A linguagem da fotografia

Dali Atomicus, por Philippe Halsman
Dali Atomicus, por Philippe Halsman

A fotografia é uma linguagem: quem a usa precisa de saber exprimir-se. Explicando melhor esta analogia, direi que a expressão em fotografia implica, na sua raiz, um domínio razoavelmente conseguido do vocabulário, o conhecimento da gramática e um bom uso da sintaxe. A fotografia tem um vocabulário, equivalente às palavras da fala e da escrita, que é o repertório de situações fotográficas; tem uma gramática (a composição e o enquadramento, ou, se quisermos, a forma como os elementos fotográficos se conjugam para formar a imagem) e uma sintaxe, que, na fala e na escrita, é o modo como as palavras se articulam para formar as orações e, na fotografia, corresponde à técnica. Para que consigamos exprimir-nos fotograficamente, é necessário ter presente que uma fotografia é uma composição de elementos visuais que se conjugam para transmitir uma impressão a quem a vê. A intenção fotográfica necessita, deste modo, de ser exprimida convenientemente, de maneira a que a fotografia resulte inteligível.

Continuando a analogia com a fala e a escrita, o fotógrafo pode exprimir-se em diversos níveis, do mais elementar ao mais sofisticado. Tal como é possível ser sintético quando se fala ou escreve, também é possível usar uma linguagem simples e forte na transmissão de uma ideia na fotografia. Ao invés, também é possível ser imensamente rebuscado sem dizer nada e o mesmo acontece na fotografia. Podemos exprimir-nos a um nível informal, tal como quando conversamos com amigos e conhecidos, e o mesmo sucede quando fazemos fotografias com o único intuito de mostrar um motivo. No outro extremo está a expressão artística, representada pela literatura na escrita e pela fotografia dita artística.

Até agora referi-me aos requisitos da fotografia que devem ser preenchidos por quem a faz, mas há também que ter em atenção quem vê a fotografia. É em função deste último que a fotografia deve ser pensada. Não podemos fazer fotografias cujo significado só nós compreendemos, uma vez que a fotografia é uma forma de comunicar e essa fotografia seria um solipsismo que não teria interesse a não ser para quem a fez – o que, evidentemente, contradiz a própria essência da fotografia. Quem fotografa tem de ter a noção de que, tal como certas formas de escrita são ininteligíveis para a maioria das pessoas, também as fotografias o podem ser. E, do mesmo modo que muitas das palavras que lemos e ouvimos têm segundos sentidos e carecem de uma interpretação, muitas fotografias mostram mais do que é perceptível numa primeira apreciação.

Deste modo, quem vê uma fotografia não deve ficar-se pela impressão inicial. Se pusermos uma boa fotografia no meio de outras cheias de HDR de pôres-do-sol magníficos, de cores muito saturadas, como as que agora é moda fazer, a primeira parecerá, eventualmente, demasiado pobre e não lhe daremos a devida atenção. Contudo, essa fotografia pode ter um significado que escapa por completo numa impressão inicial e, se vista com  atenção, pode mostrar-se muito mais rica em conteúdo. (E que conteúdo tem um pôr-do-sol, mesmo que seja muito belo?)

Acima de tudo, essa fotografia pode perdurar na memória, enquanto os lindos pôres-do-sol serão facilmente substituídos por outros idênticos e rapidamente cairão no esquecimento. O interesse das boas fotografias não está no impacto que são capazes de causar numa primeira apreciação. Aliás, as fotografias que impressionam imediatamente são em regra superficiais e o seu interesse desvanece-se ao fim de alguns segundos. Uma boa fotografia pode ter um significado tão intenso que se torna inesquecível. É por isto que ainda hoje olhamos para as fotografias dos grandes mestres com reverência. São imortais, permanecem connosco, estão sempre na nossa mente – e tudo isto sem que precisem de se afirmar através de efeitos visuais gratuitos e frívolos.

A maior asneira que se pode fazer quando se fotografa é procurar que as fotografias gritem ao espectador; este, se for um apreciador, pensará que se uma fotografia precisa de gritar para se afirmar, não merece ser vista. Um grito pode fazer-nos virar a cabeça para a direcção de onde vem, mas depressa o esquecemos quando nos apercebemos de que não tem por fim chamar a atenção para algo importante. Ao contrário, um sussurro obriga-nos a ouvir e a abstrair de tudo o resto, concentrando a atenção no que está a ser dito. É bem verdade – continuando esta metáfora – que hoje estamos mais predispostos a ouvir gritos do que sussurros, porque a vozearia e o alarido geral sufocam estes últimos, mas não deixa de ser real que, se uma fotografia precisa de gritar, é porque o fotógrafo não tinha muito para dizer (apenas diz que quer atenção, mas não porquê).

Aprender a dar expressão às fotografias não é fácil, tal como aprender a ler e a escrever é um processo longo e demorado. Contudo, é uma aprendizagem necessária. As primeiras fotografias que fazemos são como um balbuciar incoerente (se me perdoam o pleonasmo) e só aprendemos a fotografar quando adquirimos a consciência de que a fotografia é uma linguagem. E o objectivo de uma linguagem é comunicar, i. e. exprimir uma ideia. Quem não tiver esta noção dificilmente fará fotografias que permaneçam na mente de alguém por mais de um segundo.

M. V. M.

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2 thoughts on “A linguagem da fotografia”

  1. A maior asneira que se pode fazer é gritar a nossa opinião na tentativa de diminuir um tipo de fotografia em prol de outro. HDR e saturação exagerada não são menos que ruído artificial e de-saturação de uma fotografia… Não confundir significado de uma fotografia com a parte técnica e criativa da mesma. Não desvalorizar algo só porque não se gosta.

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