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Não, o título não é um resultado de futebol. (A propósito, penso que ainda não confessei isto aos meus leitores, mas não ligo pívias ao futebol e sou muito feliz assim.) Se fosse o resultado de um jogo, seria de futsal ou de andebol, nos quais cabazadas como esta são mais comuns. Não – este é o número de rolos para preto-e-branco que já expus versus os a cores. Uma verdadeira abada! E o desequilíbrio só tende a agravar-se: ainda ontem comprei mais um rolo e foi um para preto-e-branco – mais exactamente um Ilford FP4, que é, de longe, o meu favorito. (Além de cinco rolos FP4, usei três Kodak T-Max 100, dois Ilford HP5 e um Kodak Tri-X 400; os rolos a cores foram um Fujifilm Superia 200 – o pior que usei até hoje – e dois Kodak Portra 160.)

Por que é que isto acontece? Com um rolo a cores, tenho de ser duplamente cuidadoso: à preocupação em encontrar bons motivos, que é uma consequência necessária da opção pela fotografia convencional, acresce a de procurar fotografias em que a cor seja fundamental no aspecto da imagem. Há motivos em que a cor é o elemento dominante da composição, mas nem sempre é fácil fazer uma fotografia em que a cor não domine e desvie a atenção de tudo o resto. A cor tende, deste modo, a ser o elemento preponderante da composição. A sua presença é de tal maneira importante que, se não se for cuidadoso, acabará por se tornar no elemento fundamental da composição. O que raramente resulta bem, pelo menos no meu modo de fotografar. Alguns contornam esta dificuldade optando por cores suaves, em que nenhuma se impõe visualmente, mas nem sempre é fácil encontrar motivos que permitam fazê-lo.

Por outro lado, há motivos que não faz sentido fotografar a preto-e-branco (ou, se quisermos, só faz sentido fotografar a cores): se me aparecer pela frente um Ferrari vermelho, a cor é o que dá sentido e interesse à fotografia. Já me aconteceu estar a fotografar com um rolo a preto-e-branco e ignorar um Ferrari vermelho pelo qual passei, porque, se o fotografasse, estaria a ignorar o elemento que dá coerência à fotografia. Os Ferrari, apesar das suas formas de puros-sangue, são indissociáveis da cor rossa.

Ainda no campo das desvantagens da fotografia a cor, devo mencionar o facto, que foi uma aprendizagem dolorosa, de que a OM-2 está privada da invenção mais importante que foi trazida pela fotografia digital: o controlo da temperatura da cor, impropriamente chamado equilíbrio dos brancos. Todos sabemos que fotografar a cores à sombra induz uma matiz azul na imagem, o que, na fotografia com rolo a cores, significa um fotograma perdido. Pelo que a escolha dos motivos tem de ser ainda mais cuidadosa.

Diante de tudo isto, os leitores não se surpreenderão se eu disser que os rolos que mais tempo demoro a preencher são os de cor. Também já conhecem as razões da minha preferência pelo preto-e-branco: é o modo como revela as formas e texturas e, sobretudo, os contrastes. Mas há algo mais, qualquer coisa inefável que nunca soube exprimir por palavras. Até há algumas semanas, altura em que li uma frase que vale mais que mil parágrafos de prosa no Número f/. Alguém (penso que Joel Meyerowitz, mas não tenho a certeza) disse que, quando fotografa uma pessoa a cores, fotografa as suas roupas; mas, quando fotografa a preto-e-branco, lhe fotografa a alma. É este carácter espectral que me atrai no preto-e-branco. E não é só quando se fotografa pessoas: qualquer objecto em que a cor não seja essencial beneficia com o preto-e-branco. Ao retirar o elemento cor da composição, os olhos têm mais liberdade para procurar outros aspectos de interesse. A fotografia a preto-e-branco é mais subtil, mais abstracta e permite que se procurem as formas e texturas da imagem.

Na fotografia a cores as texturas e as formas estão, evidentemente, presentes; contudo, basta uma pequena pincelada de uma cor viva e vibrante para que os olhos sejam imediatamente atraídos e ignorem tudo o resto. Pelo contrário, o preto-e-branco obriga a ver a fotografia com olhos de ver; os olhos demoram-se nos pormenores que é revelado pelos contrastes dinâmicos, mas formas inadulteradas pela cor, nos volumes e nas texturas.

Agora que a fotografia a cores predomina, tendo prevalecido sobre o preto-e-branco, a cor e o monocromático tornaram-se duas escolas diferentes e antagónicas: o que resulta a cores não resulta a preto-e-branco, e vice-versa. Até a fotografia a cores se afirmar, o preto-e-branco era a única escolha; hoje este último é uma opção, uma alternativa a um modo de fotografar mais documental e literal – e é, sobretudo, um modo de fotografar capaz de descrever a essência de um motivo sem as distracções da cor.

M. V. M.

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