Alguém consegue explicar-me…?

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Vou abrir uma excepção e fazer uma apreciação crítica de fotografias feitas por mim. Tive sempre extrema reserva em fazê-lo, porque não quero incorrer em pretensões ao glorificar esta ou aquela fotografia, nem em modéstias excessivas que podem soar a falso; de resto, penso que ninguém consegue ser inteiramente objectivo quanto ao seu próprio trabalho e que haverá sempre factores que falseiam a sua apreciação. Uma fotografia pode ter sido feita, por exemplo, sob circunstâncias que apenas são de interesse para o próprio, escapando o seu significado a todos os demais.

Dito isto, o que me leva a escrever este texto é o facto de uma fotografia que considero ser particularmente feliz ter recebido muito menos apreciação no Flickr (o que é sempre controverso) que outra que me parece ser uma imagem banal. Começando por esta última, que é a que figura no topo deste texto: fi-la porque gosto do motivo – é um abrigo construído recentemente para os pescadores da Cantareira, aqui no Porto, onde estes guardam os seus apetrechos –, mas é uma fotografia quase meramente documental. Não é uma perspectiva que tenha nada de especial, o mesmo se podendo dizer do enquadramento. É, quando muito, uma fotografia competente do ponto de vista técnico que ilustra bem um motivo. O único pormenor que me parece verdadeiramente interessante é a pilha de cestos do lado esquerdo, pela profusão de pormenores que mostra (aliar uma Olympus OM-2n com a 28mm-f/3.5 a um rolo Ilford FP4 é uma das melhores maneiras que conheço de obter uma resolução excelente de texturas e pormenores), mas de resto é meramente ilustrativa.

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A outra (acima) é, quanto a mim, muito mais interessante. Procurei um ângulo arrojado e dinâmico, que projectasse as linhas formadas pela cobertura de madeira que evoca a estrutura de um navio, o tipo de projecção que só é possível obter com uma grande-angular. Sob o arco da parte posterior da cobertura estão quatro pescadores que jogavam às cartas. O mesmo arco posterior vem trazer organização ao caos dos apetrechos de pesca que se espalham pelo chão e das figuras dos pescadores, parecendo agrupá-los, dando deste modo ordem à fotografia (a fotografia também é trazer ordem ao que o olho vê como desorganizado e caótico). Fiz, deste modo, uma fotografia que se organiza em torno dos vectores formados pela cobertura e que enquadra elementos de uma maneira que tenho de considerar muito conseguida, porque o é. E a forma como a cobertura se projecta no espaço definido pelo enquadramento confere-lhe uma excelente dinâmica. Esta é uma fotografia de que posso muito justamente sentir-me orgulhoso.

Contudo, é a primeira que recolhe os favores dos visitantes do meu Flickr. Tem mais visualizações, comentários e, ao contrário da última, foi marcada como favorita por alguns visitantes. Tenho de confessar a minha perplexidade: afastando-me, tanto quanto possível, do facto de ter sido eu quem fez ambas as fotografias, considero a primeira banal e a segunda interessante. Os meus visitantes, contudo, parecem não pensar assim. Não quero, de forma alguma, inferir que os meus visitantes são incapazes de reconhecer uma boa fotografia. Entre eles há pessoas que fotografam extremamente bem. Pode acontecer que a primeira, por ser mais descritiva, transmita melhor as qualidades estéticas do motivo, ao passo que a segunda o usa de um modo mais abstracto – mas isto sou eu a tentar ler as mentes de quem viu as fotografias, o que é um exercício complicado e quase sempre falível.

Seja como for, torna-se-me difícil compreender por que a primeira fotografia é mais popular do que a segunda. Esta última é simplesmente melhor. Em confronto estão uma fotografia estática e factual e uma dinâmica e um pouco mais abstracta – e é a primeira que recolhe mais simpatia, pelo menos entre os visitantes do meu Flickr. Não compreendo porquê. Alguém me explica?

M. V. M.

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1 thought on “Alguém consegue explicar-me…?”

  1. Bem, eu mesmo fui um dos que marcou a primeira como favorita e não deu muito valor à segunda. Acredito que não tenho um olhar crítico tão aguçado, ao menos ainda não. A talvez, por isso mesmo, a primeira foto tenha me agradado mais pela harmonia entre a cobertura, vista de um lado mais homogêneo, e a pilha de cestos. Na segunda, as vigas do teto estão num tom de cinza mais chapado, com menos contraste, e não é de prima que se percebe os senhores a jogar cartas.
    Não estou dizendo que minha avaliação seja correta. Talvez ela se baseie mesmo num olhar mais apressado e que valoriza os padrões estéticos já estabelecidos, ao invés de se deixar tocar pela abstração e pela ousadia. Fico com essa dúvida para minha própria educação visual.

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