Os erros da fotografia digital

dp2quattro

Leio no texto de apresentação da Sigma DP2 Quattro, apresentada hoje:

«…[The] Foveon direct image sensor is similar to traditional color film in that its multiple layers capture all of the information that visible light transmits.»

A sério? Só agora é que descobriram que a película descreve melhor as cores que os sensores digitais? O facto de haver um fabricante que entendeu voltar atrás e tentar perceber porquê é bom e saudável – mas não será, ao mesmo tempo, uma confissão, ou a admissão de um fracasso?

A fotografia digital foi introduzida de forma apressada. Foi mal pensada e pior executada, mas a sua introdução abriu (que digo?: escancarou) as portas de um mercado imensamente lucrativo. A sua aceitação por um público vastíssimo e ávido, quer pela novidade, quer pela simplicidade que o digital trouxe a pessoas para quem instalar e mudar um rolo era uma tarefa inaceitavelmente complicada, determinou o seu sucesso e fez com que a fotografia convencional fosse abandonada por todos os grandes fabricantes (com a excepção da Nikon, que, embora de modo residual, mantém em produção duas câmaras de película).

Pode estabelecer-se aqui uma analogia com o que está a acontecer na indústria fonográfica, trinta e dois anos depois da introdução do CD. A qualidade dos primeiros CD e seus leitores era absolutamente horrenda, fruto da pressa que a Sony e a Philips tiveram em lançar o suporte no mercado. Tal como na fotografia, apenas mostraram ao público o lado prático, que libertou os consumidores do pesadelo de se levantarem para virar um disco ao fim de vinte minutos de audição, adicionando-lhe promessas falsas de qualidade sonora que a realidade rapidamente se encarregou de desmentir: pouco mais tarde já havia fabricantes a anunciar leitores de CD com um desempenho sonoro similar ao do vinil! Não admira que, depois dos sucessivos fracassos do upsampling (que pretendia extrair uma resolução de 24 bits de um formato limitado a 16 bits) e do SACD, tentativas inúteis de melhorar o som digital que foram remetidas para os abismos do esquecimento, as vendas dos CD estejam em declínio enquanto as dos LP estão a crescer – embora, evidentemente, o volume de vendas seja pouco mais que residual.

A história da fotografia digital tem sido a de uma lenta correcção dos erros acumulados. Decerto, evoluiu-se muito em matéria de qualidade da imagem desde que as primeiras câmaras com resolução de poucos milhares de megapixéis foram lançadas, mas a pressa na implantação do digital levou a que se descurassem aspectos importantes da qualidade da imagem, como desde logo a precisão na captura das cores. Ao mesmo tempo, surgiram problemas que ainda estão por resolver de forma satisfatória, como a gama dinâmica limitada e o ruído. Em contrapartida, e a despeito de uma evolução evidente que teve lugar, os fabricantes preocuparam-se em apresentar sensibilidades ISO elevadíssimas (que expunham o problema do ruído) e resoluções astronómicas como argumentos de vendas, sem que os problemas básicos da fotografia digital estivessem ainda resolvidos.

quattro_solution_imageQuando a Sigma lançou o seu sensor Foveon, pareceu-me uma ideia genial: três camadas de fotosensores sobrepostas, cada uma captando a sua cor primária – tal como as gelatinas da película a cores. E, de facto, as Sigma eram as câmaras que mostravam as cores mais neutras e precisas, embora à custa de uma sensibilidade ISO que não podia ir muito além de 3200. A camada superior do sensor captava o verde, as outras o azul e o vermelho. Na teoria parecia perfeito, mas agora a Sigma parece ter encontrado algum problema substancial nessa configuração e, nesta nova geração dos sensores Foveon, a camada superior (que tem quatro vezes a resolução das inferiores) capta a cor azul. O que significa, evidentemente, que as primeiras gerações dos Foveon não eram perfeitas. Vamos ver os primeiros resultados destas estranhas câmaras para ver se a Sigma tem ou não razão ao querer reproduzir o modo de captura das cores empregue pelos rolos no domínio digital. Se tiver êxito, sinto-me à vontade para formular a conclusão que a indústria fotográfica andou a laborar em erro durante todos estes anos e que afinal os fabricantes de películas sabiam bem mais de fotografia que os técnicos da era digital.

M. V. M.

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