Rádio e outras divagações musicais

image010Entre 2004 e 2011 os portugueses amantes da música que se faz fora dos grandes circuitos comerciais andaram completamente perdidos. Embora entretanto tenham surgido as rádios online e o You Tube (que é uma poderosa fonte de informação musical), não havia uma rádio, daquelas que se sintonizam através de um aparelho receptor, que nos deixasse conhecer música nova. Mesmo a Antena 3 sofria de oficialite e a música que passava era o mainstream de entre a música alternativa: The Strokes, The White Stripes, Coldplay e essas coisas (e, por ser justo mencioná-lo, também os MGMT e os The Yeah Yeah Yeahs). Agora temos a Vodafone FM – passe a dupla publicidade, à rádio e ao operador de comunicações – que, não sendo uma rádio no estilo de António Sérgio e John Peel, divulga muito do que de bom se faz.

Contudo, há géneros que são os alternativos da música alternativa. Rádios como a Vodafone FM e a Antena 3, que estão mais vocacionadas para a música independente com raízes no rock, costumam ignorá-los, mas estes têm linhagens e tradições longas e prestigiosas. Tudo começou em 1991, quando os Massive Attack lançaram o maravilhoso Blue Lines e os Future Sound Of London editaram o espectacular Accelerator. Um criou uma nova linguagem musical; o outro trouxe um género musical que vivia confinado aos clubs e discotecas para a urbe. Ambos se inspiraram em correntes que vêm de longe: Blue Lines tem influências da soul e dos blues, Accelerator dos Kraftwerk, da techno de Detroit e do disco. Eventualmente, a cena musical fundiu os dois estilos e deu origem ao trip-hop – expressão cunhada por DJ Shadow, mas à qual é preferível chamar downtempo – e ao drum n’ bass. Estas divisões baseiam-se na manipulação de ritmos de dança: o downtempo atrasa-os, o drum n’ bass acelera-os. Sobre os ritmos lentos, os Djs e produtores do downtempo acrescentaram baixos poderosos e linhas melódicas que, na sequência de Blue Lines, se inspiraram nos blues e na soul, às quais se foram acrescentando influências da música alternativa derivada do rock. Surgiram assim os Portishead, os Attica Blues, Monk & Canatella, Mr Scruff e muitos outros. Foi este o estilo que mais ouvi nos anos 90 e princípios deste século, por ouvir rádios como a XFM e a Voxx (e frequentar o Labyrintho, aqui no Porto). Entretanto, de França surgiram Ludovic Navarre, a. k. a. St. Germain, que acrescentou influências do Jazz, e os Air, que trouxeram canções sob influências melódicas dos anos 70, entre Gilbert O’Sullivan e Serge Gainsbourg.

Simon Green, a. k. a. Bonobo
Simon Green, a. k. a. Bonobo

Misturando tudo isto, apareceu no ano 2000 um DJ e produtor inglês chamado Simon Green, que lançou um álbum chamado Animal Magic sob o pseudónimo «Bonobo». Este álbum soa hoje datado, com as suas batidas sampladas de vinis riscados, mas escapou-me por completo quando foi lançado – por sinal, por uma editora cujo catálogo conhecia bem e cujos discos ocupam um volume substancial nas minhas estantes: a Ninja Tune. Como pude eu perder os discos que Bonobo foi lançando? Bom, Animal Magic soava igual a muita coisa que ia saindo naquela época e, por outro lado, do catálogo da Ninja Tune constavam nomes que me interessavam mais pela sua originalidade, como The Cinematic Orchestra e Amon Tobin. Mas, depois de Animal Magic, Bonobo criou um estilo próprio que o tornou numa das propostas mais interessantes na música alternativa da década passada. Simplesmente – e regressando ao início do texto – nessa altura não tinha uma rádio que me desse a conhecer os álbuns de Bonobo. Passou-me ao lado alguma da melhor música que se fez nesta corrente desde 2000.

O You Tube permitiu-me conhecer os cinco álbuns de Bonobo, todos eles excelentes. Não me importaria nada de tê-los a todos em suporte físico, de preferência em vinil. Descobri que Bonobo ainda está activo e que lançou um álbum neste ano que está a acabar, de título The North Borders. É excelente: a linguagem é o downtempo, com influências de Jazz e Soul e com orquestrações verdadeiramente luxuosas. Seria bom ter tido conhecimento deste álbum através de uma rádio que fosse mais eclética do que a Vodafone FM, porque Bonobo é muito melhor do que Vampire Weekend e Mac de Marco e outras coisas menores que passam a toda a hora naquela rádio.

446-tivoli-audio-model-one-blackUm pequeno epílogo para dizer que, quando escrevi o texto As minhas coisas retro, me esqueci completamente de mencionar um dos objectos inspirados no passado que mais uso: o rádio Tivoli Audio Model One. É um pequeno rádio que consiste numa caixa de madeira inspirada nos anos 50, que age como uma coluna de som, e um sintonizador Motorola de enorme qualidade. A sintonia é excelente, mesmo sem antena exterior, e o som é inacreditavelmente bom. Quando usado sozinho, emite em mono, mas como o sinal é stereo, consigo obter som estereofónico ligando-o ao amplificador através de um adaptador e dois cabos de sinal. O som do Tivoli Audio Model One é tão bom que rivaliza com sintonizadores de alta fidelidade e não fica muito atrás da qualidade do leitor de CD e do gira-discos. E não paguei mais que €170 por ele.

Toda a gente devia ouvir rádio. Além de ser um meio de divulgação musical que ainda não perdeu importância, é a melhor coisa que se pode fazer durante longas viagens de automóvel (embora também seja bom de ouvir em casa, especialmente através de um Tivoli Model One). É também um hábito que, infelizmente, se está a perder. O que é uma pena.

M. V. M.

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