Não custa nada

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É uma coisa que não posso evitar: tenho sempre uma atenção especial à questão da licitude da fotografia. Quando vou fotografar, assumo, à partida, que esse é um acto livre: o que pode ser visto livremente também pode ser fotografado. Há casos, porém, em que fotografar carece de consentimento: se o que escrevi mais atrás é verdade quanto aos lugares públicos, já não o é nos espaços privados. Mesmo que estes sejam, por definição, abertos ao públicos. Como os cafés.

O Porto é uma cidade de cafés: é lá que se marcam encontros e se convive durante muitas horas. Alguns cafés, como o Âncora D’Ouro (o Piolho), são lugares de passagem ou estadia entre a casa e a discoteca. Sendo esta uma tradição do Porto (que, evidentemente, não é exclusiva, nem originária, desta cidade), não surpreende que existam aqui cafés com história. Um deles é mesmo um monumento ex officio da cidade: o Majestic.

Toda a gente gosta do Majestic – desde turistas japoneses e espanhóis até aos portuenses de gema, todos gostam de um café que foi escolhido, em 2011, como o sexto mais bonito do mundo. Ninguém lhe fica indiferente: situado naquela que é a rua comercial mais importante de uma cidade que se caracteriza (mas não se define) pelo seu comércio, o Majestic tem uma fachada e uma decoração interior – ambas da Belle Époque – que fazem dele um dos cafés mais interessantes do mundo. O interior, em particular, é mais que luxuoso – é luxuriante: os candelabros, as madeiras envernizadas, os tectos, o soalho e a profusão de espelhos e cristais fazem-no resolutamente burguês, comercial e elitista (nem de propósito: o seu nome, aquando da inauguração em 1921, era Café Elite).

Retomemos o rumo inicial deste texto: o Majestic é um café privado. Evidentemente: não conheço nenhum café que tenha sido nacionalizado, nem é vocação do Estado dedicar-se ao comércio da restauração e bebidas. O facto de ser aberto ao público não significa que seja um lugar público. Quando, há algumas semanas, estava a estrear um rolo Ilford HP5, que escolhi por precisar da velocidade ASA 400 para fotografar interiores, passei pelo Majestic. Nunca senti vontade de fotografar o exterior – seria demasiado cliché, já toda a gente o fotografou –, mas o interior, esse, seria um desafio interessante. Sendo o Majestic um estabelecimento privado, havia que obter o consentimento para fotografar. Imaginei-me a ter de falar com a gerência, o que poderia ser complicado num sábado de manhã, ou mesmo a ser enxotado como um cão ao revelar a minha pretensão de fotografar o interior do café, mas nunca me passou pela cabeça fazer fotografias subrepticiamente, ou começar a fotografar sem antes obter autorização.

Deste modo, dirigi-me ao empregado que estava à porta, no interior do café. Perguntei-lhe se seria possível fotografar o interior, pronto para qualquer que fosse a diligência necessária para fotografar e preparando-me mentalmente para uma recusa. Quando se entra no Majestic, a exuberância, o luxo e a riqueza da decoração cativam de imediato: ficamos prisioneiros daquele espaço e não queremos sair de lá: apetece contemplar todos os pormenores – os frisos, os rebocos, as esculturas, as talhas, os vitrais, o trabalho de carpintaria esmerado, os veludos – e só sair à hora do encerramento. Nenhuma fotografia pode ter a pretensão de fazer jus àquele interior, mas vale a pena – mesmo que a fotografia seja um mero arremedo do olhar.

Foi surpreendente a facilidade com que obtive o consentimento: não necessitei de falar com o gerente nem de assinar documentos. O porteiro limitou-se a perguntar-me, com uma educação que já se vai tornando pouco habitual, se as fotografias eram para meu uso particular. Evidentemente, respondi que sim. «Esteja à vontade» – foram estes os termos pelos quais foi prestado o consentimento.

Devo dizer que fiquei encantado com esta demonstração de boa vontade. Não me custou nada pedir o consentimento, nem à pessoa a quem me dirigi custou dá-lo. Afinal de contas, esta é uma atitude inteligente: ao prestar deste modo o consentimento, os gerentes estão a cativar um potencial cliente. O que é uma política comercial muito mais simpática do que intimidá-lo com formalidades absurdas ou proibi-lo de fotografar – o que teria o efeito de o visado pela proibição não querer mais lá voltar. É sempre bom quando, em lugar de um Securitas trombudo a dizer-me que não posso fotografar, me deparo com simpatia, compreensão e inteligência de quem sabe que, com essa atitude, está a fazer a melhor publicidade possível para o lugar.

Quanto às fotografias, ficaram resolutamente assim-assim. O que me pareceu importante foi procurar o máximo de informação relativo à decoração (com particular incidência nos lustres e nos vidros que dão para o jardim, controlando as altas luzes) e, ao mesmo tempo, mostrar a frequência e a actividade de um café que, felizmente, estava a abarrotar de gente nessa manhã de sábado. Podiam ter ficado melhor – mas, sem tripé e sem flash, foram o melhor que pude e soube fazer.

M. V. M.

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