Ainda a fotografia de rua

Fotografia por Gérard Castello-Lopes
Fotografia por Gérard Castello-Lopes

Um amigo, entendendo que as minhas fotografias andavam um pouco perdidas no Facebook (na verdade não publico fotografias no FB, apenas estabeleço hiperligações deste para o Flickr), resolveu adicionar-me a vários grupos de que é membro, entre os quais um denominado «Street Photography». Embora esteja grato pelo gesto, que mostrou que tenho a sorte de encontrar pessoas de bem e com bons princípios, a experiência não correu lá muito bem. De facto, correu tão mal que só publiquei lá uma vez. Com várias excepções, que importa ressalvar – entre elas as fotografias desse amigo –, ver o que se publica naquela página do Facebook produziu no meu cérebro um efeito que não direi ser o de abrir a caixa de Pandora, mas antes o equivalente à abertura da Arca da Aliança pelos Nazis no primeiro Indiana Jones.

Não vou ser crítico, porque muitos dos membros daquele grupo se esforçam genuinamente por fazer algo parecido com fotografia de rua. Nem tenho, de resto, qualquer autoridade para fazer reparos, seja qual for a sua natureza. Apesar de o que vejo naquela página ser confrangedor pela sua ausência completa de interesse, aquelas fotografias lembram-me o que eu andava a fazer até há cerca de dois anos, quando tinha pretensões de fazer fotografia de rua. Devo, pois, ser complacente e compreensivo e aceitar que aquelas pessoas têm margem de progressão e um dia serão capazes de detectar e corrigir os erros em que incorrem.

O maior erro é, evidentemente, tentar imitar o estilo dos grandes fotógrafos de rua. O resultado de imitar é sempre inferior ao original, mas neste caso nem sequer é lícito efectuar comparações. Tal significaria rebaixar a obra dos grandes mestres. Como sabem, só nutro desprezo pelos imitadores. Adiante, que este grupo de pseudo-fotógrafos não interessa.

Há, porém, outros que conseguem evitar as armadilhas do plágio, mas o que fazem ou é formulário ou disparatado. Os que seguem formulários procuram, sobretudo, justaposições: esperam que passe alguém por um cartaz ou grafito onde figura uma pessoa e fotografam, porventura imaginando que fizeram uma grande coisa. Há justaposições felizes, mas nem todos os cartazes e grafitos se prestam a justaposições. Quanto aos que fazem fotografias disparatadas, são pessoas que incorrem sistematicamente no mesmo erro, que é o de fotografar pessoas singelamente, sem que daí resulte qualquer coisa de interesse. Nem todas as pessoas constituem motivos interessantes, nem uma fotografia pode ser considerada «de rua» só porque nela figura uma pessoa (ou várias).

Eu também fiz fotografias com interesse zero
Eu também fiz fotografias com interesse zero

Estes últimos membros do tal grupo estão, como referi, a cometer erros (desde logo de apreciação do valor das suas fotografias), mas merecem-me alguma simpatia. É que eu fiz inúmeras fotografias semelhantes às deles. O que era mais frequente era estar completamente enganado quanto ao interesse de uma pessoa ou cena e pensar que tudo o que bastava, para fazer fotografia de rua, era fotografar pessoas na rua. Nada mais errado. Devo dizer que só me livrei destes vícios quando comecei a usar lentes de focagem manual, que me impediam de reagir rapidamente – o que, no meu entender e atentas as minhas limitações, inviabilizava a prática da fotografia de rua. Ainda bem que isto aconteceu, pois livrou-me do vício de fotografar sem nexo.

Ora, o que é necessário para fazer fotografia de rua? Há, no essencial, duas escolas: uma advoga a captura de um momento e é reactiva e espontânea. A outra consiste na escolha de um pano de fundo sobre o qual, com um pouco de sorte, acontecerá uma cena «de rua» digna de ser fotografada – ou, pelo menos, por onde passará alguém merecedor de ser fotografado. A primeira, para funcionar, carece de um requisito essencial: deve contar uma história. Pouco importa se essa história é importante: pode ser uma história banal, de um quotidiano como outro qualquer. Por vezes basta um gesto, uma expressão corporal ou um olhar da pessoa fotografada (ou pessoas) para que se dê o que deve acontecer em fotografias como estas: estimular a imaginação de quem vê a fotografia. É isto que quem se propõe seguir esta escola da fotografia, cujo nome principal será, porventura, Garry Winogrand, deve procurar. Não é fácil: requer uma atenção fora do comum, uma grande rapidez e um sentido de discrição e furtividade que nem todos têm.

A outra escola rege-se por algo a que já chamei aqui o «método Doisneau», por ter sido este eminente fotógrafo quem primeiro descreveu esta metodologia. Ao contrário da fotografia de rua reactiva, esta exige paciência e perseverança. Requer, antes do mais, muito conhecimento do terreno, de modo a encontrar um cenário interessante. Uma vez encontrado este pano de fundo, este «pequeno teatro» (como se lhe referiu Doisneau), é necessário esperar pacientemente – durante horas, se necessário – até acontecer algo que mereça ser fotografado.

O que é comum a ambas as maneiras de fazer fotografia de rua é que devem ser uma narrativa. A fotografia de rua não tem que ver (só) com estética, e muito menos com HDR ou Nik Silver Efex: a fotografia de rua tem que ver com a vida. Tem de contar uma história que, a despeito da sua singeleza, desperte o interesse de quem vê a fotografia – tem, se quisermos, de mexer com as emoções e a sensibilidade de quem a vê. De outro modo será apenas um nada, um vazio. Fotografias das costas de uma pessoa numa rua desinteressante e cheia de carros (que são tão recorrentes como as justaposições no grupo do Facebook a que aludi) não comunicam com o espectador. Falta-lhes conteúdo, falta-lhes significado. As pessoas não se identificam com elas, não vêem a sua própria vida naquelas fotografias. Numa palavra, falta interesse a essas fotografias. E uma fotografia desinteressante é uma fotografia morta.

Custou-me muito a aprender tudo isto – se é que me é lícito afirmar que já o aprendi –, pelo que não posso, de maneira nenhuma, criticar pessoas que estão ainda numa fase incipiente da sua aprendizagem. Um dia elas poderão vir a ser verdadeiramente boas. O que necessitam é de ter a mesma percepção que tem quem vê as fotografias. Avaliar o interesse fotográfico de uma cena é difícil, não há como negá-lo; mas não é impossível. Por vezes basta uma opinião amiga para que tudo se nos torne claro e consigamos ver quais os erros em que estamos a incorrer – e, quando o fazemos, vêmo-lo com enorme clareza. A mesma clareza com que olho para as minhas fotografias «de rua» mais antigas e as rejeito por não terem valor.

M. V. M.

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2 thoughts on “Ainda a fotografia de rua”

  1. o verdadeiro fotografo,não age,nem fotografa segundo o que pensa que os “outros” vão pensar ou achar. A fotografia é um instrumento que se utiliza,como forma de arte,e a Arte não se discute…executa-se. O verdadeiro Artista,para o ser,não necessita de ser aclamado ou reconhecido,e que o diga o Variações! Eu fotografo,da mesma forma que como,bebo ou durmo e fotografo o que muito bem me apetece. A mim,o que me faz feliz,é fotografar…quem quiser ver,e gostar faça-o! E estou-me marimbando se vejo o que gosto no Museu do Louvre,ou no Facebook! O belo,não o deixa de ser em função do local onde é exposto! Isso funciona,para quem procura o tal “reconhecimento”…bem hajam

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