Das experiências

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Por vezes experimento coisas. Compreendam que, para mim, fazer experiências é sempre uma espécie de aventura, porque não gosto muito de me desviar de caminhos já trilhados. Depois de cada experiência, formulo conclusões: se foi positiva, repito-a, caso em que deixa de ser uma experiência para se tornar num hábito mais ou menos repetido; se foi negativa, retiro a conclusão de que aquele acto, ou aquele modo de agir, não me serve; e não volto a fazê-lo, salvo se circunstâncias especiais o impuserem.

Contudo, por vezes repito experiências que sei terem falhado. No meu espírito há sempre lugar para a dúvida: questiono-me frequentemente se a experiência não terá falhado por factores que não dominava ou por não ter sabido conduzi-la com vista aos resultados que esperava. Por vezes esta repetição apenas confirma as minhas conclusões iniciais, caso em que foi uma perda de tempo e de recursos; outras vezes verifico que estava enganado e que as conclusões que formulara depois da primeira experiência eram, afinal, inválidas.

Experimentar é a única forma válida de conhecer algo. O conhecimento teórico é importante, mas não substitui a experimentação; aliás, esta é a única forma de validar os conhecimentos teóricos. O conhecimento apriorístico é frequentemente invalidado pela realidade, podendo obstar a que retiremos vantagens de determinados factos. No caso da fotografia com rolos, fazer experiências é quase uma obrigação: o conhecimento teórico de nada vale até ver os resultados – e estes só surgem experimentando. Contudo, as minhas experimentações não são um fim em si: elas visam estabelecer uma escolha. Mais exactamente escolher, com o maior grau de certeza possível, quais os rolos que vou usar daí em diante. Não quero passar a minha vida (ou o que resta dela) a fazer experiências com todo o tipo de rolos existentes no mercado: o que quero é saber qual o rolo que quero usar predominantemente e qual o que melhor serve para fotografar com velocidades ASA elevadas, no caso de precisar de um rolo para fotografar sob luz escassa.

Pois bem: no mês passado voltei a usar um Ilford HP5 400, depois de ter experimentado este rolo com resultados que me levaram a rejeitá-lo. Contudo, mesmo depois de ter concluído que este rolo não servia para mim, houve aspectos em que as dúvidas me levaram a repetir a experiência. Este segundo rolo, cujas digitalizações recebi ontem, confirmou a maior parte das impressões que o primeiro me deixara, mas permitiu-me formular conclusões mais consistentes sobre os seus defeitos e vantagens. A conclusão principal que retirara depois de experimentá-lo, porém, manteve-se: este não é um rolo que sirva as minhas pretensões fotográficas.

O Ilford HP5 é um rolo de enorme qualidade: o contraste e a resolução são simplesmente estupendos. Contudo, é também um rolo de grão grosseiro que só pode ser usado em determinadas circunstâncias. Eis, pois, o que aprendi com este segundo Ilford HP5:

Os rolos de alta velocidade são rolos para aplicações especializadas. São para fotografar sob condições de luz escassa. Este segundo HP5 mostrou-se excelente em fotografias que fiz de interiores pouco iluminados, mas usado a céu aberto, com condições de luz abundante, é desastroso: o grão torna-se demasiado invasivo e destrói a qualidade da imagem. Os céus surgem intoleravelmente granulosos, retirando qualquer pretensão de verosimilhança e qualidade à imagem, e é frequente que os contornos dos objectos surjam imprecisos. Neste aspecto o Kodak Tri-X, cuja velocidade ASA 400 é idêntica, é mais versátil e garante melhores resultados, a despeito de não ter o mesmo contraste e nitidez que o HP5.

O ilford HP5 é perfeito para fotografia de interiores
O ilford HP5 é perfeito para fotografia de interiores

Aprendi assim que nunca se deve usar rolos de velocidade elevada em situações fotográficas de abundância de luz, como desde logo a céu aberto. Uma velocidade ASA 400 é, pelo menos no caso dos rolos para preto-e-branco, muito elevada. Poderia pensar-se que equivaleria a ISO 400 numa câmara digital, mas para equiparar o ruído de um sensor ao grão de um rolo ASA 400 é necessário elevar o ISO a um valor da ordem dos 1600 (ou mais, dependendo da qualidade do sensor). No que respeita à produção de artefactos indesejáveis, ASA 400 não é o mesmo que ISO 400 numa câmara digital: é cerca de quatro vezes mais.

A vantagem de usar um rolo ASA 400 é termos mais dois f/stops e mais 2 EV disponíveis em relação a um rolo de velocidade baixa como o meu favorito Ilford FP4, o que torna o primeiro apto para fotografar com pouca luz sem que a imagem fique distorcida por arrastamento. Contudo, isto é uma desvantagem quando se fotografa debaixo de luz intensa: obriga a trabalhar com tempos de exposição extremamente curtos e aberturas muito estreitas. É praticamente impossível fotografar com o Ilford HP5 debaixo de sol intenso.

Esta especialização do Ilford HP5 torna-o num rolo muito pouco versátil. Com este segundo rolo procurei, sobretudo, fotografar interiores. Os resultados – que incluem duas fotografias feitas dentro do Majestic, as quais merecem um texto só para elas – foram maravilhosos. Em contrapartida, as fotografias feitas no exterior, debaixo de luz natural mais ou menos intensa, ficaram grosseiras, com o aspecto de fotografias dos anos 40 que tivessem sido digitalizadas a partir de impressões em papel de jornal. O Tri-X comporta-se muito melhor debaixo dessas condições e, embora a quantidade de grão presente na imagem seja substancial, é um grão mais fino e menos invasivo.

Como não me dedico exclusivamente a interiores, vou manter o FP4 como o rolo da minha preferência. Só voltarei a usar o HP5 se conseguir gastar um rolo inteiro a fotografar interiores. Porque é este o domínio de eleição do HP5. Mesmo assim vou hesitar muito entre este e o Kodak Tri-X.

M. V. M.

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1 thought on “Das experiências”

  1. Por coincidência, tenho neste momento na minha Yashica Mat 124g o segundo rolo Ilford HP5.
    Tive de experimentar novamente este rolo, pois na primeira vez os resultados não me agradaram.
    Não sei se houve algum problema na revelação, digitalização ou se o rolo é mesmo assim, mas como não foi o Sr. Dantas que o processou inclino-me mais para uma falha no tratamento do rolo.

    Este texto contém preciosas ajudas para as restantes fotografias que ainda vou tirar com o HP5.

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