A minha falta de erudição fotográfica

426209_420090984714943_621647969_nConfesso: conheço poucos fotógrafos. Dos que conheço, apenas tenho um conhecimento razoavelmente vasto da obra de três, por ter livros com parte das suas fotografias: são eles, por ordem cronológica de conhecimento (i. e. considerando as datas em que os livros me chegaram às mãos), Josef Koudelka, Gérard Castello-Lopes e Robert Doisneau. Repito que os livros apenas apresentam uma pequena parte dos seus espólios fotográficos. Dos fotógrafos contemporâneos, quase nada: nomes como Daniel Blaufuks são-me familiares, evidentemente; conheço muitas das suas fotografias, mas não posso, em bom rigor, dizer que conheço uma parte substancial da sua obra. Não conheço todos os fotógrafos da Agência Magnum, apesar de estar sempre a mencioná-la e ao seu fundador, Henri Cartier-Bresson. Só conheço os nomes mais óbvios entre os contemporâneos, como Peter Turnley ou Marcin Ryczek – que, de resto, só conheço por ser um leitor ávido do The Online Photographer. Tanto quanto é do meu conhecimento, Brian Griffin é o cão de The Family Guy.

Sou, deste modo, um ignorante. Devia aprofundar o meu conhecimento da obra dos grandes fotógrafos e procurar conhecer os contemporâneos, mas não: venho para aqui para o blogue repetir até à náusea os mesmos nomes de sempre, os incontornáveis, os que todos conhecem: o Cartier-Bresson (penso que já escrevi aqui que, se me dessem um Euro de cada vez que o menciono no Número f/, teria dinheiro para uma Leica e várias lentes), o Doisneau e o Ansel Adams. Se me perguntassem quem é o melhor fotógrafo actual, a resposta seria não faço a mais pequena ideia.

Aqui me tendes: desmascarei-me por completo. Apenas posso aduzir dois argumentos a meu favor: o primeiro é que, como a fotografia é agora acessível a tantos, há uma produção fotográfica e uma proliferação de fotógrafos de qualidade de tal ordem que se torna virtualmente impossível conhecer todos estes e toda a sua obra. Seria um pesadelo, e não um gesto de erudição, procurar todos os bons fotógrafos actuais e suas fotografias. Mesmo com a Internet à mão. Digamos que seria um péssimo curador: se alguém me desse um emprego com essas funções, seria despedido ao fim de um mês sem direito a qualquer indemnização e não me passariam a carta para o subsídio de desemprego. O mais natural seria que me expulsassem do posto de trabalho com o maior enxovalho possível, acompanhado do cliché do pontapé no traseiro e tudo.

O segundo argumento (não vou mencionar aqui a falta de tempo, embora seja um factor importante) é o de que este desconhecimento tem algo de propositado: eu evito deliberadamente imergir-me nas fotografias feitas por outras pessoas. Não quero – ou melhor: procuro evitar – que essas fotografias me contagiem e procure fazer igual a elas. Um dos meus erros de principiante foi tentar fazer fotografias iguais às que outros faziam. Foi obviamente um fracasso porque, além de não serem originais, não tinham qualidade técnica (esta só se adquire ao fim de algum tempo). É um facto comum a todas as formas de arte: ninguém consegue deixar de ser influenciado pelas correntes dominantes e são muito poucos os que conseguem ser totalmente originais, mas quanto maior for a minha exposição ao que outros fazem, maior a probabilidade de as minhas fotografias ficarem muito parecidas com as de outras pessoas.

Ser original não é simples. É até bem mais difícil e penoso do que perceber como funciona uma câmara. Se não acompanho a produção fotográfica actual, não é pela sobranceria de me considerar acima dela: é por querer isolar-me do que os outros fazem. Não sei se as minhas fotografias são originais (quando muito só duas ou três o serão), mas sei que quero que o sejam. A fotografia deve ser a expressão de uma visão pessoal, propósito que será absolutamente negado se fizer fotografias iguais a todas as outras.

É evidente que não posso deixar de ter influências. A mais marcante delas é a de Gérard Castello-Lopes, que considero um dos melhores fotógrafos de sempre (e não apenas dentre os portugueses). Foi a sua fotografia que me levou a querer fotografar a minha cidade, tal como ele o fez com o Portugal rural e subdesenvolvido do salazarismo, mas sei que basta uma das fotografias do grande fotógrafo que ele foi para reduzir os meus esforços à irrisão. Em lugar de tentar comparar-me – o que seria patético –, procuro a minha própria linguagem. É uma busca longa, por vezes frustrante, mas é o caminho que escolhi. Seria decerto mais fácil ver boas fotografias e ir aos mesmos sítios fazer qualquer coisa muito semelhante, mas sentir-me-ia um crápula se o fizesse. Prefiro isolar-me tanto quanto possível do que se vai fazendo, mesmo que este seja o caminho mais difícil.

M. V. M.

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