Balanço do ano, parte 1: os meus apetrechos de fotografia

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuem segue este blogue estará porventura cansado de saber que uso uma câmara dos tempos do rolo de negativos. A compra desta câmara, em 12 de Junho deste ano que está agora a acabar, foi o facto mais relevante para a minha actividade fotográfica. A Olympus OM-2n não era exactamente uma ambição; era antes algo com que fantasiava de vez em quando. Por vezes, nas minhas sessões fotográficas digitais, dava por mim a pensar que fazer centenas de fotografias por sessão era inautêntico: desaparecia o desafio, imposto pelo limite do número de fotogramas disponíveis, de fazer bem à primeira. Com uma câmara digital posso fotografar sem nexo, dispensado da preocupação de fazer a fotografia sair bem: se não sair, posso fazer outra logo a seguir. De alguma maneira consegui, ainda quando fotografava exclusivamente digital, autolimitar-me e fazer poucas fotografias por sessão, preocupando-me em fazer bem à primeira, mas a tentação de fotografar tudo o que me apetecia manteve-se.

Tenho para mim que uma fotografia – cada fotografia – é demasiado preciosa para fotografar à toa. A melhor maneira que conheço para sentir esta contingência da fotografia é ter à minha disposição um número limitado de oportunidades para fotografar. Os rolos cumprem essa função na perfeição: com eles tenho de ponderar se os motivos que vejo são verdadeiramente merecedores de ser fotografados e fazer com que a composição resulte imediatamente. Eu não posso apagar uma fotografia de um rolo: se ela sair mal, foi um fotograma que desperdicei. No digital, essa fotografia falhada pode sempre ser apagada – e, se o não for, será apenas mais uma entre 1076 (que é a capacidade do meu cartão de memória no formato Raw).

Depois há o lado físico. As DSLR nunca foram uma escolha para mim, embora tivesse ponderado a aquisição de uma Pentax K-x quando, em 2010, procurava uma câmara para substituir a compacta que usava. Com um gosto estético forjado nos anos 70 e 80, é natural que as minhas referências em matéria de design fossem as das câmaras dessa época. Aliás, o facto de ter escolhido a Olympus E-P1 é sinal da influência da estética das câmaras daquele período. Não é, porém, apenas a estética que me seduz numa SLR: há o visor, o qual, para quem usava o ecrã para enquadrar, constituiu uma revelação só comparável à de Saulo de Tarso na estrada de Damasco. E há a patilha de avançar o rolo, que implica um gesto que me parece tão natural como respirar. Tão natural, aliás, que a inexistência dessa pequena alavanca me parece hoje contra natura (porque não é assim que se fotografa: fotografar implica avançar o rolo depois de cada disparo, como é evidente).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE, claro, há os rolos. Esta era uma matéria em que era completamente leigo. Agora que sou um noviço, converti-me completamente a eles. Especialmente aos Ilford e, em particular, ao FP4. É quase inacreditável o que um rolo pode fazer pela qualidade da imagem: com um Ilford conseguem-se instantaneamente imagens que, se feitas com o digital, requerem horas de manipulação no programa de edição de imagem para se obter um resultado equivalente – e por vezes não se consegue ficar sequer perto! Com um rolo destes consegue-se, além das qualidades de contraste, uma nitidez que pode deixar perplexos os mais ferrenhos dos digitalistas. Este é o produto de uma qualidade denominada microcontraste, que só se obtém de modo satisfatório numa câmara digital se esta tiver um sensor de resolução excepcional (ou depois de algum trabalho de edição). A resolução dos Ilford é tão boa qe me levou a rever os meus conceitos de nitidez: observar fotografias feitas a partir destes rolos, com a nitidez com que eles contribuem, é uma experiência quase extasiante: a profusão de pormenores que as imagens descrevem, a definição dos contornos dos objectos e a clareza com que se distinguem os vários tons são quase mágicos. É uma nitidez que delicia a vista e que se torna, muitas vezes, num objectivo em si: dei por mim a fotografar motivos relativamente desinteressantes só por causa da resolução que sabia ir surgir na imagem. O que está em completa contradição com o que pensava antes de descobrir os Ilford: nesse tempo considerava que o importante era o assunto da fotografia, independentemente das qualidades técnicas. Embora isto se mantenha largamente válido, agora fotografo com intenção de obter a maior nitidez possível – pelo menos nos planos que quero manter em foco –, o que se torna fácil quando se usa a OM-2, com o seu excelente ecrã de focagem, e rolos Ilford. (Continua)

M. V. M.

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