Demasiadas fotografias

Acreditem ou não, houve uma fase da minha vida em que acreditei que isto era uma boa fotografia (Maio de 2011)
Acreditem ou não, houve uma fase da minha vida em que acreditei que isto era uma boa fotografia (Maio de 2011)

Tenho a quase totalidade das minhas fotografias guardada num disco externo de 2 Terabytes. Hoje, por curiosidade – ou à falta de melhor –, resolvi averiguar algumas estatísticas. Concluí que as minhas fotografias, que incluem todas as que fiz com a compacta, todas as da E-P1 e uma parte substancial das digitalizações dos negativos, ocupam 124 Gigabytes, correspondendo a vinte mil duzentos e trinta ficheiros. Só as fotografias feitas com a E-P1, que incluem imagens originalmente gravadas em JPEG, ficheiros em bruto (Raw) e JPEGs extraídos destes últimos, todos obtidos num período que vai de 27 de Abril de 2011 a 15 de Dezembro de 2013, ocupam 119 GB e correspondem a dezoito mil cento e setenta e um ficheiros.

Muitos terão decerto bem mais do que estes números para mostrar. Alguns terão vários discos externos ocupados com as suas fotografias. A estes, os meus números poderão parecer modestos. Talvez mesmo risíveis, ou pelo menos irrisórios. Alguns poderão surpreender-se por as minhas fotografias serem tão poucas: afinal de contas, referindo-me apenas às feitas com a E-P1 (e abstraindo do facto de haver muitos JPEGs extraídos de ficheiros em bruto), isto dá uma média de quinhentos e sessenta e sete fotografias por mês, ou seis mil novecentos e vinte e quatro por ano. Em média, claro, porque houve meses em que fotografei mais do que noutros e o ano de 2011 é incompleto.

A despeito da insignificância que os números que tenho para apresentar representam para muitos fotógrafos que usam apenas o digital, a minha opinião é que tenho muitas fotografias. Uma imensidão delas. Um mar de fotografias. Posso dizer que tenho fotografias a mais: fotografias de que não preciso para nada, fotografias falhadas, fotografias desinteressantes, fotografias de que tenho vergonha. Sim, é verdade: quando penso que mostrei, orgulhoso, algumas das minhas fotografias – especialmente as dos primeiros meses com a E-P1; é melhor não fazer qualquer alusão às da Canon A3150 –, sinto-me um tolo: fotografei o que imaginava que podia agradar a quem via, em lugar de procurar uma expressão própria – e mal. Só comecei a fazer fotografias razoáveis depois de comprar a primeira das lentes OM (a focagem manual obrigou-me a pensar antes de fotografar), e mesmo assim há muita coisa por que me arrependo de ter perdido tempo a fotografar.

É possível que estes fracassos sejam uma parte necessária da aprendizagem. Não desminto que foi necessário passar por esta experiência até ser capaz de fazer fotografias decentes, o que apenas agora está a começar a acontecer. Apesar de ter há muito adquirido a noção de que não era proveitoso fotografar tudo o que via, a tentação de ter uma capacidade de armazenagem enorme – afinal não precisava para nada de ter comprado um cartão de 16 GB – e a facilidade de fotografar digital impeliam-me a fazer muitas fotografias. Foi preciso dedicar-me aos rolos para ter a consciência verdadeira de que cada fotografia é um instante precioso que não pode ser desperdiçado.

O que aprendi, com tantas fotografias desnecessárias, foi que não vale a pena fotografar muito. Já me referi a este assunto aqui no Número f/, mas ter presente a dimensão que ocupa este mar de fotografias falhadas, desinteressantes e embaraçosas, tornou este ensinamento ainda mais vívido, ainda mais real. Só mantenho aquelas fotografias todas porque, à custa de não ter sido nada selectivo nos primeiros anos, disparando a torto e a direito e guardando tudo no computador, as fotografias são tantas que seria uma perda de tempo insensata apagar todas as que não me interessam. Mais fácil seria guardar as fotografias que me agradam e deitar fora tudo o resto.

Uma das poucas fotografias dos meus primeiros tempos de que não me envergonho (Julho de 2011)
Uma das poucas fotografias dos meus primeiros tempos de que não me envergonho (Julho de 2011)

Se fizesse o que enunciei no parágrafo anterior e escolhesse apenas as fotografias verdadeiramente boas dos meus primeiros meses, ficaria surpreendido com a sua escassez: de todas as fotografias que fiz em 2011, penso que apenas guardaria três ou quatro. A da criança ao colo da mãe, uma das nocturnas que fiz num passeio a Amarante (estou indeciso qual) e pouco mais.

Talvez comece a ser tempo de pensar a sério num website, no qual publique as melhores fotografias. O tempo que gastaria a escolher as fotografias a publicar nesse hipotético site não seria dado por perdido: guardá-las-ia e deitaria fora tudo o resto. Ia poupar uma data de espaço no computador e no disco externo – e, quem sabe, chegaria à conclusão de que este último tem mais capacidade do que alguma vez vou precisar…

Resumindo: não adianta fotografar muito. Se o que escrevi não chega para convencer os meus leitores, pensem nisto: quantas fotografias conhecemos dos grandes fotógrafos? Ou, exprimindo-me de outra maneira: é ou não verdade que os bons fotógrafos são conhecidos apenas por uma mão cheia de fotografias? Ora, se isto é verdade – e duvido que haja muita gente a discordar –, por que havemos nós, que o mais certo é nunca chegarmos aos calcanhares dos grandes, de fazer milhares de fotografias, corrrendo o risco de, tal como eu, concluirmos que não gostamos de 99% delas?

M. V. M.

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1 thought on “Demasiadas fotografias”

  1. Ontem tive de procurar uma fotografia tirada em 2012.
    Encontrei-a rapidamente, mas pus-me a (re)ver outras fotografias tiradas nesse ano. Não as contabilizei, mas uma oisa é certa, são demasiadas.
    Não admira que tenha problemas de falta de espaço no meu disco.

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