Manual prático da guerrilha revolucionária (2)

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Camaradas, companheiros e amigos: tal como prometi ontem, vou ensinar-vos como os nossos pais, dos quais herdámos este combate estrénuo à tirania, enganavam o déspota a que chamam “fotómetro” quando usavam as suas câmaras rudimentares, ainda desprovidas do refrigério a que chamamos hoje “medição pontual”. Os vermes servis do capital que escreveram o manual da Olympus OM-2 podem ter colaborado com a opressão japonesa, mas, ó companheiros, deveremos por isso ignorar a sua sabedoria, se eles nos ensinam também a enganar o bárbaro tirano? Sei bem dos riscos que corro se o Comité Central ler estas palavaras, podendo incorrer no castigo com que muitos de nós foram punidos – um tiro na nuca, camaradas! – sempre que ousaram contrariar a ortodoxia do Partido; sei bem das purgas, das perseguições e dos assassínios com que os nossos queridos líderes punem estas ousadias, mas prefiro esta morte gloriosa a deixar que o tirano vos engane e, com as suas artimanhas, vos impeça de fazerdes as fotografias com que haveis sonhado; por isso vos peço que guardais segredo do que vos vou ensinar e me perdoeis este acto deliberado de desobediência que pode ser interpretado como uma cedência às tentações do vil capitalismo e do imperialismo, queridos irmãos de armas. Mais tarde, ao contemplardes as fotografias maravilhosas que fizésteis com a aplicação das técnicas que vos descrevo, agradecer-me-eis pelo meu ensinamento!

Companheiros, imaginai que quereis retratar um camarada contra uma parede branca. Se fizerdes como o tirano malvado tem por desígnio, com o seu ódio pelos contrastes, e ajustais a exposição em conformidade com as medições do fotómetro, o companheiro retratado ficará subexposto porque, ao contemplar tanta brancura, o déspota tentará reduzi-la a um tom cinzento, como é sua execrável prática, e escurecerá a imagem, com a consequência de o companheiro ficar subexposto. Por isso, companheiros, atentai no que vos vou ensinar, pois é mais simples do que parece: o que deveis fazer, neste caso, é aproximar a câmara do rosto do vosso querido companheiro, de modo a que este preencha a maior parte do enquadramento, e regular aí a exposição; depois, retomai o vosso posto de combate e observai a exposição: vereis que o tirano vai ludibriar-vos, indicando que a imagem está sobreexposta. Como devemos proceder, perguntais? Pois bem, tudo o que tendes de fazer é premir o botão do obturador com a exposição que havíeis seleccionado, ignorando heroicamente as indicações maléficas do tirano. Nada poderia ser mais simples e eficaz.

Suponhai agora que é ao contrário: o vosso irmão está à frente de uma parede negra. Se não agirmos e deixarmos a exposição à mercê do tirano, ó companheiros, o déspota maldito vai assumir o tom escuro predominante e procurar clareá-lo, resultando assim a fotografia numa mancha cinzenta indistinta. O que tendes de fazer é exactamente o mesmo que vos ensinei no caso oposto. Por isso, companheiros, não temais: aproximai-vos do vosso camarada, medi aí a exposição e, quando retomardes o vosso posto, limitai-vos a disparar. Eu sei, companheiros: isto parece ilógico, mas lembrai-vos quão tortuosos são os desígnios do tirano. Se não agirdes como vos digo, a fotografia do vosso companheiro sairá demasiado clara porque o déspota vai tentar clarear a imagem por todo.

Era assim que os nossos ilustres antepassados iludiam o déspota e faziam boas fotografias. Hoje, meus irmãos, temos a “medição pontual” como precioso instrumento de luta contra a tirania, mas muitos de nós insistem em usar câmaras sem este dispositivo. Isto não nos deve impedir de prosseguirmos o nosso glorioso combate que há-de levar-nos à vitória e ao esmagamento da tirania do fotómetro.

Confiai em mim, meus irmãos, pois a minha ciência é escassa, mas certa. Bebi das melhores fontes do saber para vos dar estes ensinamentos, caso contrário não me atreveria a fazê-lo. Se seguirdes o que vos digo, estareis aptos a fazer fotografias melhores sem que tenhais de cair na outra tirania e opressão pela qual muitos desertam as nossas fileiras, convencidos da bondade do computador e dos programas de edição de imagem. Estes só servem para que baixemos os braços e aceitemos a tirania do fotómetro com resignação. Não vos deixeis iludir, companheiros!

M. V. M.

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