilford FP4, é um feito absolutamente notável. Talvez mereça uma segunda oportunidade.

M. V. M.

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