Fora do tema: um grande romance do Século XX

Hoje é Domingo. À hora em que escrevo, chove se Deus a dá; e, para a tarde, anuncia-se temporal. Mais um Domingo sem fotografar, apesar de ainda ter meia-dúzia de fotogramas por expor no Agfa APX 100 que ando a experimentar e em relação ao qual tenho bastantes expectativas. Como não me ocorre nada de importante sobre o que escrever no tópico da fotografia, o melhor é fazer uma pausa. Hoje o tema é um daqueles que as estatísticas do WordPress mostram serem profundamente impopulares: literatura.

Como sou uma pessoa dada a descobertas tardias, só na semana passada conheci uma obra daquele que é um dos autores portugueses mais importantes do Século XX. O seu nome é José Maria Ferreira de Castro, natural de Ossela, concelho de Oliveira de Azeméis, onde nasceu no dia 24 de Maio de 1898. Ferreira de Castro, oriundo de uma família rural, emigrou para o Brasil quando tinha apenas doze anos, tendo essa permanência no estrangeiro gerado os seus dois romances mais importantes: A Selva e o que acabei de ler na Sexta-Feira, Emigrantes.

cf-emigrantesEmigrantes é uma obra singular. Devo dizer que o estilo literário deste romance não me suscitou grande interesse: é um modo antiquado de escrever português, que hoje parece datado – bem mais do que os estilos de Eça de Queiroz ou Camilo, que o precederam por muitas décadas. É uma forma de escrever que está num limbo perigoso; situa-se num espaço ingrato entre a imortalidade de obras como Os Maias e a contemporaneidade, sem poder aspirar a um e quedando-se longe do outro. Talvez um dia, dentro de várias décadas, se possa ler Ferreira de Castro com o mesmo agrado que hoje se lê Miguel Torga ou Luiz Pacheco, esses mestres da língua portuguesa que a trataram como nenhum outro desde então.

Questões de estilo à parte, a verdade é que Emigrantes é uma das obras maiores da literatura portuguesa do Século XX. O enredo é singelo e baseia-se largamente na experiência pessoal do próprio Ferrreira de Castro, com a diferença importante de a personagem principal, Manuel da Bouça, ser um homem de quarenta anos, com família constituída e já senhor de alguns haveres (embora insuficientes para o retirar da pobreza). A escrita de Ferreira de Castro é pungente, profunda e penetrante: o retrato psicológico das personagens, em particular de Manuel da Bouça, é especialmente vívido, de uma verosimilhança que dir-se-ia serem personagens reais, e não ficcionadas. Manuel da Bouça é um pobre agricultor que sonha com a riqueza que descobre nos “brasileiros”, os emigrantes que retornam à terra depois de uma permanência no Brasil. Dá os seus escassos bens de hipoteca para pagar a viagem, deixa a mulher Amélia e a filha Deolinda e parte, não tendo mais que um nome e um endereço, pertencentes a alguém que mal conhecia, como referências no Brasil.

A narrativa de Emigrantes é a descrição da miséria do Portugal rural do início do Século XX e da realidade da emigração. As condições de pobreza indignas em que Manuel da Bouça vivia contrastam com a riqueza dos “brasileiros”, e aquele imagina que, com o seu trabalho, poderá aceder a idêntica condição. O que Manuel da Bouça encontra, quando emigra, é uma miséria ainda maior que aquela que conhecia na sua terra e a exploração pela qual os proprietários prosperam à custa de salários e condições indignas e miseráveis. O confronto entre os sonhos de Manuel da Bouça e a realidade que encontra é construído progressivamente, como se Ferreira de Castro compusesse um contraponto entre o fracasso do empreendimento de Manuel da Bouça e o crescimento da sua frustração, acompanhados pela erosão dos valores de uma moralidade erigida em princípios simples e sãos que a personagem vai perdendo até atingir a mais completa e abjecta indignidade, considerada por ele um compromisso justo porque lhe vai permitir custear a passagem de volta para Portugal após nove anos em que se desfizeram todas as suas ilusões, tornando-o num homem que já não se conhece a si próprio, viu toda a sua vida sendo destruída e no fim não tem mais que a mentira para mostrar aos conterrâneos: a sua realidade é a de um homem derrotado, envergonhado de si mesmo e daquilo em que se tornou, que prefere desaparecer do lugar para onde voltou e perder-se no anonimato da grande cidade onde ninguém o conhece.

A profundidade da personagem Manuel da Bouça é, de longe, o mais interessante desta obra: homem rude e simples, analfabeto sonhando singelamente com a riqueza que lhe permitirá custear o dote da filha Deolinda e libertar-se da pobreza (a qual não era, afinal, tão extrema e indigna quanto a ele mesmo parecia), vê-se confrontado com a destruição cruel de todas as ilusões. Apesar de se tornar cada vez mais consciente da adversidade e de ter a oportunidade de ser um agente da mudança, pelo seu contacto com as forças sindicais e revolucionárias, Manuel da Bouça é um homem cuja simplicidade o priva de saber lidar com a adversidade. É, sobretudo, uma testemunha de um mundo injusto e impiedoso, mundo de que se apercebe através da sua mente ainda simples, ainda ingénua. E é uma personagem sozinha, que vive para si mesmo os seus infortúnios e a sua queda.

Não se pode extrair, da leitura de Emigrantes, uma mensagem axiológica, política ou moralista: é, antes, uma descrição do real através de olhos inocentes e impolutos – os mesmos com que a criança e o adolescente Ferreira de Castro viu as atribulações dos que emigram na perseguição de um sonho que não apenas nunca se concretizará como é, na realidade, o oposto do que fora fantasiado. Não há, em Emigrantes, a apologia de uma vida simples e conformada com a pobreza, como Salazar teria gostado, nem há nele uma mensagem política e revolucionária que agradaria à intelectualidade contemporânea (pelo contrário, o sindicalismo e a movimentação revolucionária redundam em fracasso e derrota). Nem sequer há uma denúncia, um manifesto político ou social: o que se lê em Emigrantes é um relato preciso e fidedigno, embora consciente e procurando a simpatia do leitor ao acentuar as notas onde se lê a injustiça e a desigualdade: um exemplo é o esplendor da riqueza de Nunes, conseguida de forma vil (Nunes é um indivíduo odioso que fez fortuna com as passagens dos emigrantes que pretendem embarcar para o Brasil e os Estados Unidos, os quais induzia em logro ao convencê-los de que os esperavam fortunas, embora soubesse da existência de uma crise da emigração nos países de destino), contrastando com a miséria que restou a Manuel da Bouça, que perdeu tudo o que tinha – incluindo a honra.

Emigrantes é um livro singelo e escrito num estilo directo e aperfeiçoável, mas de uma densidade poderosa. Teve a virtude de ser o precursor, em Portugal, do realismo que teve como nomes maiores John Steinbeck ou Erskine Caldwell. Acima de tudo, é uma descrição pungente dos sentimentos de um homem que perdeu tudo por conta da sua ambição ingénua – como acontecera a muitos milhares antes dele e continuou a acontecer depois. Até pode antever-se neste romance, perto do final, uma nota profética na narração de um episódio de tráfico de seres humanos que faz pensar que, afinal, a escravatura moderna apenas evoluiu nos meios empregues. Emigrantes é um romance que recomendo o mais vivamente possível.

M. V. M.

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1 thought on “Fora do tema: um grande romance do Século XX”

  1. isso de nao fotografar á chuva… tsc tsc tsc. :)
    hoje estava tao mau tempo que resolvi levar guarda chuva… estava a fotografar uma polaca e como o guarda chuva só incomoda atirei-o para o chao.
    mais umas fotos á polaca, patati-patata, qd vou a ver… tinham-me gamado o guarda chuva! era hora de saida da missa, imensa confusao na rua e alguem (talvez acabado de sair da igreja) mo palmou.
    Épico.

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