SLR

d90-pentaprismTer visto o vídeo que mostrei ontem aqui no Número f/ ensinou-me instantaneamente algo que foi de enorme utilidade. Quando visualizava através do visor da minha OM, aparecia-me uma mancha na imagem. Uma pinta preta e relativamente grande que, mesmo que não afectasse as fotografias, incomodava. E estava a tornar-se cada vez mais irritante. Pois bem, depois de ver o vídeo de Paulo Moreira, fiquei a saber como se desmonta o ecrã de focagem. Munido de um soprador (acessório que todos devem ter na sua panóplia de material fotográfico), retirei o referido ecrã e limpei-o. Et voilà – a pinta irritante desapareceu.

Retirar o ecrã de focagem mostra a parte inferior do pentaprisma. Foi a primeira vez que vi – embora apenas parcialmente – o pentaprisma da OM-2n. (Eu posso ter uma mente curiosa, mas sou refractário a desmanchar coisas para ver como são feitas: tenho sempre medo que, no momento de voltar a montar, sobrem peças.) O pentaprisma – ou melhor: a concepção óptica que lhe está subjacente – é uma coisa fascinante: é simples e, de certo modo, rudimentar – mas, seja lá quem for que o inventou, merece ser trasladado para o Panteão da Fotografia (excepto, evidentemente, no caso improvável de ainda estar vivo). É uma invenção que, apesar da sua simplicidade (ou por causa dela), é genial: não só comete a proeza de fazer uma dupla inversão da imagem – a imagem captada pela lente entra na câmara invertida, como todos sabemos, e o pentaprisma inverte-a de novo para que seja visualizada correctamente –, como permite que o fotógrafo veja a cena tal como a lente a vê. A isto chama-se visão TTL, de Through The Lens.

O pentaprisma é o elemento essencial das SLR (iniciais de Single Lens Reflex). Como sabem, a luz transmitida pela lente atinge um espelho colocado dentro da câmara – daí o Reflex –, o qual conduz a luz para o pentaprisma, cuja função é transmitir a luz para o visor óptico. Deste modo o utilizador de uma SLR, seja ela convencional ou digital, vê os objectos tal como eles vão figurar na fotografia, com a vantagem suplementar de ter a percepção da focagem e da profundidade de campo, antecipando assim as áreas da imagem que vão ou não ficar focadas. Isto é de uma utilidade verdadeiramente inestimável. Além disto, o sistema SLR libertou o fotógrafo do fenómeno da paralaxe, que afecta as câmaras ditas rangefinder ou de telémetro (como as Leica da série M), bem como as TLR, as quais também são reflex, por terem um espelho, mas não usam pentaprisma.

Olympus Pen F, uma SLR com uma diferença
Olympus Pen F, uma SLR com uma diferença

O que nem todos saberão, porém, é que a disposição do pentaprisma no topo da câmara, tal como existe na maioria das SLR e nas DSLR, não é a única possível. Em 1963, foi lançada uma câmara na qual a luz era transmitida do espelho para dois porroprismas que conduziam a luz para o visor. O uso dos porroprismas (ou prismas de Porro, em homenagem ao físico italiano Ignazio Porro) tinha o benefício de permitir a implementação do sistema SLR em câmaras pequenas, com todas as vantagens a que aludi. A câmara a que me refiro era, de facto, extremamente compacta: era a Olympus Pen F. A Olympus implementou o mesmo sistema de porroprismas quarenta anos mais tarde, na E330, mas foi um fracasso porque o visor era demasiado escuro. (Aliás, a Pen F também tem uma singularidade estúpida: por causa do seu sistema half-frame, que fazia caber duas imagens em cada fotograma, o visor é vertical, o que significa que a câmara se usa na vertical para fazer fotografias na horizontal, e vice-versa. Lógico, não é? Curiosamente, esta idiossincrasia não impediu a Pen F de ser um êxito.)

É admirável o modo como o sistema SLR se manteve inalterado desde a sua concepção. Hoje, todas as câmaras reflex obedecem exactamente ao mesmo princípio e funcionam do mesmo modo. A minha OM, no que respeita à transmissão da luz para o visor, funciona exactamente da mesma maneira que uma Canon 1D X ou uma Nikon D4. Apesar de os visores electrónicos se estarem a generalizar e a progredir em qualidade, ainda não se inventou nada que superasse o esquema espelho-pentaprisma. Nenhum outro sistema de visualização tem as mesmas características de agradabilidade e claridade do SLR. Embora os visores electrónicos permitam antecipar a exposição, de modo a saber-se com bastante precisão qual vai ser o aspecto final da fotografia, esta forma de visualizar nunca é aquilo que realmente se vê através da lente, mas sim a imagem captada pelo sensor. (Quanto à visualização pelo ecrã, prefiro não me pronunciar…)

M. V. M.

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