Da estética

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Hoje foi o dia do lançamento da Fujifilm X-T1. Esta câmara, que não seria a minha escolha se me propusesse comprar hoje uma câmara digital (tivesse eu meios para tanto), tem linhas inspiradas nas SLR dos anos 70. Segue, deste modo, o caminho trilhado pela Olympus com a OM-D E-M5, o qual foi, por assim dizer, legitimado pela Nikon Df. (Já que menciono esta última, deixem-me dizer que seria ela a minha escolha nessa hipótese de querer comprar uma câmara digital e ter dinheiro para ela e para as lentes. Já disse aqui que, desde que pude usar um bom visor óptico, nunca mais quis outra coisa.)

Devo dizer que, apesar de não me incluir na lista de potenciais adquirentes da X-T1, esta é uma câmara que me agrada pela sua estética. Já referi por mais que uma vez aqui no Número f/ que os meus gostos estéticos foram formados durante a década de 70 do Século XX, o que abrange, evidentemente, as câmaras fotográficas. Foi nesta época que comecei a ver câmaras e esta apreciação influiu decisivamente nos neus padrões estéticos actuais. As únicas câmaras mais bonitas que as SLR dessa época são as Leica, que são de uma beleza intemporal (com excepção da M5). Na minha opinião, que vale tanto quanto a quiserem valorar, as câmaras nunca se deviam ter afastado do design dessa época. É certo que a evolução que as transformou nas DSLR actuais não aconteceu por os fabricantes serem uns pervertidos sem gosto estético: foi ditada pela ergonomia – pela necessidade de fabricar, em resposta à procura dos profissionais, câmaras que pudessem gerar imagens nítidas quando se usam tempos de exposição relativamente longos e que pudessem ser seguradas com a maior firmeza possível em situações fotográficas difíceis, como quando se usam certas teleobjectivas. Neste aspecto, as SLR dos anos 70 só podiam ser usadas satisfatoriamente se lhes fosse adicionado um punho opcional. Fabricar câmaras com esse punho integrado foi um passo inteiramente lógico.

Deverá, porém, a utilidade ser tão decisiva? As DSLR de hoje são feitas com total desprezo pela estética: só a função conta. A função é que determina a forma. A estética não é decisiva no momento de conceber uma câmara quando o desempenho é o seu requisito essencial. Será assim? Bem, o que mais importa, para a qualidade da imagem, é o sensor. O desempenho do sensor não depende de estar instalado num corpo ergonómico. Já que qualquer corpo serve, ao menos que seja um bonito! De resto, se pegarmos numa câmara dos anos 70 e numa DSLR actual, a primeira sensação que temos, em relação à primeira, é a de frio. Pois é – ao contrário das DSLR, as câmaras dessa época eram feitas de metal. O plástico só começou a ser empregue no fabrico dos corpos nos anos 80/90. A segunda sensação é a de estarmos a segurar algo maciço, o que, de novo, não acontece com a maioria das DSLR. Temos, assim, uma luta desequilibrada: de um lado, câmaras bonitas, sólidas e bem construídas; do outro, câmaras feias e feitas de plástico. Como se vê, a ergonomia não é tudo. A verdade é que o mercado nos tem vindo a impor mais quantidade e menos qualidade, embora com o benefício ilusório do baixo preço.

Deste modo, o argumento da prioridade absoluta da qualidade sobre a estética fica completamente obliterado. Uma câmara bonita pode fotografar com tanta qualidade como uma feia. Resta o da funcionalidade. As DSLR são ergonómicas, o que permite fotografar com lentes grandes e pesadas sem perder a precisão. Mas quantas pessoas usam zooms EF 70-200 no seu dia-a-dia? Se tudo o que precisamos para as nossas fotografias é de lentes de 35 ou 50mm, para que precisamos de ergonomia, rapidez e precisão? Acresce que fazer certas formas de fotografia, como desde logo a de rua, com uma DSLR, pode ser uma desvantagem: é demasiado grande para ser discreta.

É evidente que, para muitos usos, uma DSLR é imperativa. Quando se usam lentes grandes e pesadas, quando é necessária rapidez e precisão e quando se fotografa sob condições difíceis, nada pode substituir uma DSLR. Usar uma CSC nestas condições é impraticável. As CSC, além de uma ergonomia fraca, têm as desvantagens de um sistema de focagem automática errático e de não terem um visor óptico. Tendo usado uma CSC, com a qual fiz a parte mais substancial das minhas fotografias, e uma SLR com um visor mais que decente, decidi rapidamente que as primeiras não são de nenhuma utilidade para mim. A sua estética não constitui, de forma nenhuma, um argumento decisivo. Contudo, as câmaras são também objectos de culto. É mais fácil cultivar o gosto por uma câmara se ela for esteticamente agradável. É por este motivo que ainda hoje muitos apreciam as SLR e rangefinders dos anos 70. É também por este motivo que as DSLR actuais nunca serão mais que instrumentos: nunca atingirão o estatuto de culto e continuarão a cair na obsolescência e no esquecimento muito cedo.

De resto, agora não há desculpas para adquirir uma câmara que parece um bloco de alcatrão que foi deixado a derreter ao sol. Uma câmara como a Nikon Df é tão boa ou melhor que uma D800. Esta é uma câmara que prova que foi um erro os fabricantes terem abandonado a forma das SLR em benefício de corpos cuja estética é imposta pela ergonomia. Com um pouco de sorte, um dia todos os fabricantes reverterão para estas linhas clássicas, como o fizeram agora a Nikon e a Fuji. Não abandonarão as DSLR, porque estas são uma necessidade para inúmeras situações fotográficas, mas oferecerão modelos que se assemelharão às câmaras dos anos 70. Quem sabe se um dia não olharemos para esta época das DSLR de linhas moles como um hiato na história das máquinas fotográficas.

M. V. M.

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