Comparativo

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Com o Kodak Tri-X

Eu sei que o Número f/ se está a tornar, progressiva e inexoravelmente, um blogue sobre fotografia convencional. (Ou “analógica”, ou “de rolo”, conforme lhe queiram chamar.) Tenho completa consciência desse facto. É bem possível que, uma vez que a fotografia digital é largamente dominante e as suas virtudes levaram a que muitos – quase todos, na verdade – preterissem os rolos em favor do novo meio, haja muitos leitores que, progressiva e inexoravelmente, estão a perder o interesse pela prosa que vai sendo vertida aqui no Número f/, mas não é isto que diminui o meu entusiasmo pela fotografia convencional, nem é decerto este um factor que me vá obrigar a afastar-me desta última e procurar temas que sejam lidos por mais pessoas.

Os visitantes do Número f/ deverão ter em conta que muito do que escrevo sobre fotografia convencional – com a excepção notória dos rolos – se aplica, ne varietur, à digital. A fotografia não nasceu na era digital: na essência, tudo o que mudou com a transição para o digital foi o suporte para onde a luz é transcrita; as leis da fotografia, essas, são rigorosamente as mesmas: nada do que respeita à exposição é diferente, independentemente de se usar uma Pentax Spotmatic ou uma Nikon D610.

Feitos estes reparos, vamos ao tema de hoje. Em Novembro do ano passado, quando estava a usar um rolo Kodak Tri-X, andava pela zona da Praia de Matosinhos (foi um pouco antes de me dar para fotografar surfistas) e passei pela Anémona, o monumento ao porto piscatório que Matosinhos, felizmente, ainda é. Tendo a lente de 28mm à mão, finalmente tive a possibilidade de usar uma distância focal que me permitia, ao mesmo tempo, enquadrar a Anémona e mantê-la isolada do seu envolvimento. Com efeito, a lente mais parecida com uma grande-angular que usei até ao dia 12 de Junho de 2013 era a Pancake de 17mm (equivalente a 34mm), com a qual não conseguia enquadrar a Anémona sem incluir elementos indesejáveis. Fotografar a Anémona não era uma das minhas prioridades, mas – se tinha todas as condições para o fazer e é um monumento interessante e fotogénico, por que não?

A fotografia que fiz com o Kodak Tri-X deixou-me satisfeito, mas havia algo a melhorar quanto ao enquadramento: o solo, que incluía o Edifício Transparente, não ficou descrito como eu queria. Nessa altura era ainda demasiado descuidado com um aspecto que é necessário ter em conta quando se fotografa com uma câmara como a minha OM: é que o enquadramento, na fotografia final, resulta sempre mais pequeno do que a imagem que surge no visor pode fazer pensar. As porções superior e inferior ficam sempre cortadas, porque a relação de aspecto do fotograma e do visor são ligeiramente diferentes. Deste modo, o solo ficou parcialmente cortado, tornando a fotografia um pouco estranha.

Quanto à resolução, ficou excelente. As lentes OM têm a característica fantástica de fornecerem uma nitidez delirante, a qual foi transcrita para a fotografia. A rede da anémona surgiu com uma quantidade de pormenor que me deixou a pensar que seria difícil fazer melhor.

Como já disse, fotografar a Anémona não é daquelas coisas que quero fazer antes de morrer. Contudo, a maneira como o solo ficou descrito na fotografia feita com o Tri-X levou-me a fazer outra, desta vez com mais cuidado quanto à composição. Quando passei de novo por lá com a 28mm, fotografei outra vez a Anémona, mas agora compondo a imagem com mais cuidado. Devo dizer que não esperava nada de especial desta fotografia; aliás, tenho a impressão que só a fiz por querer acabar de expor o rolo que estava a usar, que era um Ilford FP4.

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Com o Ilford FP4: magia!

O resultado, quando vi a digitalização, quase me causou um ataque cardíaco. Antes de mais, o céu está muito mais bonito do que o da fotografia que fiz com o Tri-X: mais contrastado, com um recorte perfeito das nuvens e sem o grão do Tri-X, o qual é inevitável quando se usam rolos ASA 400. Como esperava, já que fiz por que isso acontecesse, o enquadramento ficou bastante melhor, mas foi a resolução que me deixou estupefacto: eu pensava que era difícil fazer melhor do que na fotografia anterior, mas esta nova fotografia vai para além de tudo o que é possível imaginar em termos de resolução: quase se podem contar os fios que foram usados para construir a Anémona! A maneira como estes são descritos é de cortar a respiração. Aquelas pessoas que sonham com câmaras como a Nikon D800E iriam provavelmente recusar-se a acreditar que esta fotografia foi feita com um rolo.

Desconheço como é possível um rolo ter mais resolução do que outro; se fosse um sensor digital, a explicação seria simples, mas com rolos é um mistério: o que faz os Ilford tão capazes e competentes no domínio da resolução? Não sei. Sei que já escrevi muita coisa sobre a resolução não ser o mais importante numa fotografia; se muito disso que escrevi continua verdadeiro, também é certo que os Ilford me fizeram pensar a fotografia de outra maneira. Estes níveis de resolução pertencem ao domínio da magia.

Há mais: a fotografia feita com o FP4 tem, em muito maior quantidade, aqueles tons que caracterizam uma boa fotografia a preto-e-branco que são frequentemente associados à prata. Esta qualidade é-lhe conferida pelo contraste, mas também por algo que, em termos objectivos, pode ser definido como um problema do FP4: a proeminência das altas luzes. Esta característica (o FP4 é um rolo que exige saber lidar com as altas luzes) contribui para a agradabilidade da fotografia e acrescenta à qualidade do preto-e-branco. Esta é, contudo, uma especificidade que não pode ser usada como critério de avaliação e diferenciação entre estes rolos, uma vez que o Tri-X, sendo um rolo ASA 400, tem menor contraste e uma maior homogeneidade na apresentação dos tons. O factor decisivo é mesmo a resolução e, neste particular, o FP4 esmaga o Tri-X.

M. V. M.

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