A morte das câmaras (1)

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstive para não escrever este texto. É sobre um daqueles assuntos que, de tão batidos, perdem o interesse, mas depois, pensando um pouco, até suscitam algumas reflexões. O assunto é, de novo, a multiplicação de artigos e análises que mostram que as vendas de câmaras fotográficas estão em queda, ao passo que as dos smartphones continuam a subir. Nada que não saibamos, ou sobre o qual não tenha já escrito aqui. Hoje, porém, gostava de me desviar do tom catastrofístico e apocalíptico com que estas notícias são normalmente discutidas pela comunidade fotográfica – nem que seja para concluir, tal e qual como num texto anterior daqui do Número f/, que não estou nada preocupado.

Esta queda nas vendas é significativa: a Canon, por exemplo, vendeu em 2013 menos 23% de DSLRs que em 2012. Mas será este um fenómeno perverso (no sentido em que as pessoas estão a trocar a qualidade da imagem por gadgets que não a garantem) ou preocupante? Bom, se eu fosse accionista ou membro do conselho de administração de uma empresa de material fotográfico, estaria preocupado, mas vamos atentar no seguinte: a verdade é que nem toda a gente precisa de uma DSLR. A fotografia banalizou-se graças ao digital, pelo que o que está a acontecer é que a espada de Dâmocles está a cair sobre a cabeça da mesma indústria que impeliu o digital como meio de vender mais câmaras. Mais milhões de câmaras. Nesta acepção, apetece dizer que é bem feito: a indústria está a ser vítima da sua própria cupidez. Ora, a banalização da fotografia consistiu em dar ao público a possibilidade de fazer fotografias banais. Para fazer fotografias banais não são precisas DSLRs: quem faz selfies e fotografias do bolo de aniversário não exige a melhor qualidade de imagem possível, não quer saber dos benefícios de trocar lentes para nada e nem lhe passa pela cabeça carregar um saco com uma câmara volumosa com lentes pesadas. Tudo o que querem é um aparelho que lhes permita tirar as suas fotografias e divulgá-las instantaneamente. Um smartphone serve às mil maravilhas para isto e dispensa o uso de uma câmara fotográfica – o que explica o declínio abrupto das compactas, tornadas redundantes por via do aumento da qualidade das câmaras embutidas nos smartphones.

Tem vindo a usar-se o argumento de que os fabricantes de DSLRs (e, por acréscimo, de CSCs) não souberam adaptar as câmaras à era da conectividade, mas este argumento não colhe. Uma DSLR ou uma CSC podem ter conectividade – a Samsung tem trabalhado nesta direcção –, mas o problema não é esse: é que câmaras avantajadas não são práticas para o tipo de uso que a generalidade do público consumidor dá aos seus aparelhos. Tudo o que estas pessoas querem é um aparelho prático e fácil de usar. Estas são pessoas para quem o mero acto de rodar um anel de zoom é uma maçada e o disparo sequencial e a rapidez não são importantes. Dito de outra maneira, essas pessoas não são fotógrafas: são apenas pessoas que querem tirar fotografias de momentos que lhes parecem merecedores de ficarem registados em imagens. O problema da Canon e da Nikon (e de todas as outras que agem no mercado generalista) foi que se deixaram convencer que podiam sustentar os números de vendas, ignorando que nem toda a gente precisa ou quer câmaras volumosas e complicadas de usar. As DSLR são intimidantes para o público, mesmo que tenham um modo de exposição completamente automático.

É este o estado da fotografia nestes dias: os impulsionadores da fotografia digital estão a colher o que semearam, só agora se apercebendo que estiveram a lançar sementes dos frutos que os iriam envenenar. A sua voragem, que os levou a fabricar e vender câmaras digitais como forma de atingir públicos mais vastos e, deste modo, a multiplicar exponencialmente os lucros, está a voltar-se autofagicamente contra eles. O estado em que as coisas estão vai levar as empresas de material fotográfico a reagir, mas desta vez não vai haver ninguém a quem as guerras dos megapixéis e dos ISO astronómicos sejam capazes de convencer: as pessoas estão cansadas de comprar câmaras que se tornam obsoletas dois anos após o seu lançamento e cuja aquisição cada vez menos se justifica. Vai ter de haver, forçosamente, um downsizing, porque as empresas vão finalmente convencer-se que não há mercado para os seus produtos e deixar de lançar câmaras no pressuposto de que os consumidores são estúpidos e vão trocar a câmara que haviam comprado no ano anterior por uma outra cuja única diferença é ter mais 2 megapixéis de resolução em relação ao modelo precedente. Esta reestruturação da produção já começou: por exemplo, a Olympus já anunciou que vai deixar de produzir compactas point and shoot. As companhias cujo negócio de fotografia é apenas um entre vários outros, como a Canon, a Sony, a Ricoh e a Olympus, vão ter a tarefa facilitada, mas a Nikon vai pagar duramente o preço de se ter entregue a um jogo que não estava preparada para jogar – ao contrário da adversária Canon, que tem por trás de si uma corporação cujas actividades tornam o negócio das câmaras secundário. (Continua)

M. V. M.

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