Testes (2)

O que escrevi ontem veio-me à mente por os testes serem um aspecto da apreciação da fotografia a que não me posso dedicar. Não tenho condições para o fazer. Aquilo que eventualmente surge no Número f/ impropriamente intitulado como “teste” não é mais que uma impressão pessoal sobre uma determinada peça de equipamento. Não tenho meios nem disponibilidade para fazer testes exaustivos de equipamento, nem este é o propósito do Número f/.

O que me deixa de novo com aquela sensação de ambivalência. Por exemplo, estou correntemente a experimentar um rolo no qual deposito algumas esperanças: o Agfa APX 100. É evidente que os leitores vão ler a minha apreciação deste rolo aqui no Número f/, mas será apenas uma impressão subjectiva que não deverá ser interpretada como um teste em sentido próprio. Para poder testar um rolo devidamente, precisava de ter o domínio de uma fase do iter fotográfico que não tenho: a revelação.

AGFACom efeito, os resultados da avaliação de um rolo dependem largamente da revelação. O aspecto das fotografias é condicionado, desde logo, pelos tempos de revelação. Quanto maiores estes forem, maior será a predominância dos tons claros e menos acentuadas serão as sombras. Só quem dominar a revelação pode, com um elevado grau de credibilidade, testar um rolo. Os rolos podem ainda ser puxados para velocidades diferentes da nominal, pelo que é possível fotografar com um rolo ASA 125 com a câmara regulada para 400, desde que se exponha a totalidade do rolo nesta última configuração e se revele em conformidade.

Tudo isto me escapa, porque não sou eu quem faz as revelações dos meus rolos. Não tenho condições físicas para instalar um quarto escuro e, de resto, para mim “Rodinal” é uma marca de pasta dentífrica e “C41” é uma galáxia da Nebulosa de Andrómeda (ou arredores). Felizmente tenho uma confiança cega no laboratório onde entrego os meus rolos e R. S. D. compreende perfeitamente as minhas preferências estéticas, caso contrário a minha apreciação sobre os diferentes rolos que já usei poderia ser completamente diferente.

Por tudo isto, os meus testes não serão mais que opiniões. Nem têm outra pretensão. E esta será sempre uma opinião baseada nos meus gostos e preferências. É difícil ser objectivo nestas condições, embora tente descrever com a maior precisão possível as características do material que por vezes analiso. Não é difícil dizer se um rolo tem muito ou pouco grão, mas é impossível dizer como o rolo se vai comportar sob diferentes condições de revelação, ou usando químicos diferentes. Esta é uma magia negra na qual não fui iniciado. Deste modo, tudo quanto poderão concluir do que escrevo sobre um dado produto é que gosto dele. Ou que não gosto. Se me enviassem material para testar, a minha apreciação seria sempre condicionada: ver-me-ia obrigado a dizer bem de tudo. Tal como as coisas são, porém, sinto-me livre para fazer uma apreciação positiva, mas também para criticar um determinado produto. Tal como sinto que não preciso de esconder os defeitos de uma peça de material ou de um produto debaixo de uma tonelada de aspectos favoráveis, fazendo, enganosamente, com que os problemas se tornem invisíveis ou irrelevantes.

De qualquer maneira, o Número f/ não é um blogue de testes. Se o fosse, seria um mau blogue de testes. Seria apenas mais um dentre muitos blogues mantidos por gente que apenas tem um conhecimento empírico que não as habilita, de todo em todo, a escrever tecnicamente sobre fotografia. Não é nada disso que quero fazer. Sinto que, se o fizesse, estaria a enganar os leitores. E a mim mesmo.

M. V. M.

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