As equações e eu

indexNão gosto de ler livros no computador. Aliás, não gosto de ler nada que tenha mais de duas páginas no computador. Quanto a mim, não há nada que substitua o papel para ler. Claro que, se for obrigado, leio quantas páginas for necessário no computador, mas mesmo só se for impossível obter o mesmo livro ou documento em papel e se não puder imprimir o texto por ser demasiado extenso. Ler no computador baralha-me: não tenho a percepção do que já li e do que falta ler e fico sempre com uma sensação de distanciamento em relação ao que estou a ler, o que me impede de memorizar.

Isto vem a propósito de um livro que descarreguei da Internet por querer aprender mais qualquer coisa sobre técnicas fotográficas. O livro tem por título The INs and OUTs of Focus e o seu autor é Harold M. Merklinger, de Dartmouth, Nova Escócia, Canadá. Eu bem tentei lê-lo, mas como ler no computador é uma experiência frustrante e o livro é demasiado extenso para imprimir (o que, de resto, não valeria a pena, mas já lá vamos), acabei por desistir. Nem sequer sou capaz de dizer se o livro é bom ou mau, porque não li o suficiente para fazer uma avaliação, mas presumo que se Mr. Merklinger escreveu um livro sobre o tema da focagem e da profundidade de campo e quer que o leiamos gratuitamente, descarregando-o da Internet, é porque se sente razoavelmente seguro dos seus conhecimentos e adquiriu um elevado grau de certeza quanto a estas matérias.

Não foi apenas o facto de ter de o ler no computador, em formato PDF, que fez com que não tivesse passado da página 11. Eu até poderia vencer as dificuldades com que me debato quando tenho de ler no computador se o tema fosse apelativo (lembro-me de ter lido uma biografia de Anton Bruckner de um fôlego, num PDF de muito pior qualidade do que este), mas o Sr. Merklinger, na sua abordagem à temática, comete aquele que é, quanto a mim, um dos pecados cardeais em fotografia – o abuso da matemática. Ele é todo equações e fórmulas matemáticas e, embora garanta ao leitor que basta ter à mão um lápis e o verso de um envelope usado para entender essa matemática (sim, consegui ler o livro até ao ponto em que o autor faz esta afirmação), a verdade é que não aprovo este tipo de abordagem. Pura e simplesmente não me é útil. Eu não vou fotografar melhor por saber que

E = f2
D – f

ou que

D1 = f2D + gfD – gf2
f2 – gf + gD.

Isto pura e simplesmente não me interessa. O que quero é compreender como funciona a lente, como a imagem é gravada na película ou sensor e como interagem a distância em relação ao motivo, a abertura e a distância focal para produzir a focagem. O resto pode ser muito interessante para quem tenha um genuíno interesse por estas coisas da física e da óptica e tenha uma predisposição mental para entender as coisas através de fórmulas matemáticas e equações. Não tenho nada a apontar a estas pessoas, evidentemente; simplesmente, não sou uma delas. E, sobretudo, permito-me duvidar da utilidade destas matemáticas para fazer boas fotografias, ou mesmo para compreender como funciona uma câmara.

Há pessoas que consideram as fórrmulas e as equações como o grau mais elevado de conhecimento. Por vezes quer-me parecer que o que estão a fazer é ofuscar os outros com ciência arcana e intrincada, eventualmente tentando disfarçar a sua falta de aptidões noutros campos (não estou a dizer que este é o caso de Mr. Merklinger). Quanto a mim, não preciso de disfarçar nada: basta dizer que, se hoje sou um profissional do foro (expressão que prefiro, por larga margem, à de «operador judiciário»), devo-o à matemática e às suas equações, às incógnitas e aos logaritmos. Não sou um apologista do conhecimento empírico, mas penso que, quando não se tem outra pretensão na fotografia que não seja fotografar, há muitas coisas que têm precedência absoluta sobre a ciência das ópticas. Primeiro é preciso ter gosto estético e visão, que não são demonstráveis nem representáveis por fórmulas matemáticas; depois é necessário ter boas noções de composição e enquadramento, o que também é refractário a qualquer ciência exacta; e é também necessário dominar as funções da câmara, mas não é preciso saber resolver equações para fazê-lo. Basta entender a lei da reciprocidade e perceber as variáveis que determinam a profundidade de campo. A compreensão deste último adquire-se com algo tão simples como aproximarmo-nos e afastarmo-nos do motivo.

De qualquer modo, se o leitor tem uma mente científica, dada a raciocínios matemáticos, e não tem objecções a ler no computador, pode descarregar o livro do Sr. Merklinger aqui. Considere-o a prenda de Natal da gerência do Número f/.

M. V. M.

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