O iPhone e eu

apple-iphone-4s-16gb-2-defeitos-sp-aceito-troca-8302-MLB20003215175_112013-FAs minhas apreciações sobre as qualidades do iPhone enquanto câmara fotográfica podem ter parecido exageradas e não tenho dúvidas que, embora não tenha havido um furor de comentários indignados, alguns leitores terão sentido o texto de ontem como uma contradição flagrante com muito do que escrevi antes. Mantenho, porém, que o iPhone é uma boa câmara (a despeito de ter ilustrado a entrada de ontem com uma fotografia retirada do Facebook, com pouca resolução).

Há muita gente nos fóruns de fotografia da Internet a formular opiniões completamente infundadas sobre a qualidade do iPhone e a clamar que uma compacta point and shoot será sempre melhor por ser um instrumento fotográfico especializado. Sou sensível a este argumento e reconheço-lhe, em teoria, algum fundamento. Como fui um aspirante a audiófilo, sei que um sistema de componentes separados será sempre melhor do que um aparelho que reúna todas as funcionalidades na mesma caixa. O melhor é mesmo que cada componente se dedique exclusivamente à sua função e, se se separar o pré-amplificador do amplificador de potência, se se tiver um pré-amplificador separado para o gira-discos e um mecanismo de transporte e DAC igualmente separados para ler CDs, o sistema pode soar ainda melhor. Há questões de isolamento de correntes e interferências que determinam essa melhoria na qualidade da reprodução. (Outra analogia será a do canivete suíço: uma chave de parafusos será sempre mais eficaz e funcional que a do canivete, a qual é demasiado pequena e pouco ou nada ergonómica.) Simplesmente, uma coisa é formular modelos teóricos; outra, completamente diferente – e mais exacta – é olhar aos resultados. Foi isto que eu fiz com o iPhone 4S. Aliás, foi ver a qualidade espantosa das fotografias do meu sobrinho que me motivou para escrever o texto de ontem. Eu usei uma point and shoot durante nove meses, vi as fotografias da Nikon do André e vejo todos os dias milhares de fotografias feitas com point and shoots e telemóveis inferiores ao iPhone. É esta experiência que me leva a ficar boquiaberto com a qualidade das imagens feitas com o iPhone. Não tenho quaisquer dúvidas, deste modo, em afirmar que o iPhone é melhor que qualquer point and shoot – pouco me importando se a câmara partilha a mesma caixa que uma unidade GSM.

O iPhone é tão bom que não se limita a competir com compactas baratas: a sua qualidade de imagem é, na minha opinião, superior à de outros smartphones, mesmo que estes sejam os Nokia PureView 808 ou o Lumia 1020, equipados com lentes Zeiss e sensores de 1” de área. Há, nas imagens do iPhone, um equilíbrio, uma dinâmica e uma precisão nas cores que deixam todos os outros smartphones a marcar passo. Evidentemente, há um processamento extremamente complexo a ter lugar entre o instante do disparo e a amostragem da imagem para obter estes resultados, mas é indesmentível que as imagens produzidas pelo iPhone são muito boas. Tão boas que rivalizam com câmaras digitais de alguma qualidade. O que, para os utilizadores que não procuram a qualidade absoluta, é suficiente para dispensar câmaras DSLR básicas e CSCs do nível de entrada.

Esta evolução da qualidade da imagem dos smartphones vem interferir com os conceitos adquiridos pelos puristas da fotografia, que por qualquer razão vêem as suas convicções abaladas. E do outro lado da barricada estão os fanboys do iPhone, gente que (talvez por não conseguir distinguir uma boa fotografia mesmo que esta esteja a morder-lhes nas canelas) gosta de papaguear disparates dizendo que o iPhone tem qualidade de imagem profissional e que é melhor que uma DSLR. Nenhuma das partes tem razão. O iPhone é uma boa câmara. Muito boa mesmo. Esta asserção, contudo, é válida num contexto. O iPhone é bom na sua categoria, mas não em termos absolutos. Por muito que os sites da especialidade nos tentem convencer do contrário, e a despeito de haver jornais que despedem os seus fotojornalistas e treinam os repórteres para usar iPhones para ilustrar as suas reportagens, o iPhone é apenas um smartphone que tira boas fotografias. Não é, de modo nenhum, um substituto para uma boa câmara. Se analisarmos criticamente a imagem que ilustra o texto de ontem, veremos de imediato algumas deficiências: as altas luzes visíveis nas montanhas ao fundo estão estouradas, há uma suavização da resolução (que provavelmente é causada pelos algoritmos de redução do ruído) e os contornos das montanhas mostram uma quantidade apreciável de aberrações cromáticas. Uma boa lente evitaria muitos destes problemas. Acresce que o aumento do tamanho da imagem não lhe faz favores nenhuns: a perda da resolução torna-se ainda mais evidente. Eu não imprimiria esta fotografia num tamanho maior que 10×15. Uma DSLR, mesmo com um sensor mais pequeno que o full frame, faria um trabalho muito melhor, mas o iPhone não tem a pretensão de substituir as DSLR. A Apple não concebeu este smartphone para ser uma câmara que tivesse por fim a obtenção da melhor qualidade possível. É apenas um smartphone que tem uma qualidade de imagem excelente – para um smartphone. Os puristas podem ficar descansados, porque os smartphones nunca substituirão a maneira de fotografar a que estão habituados. Nem foi com esse fim que o iPhone foi concebido: este smartphone é para quem quer fazer fotografias com o que tem à mão, porque não está disposto a carregar uma câmara grande e pesada, mas não prescinde de uma boa qualidade de imagem. É este – e só este – o seu ethos. As suas limitações são evidentes: o sensor pequeno terá sempre problemas de gama dinâmica e de ruído (embora muito bem disfarçados pelo processador), o controlo da exposição só pode ser obtido através de apps que se limitam a imitar toscamente os controlos de uma câmara avançada, a profundidade de campo é sempre excessiva, privando o utilizador de controlo, não é possível usar um visor (mesmo montá-lo num tripé pode ser um problema) e não tem a ergonomia de um bom corpo, obrigando o utilizador a fazer uma figura risível com os bracinhos esticadinhos e os dedos mindinhos muito arrebitados. Não serve para fazer panning ou arrastamentos e não será exactamente a primeira opção para quem se dedique a astrofotografia, fotografias de animais na natureza e desportos. Diria, pois, que a pretensão de que o iPhone é um concorrente das DSLR e das melhores CSC em matéria de qualidade da imagem é completamente despropositada.

Então por que fui tão entusiástico com o iPhone? Por várias razões. Antes de mais, nunca vi nenhum telemóvel a fazer fotografias com esta qualidade antes do iPhone. Até à sua introdução, as fotografias feitas com telemóveis eram ainda piores do que as feitas com a Nikon do meu sobrinho (o que é, convenhamos, uma proeza). Se me dissessem que algumas fotografias que já vi feitas usando o iPhone foram feitas usando, digamos, uma Olympus E-PL1, eu teria acreditado. O padrão de qualidade do iPhone é muito elevado, especialmente na descrição das cores e na definição.

Depois, porque não sinto qualquer espécie de pânico ou ansiedade por causa do advento dos smartphones. A minha única objecção é o facto de, graças aos smartphones, haver uma overdose de fotografias absurdas que está a contribuir para o descrédito completo da fotografia. De resto, o iPhone, quando é usado para fotografar, é-o por pessoas que não têm a pretensão de estar a fazer fotografia fine art. Muitas destas pessoas sabem bem que, se quiserem avançar na fotografia, terão de usar material que lhes permita exprimirem-se plenamente, algo que o iPhone, a despeito de toda a sua qualidade, não pode fazer. É certo que alguns usam o iPhone convencidos de que é uma grande câmara em termos absolutos – i. e. competindo com as DSLR e as melhores CSC –, mas estas pessoas, além de patetas, são uma minoria.

E também porque sou verdadeiro: já ando nisto há algum tempo e sou exigente com a qualidade; sei, pois, reconhecer uma boa fotografia quando a vejo. Seria estúpido negar a qualidade de uma fotografia só por preconceito, sabedor de que foi feita com um smartphone. Sou também suficientemente objectivo para ver as limitações deste aparelho: a qualidade a que me refiro é estritamente relativa. É melhor do que a de toda a concorrência e, em muitas circunstâncias, rivaliza com câmaras fotográficas razoavelmente evoluídas. O iPhone é a melhor câmara do mundo? Não. É evidente que não é, por muito que o marketing altamente eficaz da Apple me tente convencer do contrário. Mas, dentro dos seus limites, é competentíssimo.

E é, também, um aparelho que dá imediatamente vontade de ter um quando se olha para ele. O iPhone 4S é um exemplo de bom design, qualidade e funcionalidade. O facto de ser usado por muitos hipsters e de ser praticamente obrigatório em certas classes sociais não invalida que seja um aparelho fascinante. O problema é que não tenho qualquer interesse por smartphones e não estou disposto, nem a gastar uma fortuna comprando um, nem a subscrever um tarifário ruinoso. A minha relação com telemóveis é muito simples: servem para telefonar e enviar ou receber mensagens. Tenho o mesmo telemóvel há quase cinco anos e só o vou substituir quando avariar e a avaria for irreparável. Quando quero navegar na Internet uso o computador; quando quero fotografar, tenho duas câmaras que me dão enorme satisfação. Não sou, definitivamente, o cliente ideal da Apple e da minha operadora de comunicações móveis. Contudo, se me dissessem que tinha de escolher entre fotografar com uma point and shoot ou com um iPhone, escolhia este último. Sem pestanejar.

M. V. M.

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4 thoughts on “O iPhone e eu”

  1. Caro MVM:

    O seu texto fala da qualidade de imagem obtida com um iPhone. Lembro-me de ter escrito anteriormente acerca da qualidade de imagem na generalidade. Como não consigo encontrar o texto específico (talvez por não pesquisar da forma adequada), deixo-lhe um “link” para uma discussão recente, acerca deste tema, num fórum internacional de referência (pelo menos pelo número de visitantes e participantes):

    http://www.dpreview.com/forums/thread/3604067

    Cumprimentos

    PR

  2. Muito bom texto!!!
    Concordo! :)

    Os iPhones (smartphones, no geral) estão a banalizar a fotografia, infelizmente.
    Felizmente, os fotógrafos a sério, continuam ainda a utilizar as ditas máquinas fotográficas, usadas para o propósito.

    Eu tenho um iPhone, velhinho (3GS) e, de maneira alguma, sou capaz de trocar a minha EOS50D pelo iPhone. Tenho um iPad 3, mas também não sou capaz de trocar a máquina por este.
    Tenho também uma GoPro, mas também é limitada, obviamente, é o único aparelho que sou capaz de utilizar em alternativa definitiva… e, com limitações, claro.

    Diria que, no caso dos iPhones, são máquinas fotográficas para o mundo digital apenas… porque, papel (diga-se, impressão), está fora de questão.

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