Da inutilidade dos zooms

Meh.
Meh.

A primeira câmara que comprei, uma compacta, não me ensinou praticamente nada. Ao fim de dois meses já estava a suplicar por qualquer coisa melhor do que aquilo. Só quando comprei a E-P1 é que comecei, lentamente, a compreender o que é necessário para fotografar bem. Tinha finalmente controlo sobre a exposição, podendo usar vários modos – a compacta só tinha o modo P, o que apesar de tudo foi útil – e montar lentes adequadas às minhas intenções.

Um grande benefício que obtive com a aquisição da E-P1, sem que na altura o soubesse, resultou de tê-la comprado sob a forma de um kit que incluía a Pancake 17mm-f/2.8. Esta não é a melhor lente do mundo: falta-lhe resolução e nitidez, as quais são apenas medianas, e tem características péssimas de transmissão de luz que facilitam em muito o estouro das altas luzes – mas é uma prime, i. e. uma lente de distância focal fixa. O que fez toda a diferença na minha aprendizagem, uma vez que, durante alguns meses, foi a minha única lente. Com esta Pancake não havia zoom: se quisesse fazer variar a perspectiva, a minha única possibilidade era avançar ou recuar em relação ao motivo.

Parecendo que não, o facto de estar limitado a esta lente ensinou-me tudo o que precisava de saber sobre composição e enquadramento em fotografia. Ter um zoom e ficar estático numa determinada posição, limitando-se o seu dono a rodar o anel de zoom para encontrar um campo de visão adequado, não ensina nada. Pelo contrário, apenas estimula a preguiça mental. Nada substitui o acto de nos aproximarmos e afastarmos do motivo: pode ser pouco prático para alguns, mas compreendem-se melhor as noções de perspectiva, composição e enquadramento. Não é a mesma coisa aproximarmo-nos de um motivo ou rodar o anel de zoom até se obter o campo de visão desejado. A aprendizagem é muito mais completa se usarmos lentes de distância focal fixa, porque assim temos noções muito mais precisas sobre os enquadramentos, uma noção incomparavelmente melhor da profundidade de campo e, acima de tudo, compreendemos muito melhor como funciona uma câmara. Além disto, podemos andar à volta do motivo à procura do melhor ângulo com muita mais liberdade do que se estivermos num ponto distante a fazer zoom. Podemos evitar aquela sombra, ou aquele elemento de poluição visual que não queremos nem por nada que fique incluído no enquadramento e, sobretudo, podemos observar o motivo com mais atenção. E não temos as desvantagens técnicas dos zooms que referirei adiante.

Os zooms são práticos e há muitos fotógrafos que os usam. Por vezes encontram-se obstáculos físicos que nos impedem de nos aproximarmos dos motivos e, nestes casos, o zoom pode ser a única solução. De resto, com os zooms não há a necessidade de trocar de lentes – mas estas são as únicas vantagens. Desenganem-se os que pensam que basta um daqueles zooms 18-200-f/4-5.6 para cobrir todas as necessidades fotográficas: se todas as lentes são um compromisso – afinal de contas, elas não são mais do que pobres arremedos do olho humano –, os zooms ainda o são mais. Claro que há zooms de alta qualidade, mas custam uma fortuna, são grandes e pesados e o intervalo entre as distâncias focais é relativamente curto. Com um zoom da classe desses 18-200, o mais provável é que sejam uma combinação dos problemas ópticos das grandes-angulares (como a distorção de barril) com os das teleobjectivas (que produzem a distorção oposta). Não são bons para focar ao perto nem ao longe. Acresce que, se quisermos fotografar um objecto distante, temos de nos contentar com uma abertura máxima de, na melhor das hipóteses, f/5-6. Com uma abertura destas o mais provável é que se torne imprescindível aumentar o ISO, com o consequente aumento do ruído, ou usar um tripé.

Nem se diga que os zooms são bons porque permitem distâncias focais longas. Para alguém cuja melhor lente é uma prime de 135mm, estas palavras são um perfeito disparate. Não é preciso ter um zoom para as distãncias focais longas porque existem teleobjectivas de distância focal fixa. Já agora, não se deixem impressionar por distâncias focais extremamente longas, como os 300 ou 500mm. A menos que o caro leitor pretenda fotografar aves – e não há nada de mal nisso: conheço gente que o faz maravilhosamente bem, como se pode ver aqui e aqui – estas lentes vão ter uma utilização tão escassa que o mais provável é que acabem arrumadas numa gaveta (ou num anúncio do eBay). Não vale a pena. Estas distâncias focais são altamente especializadas. São só para quem verdadeiramente precisa delas.

Curiosamente, tenho reparado que algumas pessoas que conheço e se interessam por fotografia, embora não tenham grandes conhecimentos técnicos, imaginam que todas as lentes são zooms. Obviamente, isto não é verdade, mas parece ser um erro muito comum. Um erro que pode sair caro e ser profundamente frustrante. (Pelo menos foi-o comigo, que também caí na asneira de pensar que precisava imenso de um zoom: comprei um e agora não o uso. Aprendam com os meus erros…)

M. V. M.

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