Fotografia e memória (ou: de como podemos ficar senis se fotografarmos muito)

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Um estudo de Linda A. Henkel, divulgado na semana passada pela revista Psychological Science, mostrou resultados curiosos. Um grupo de pessoas foi levado a um museu, onde pediram aos participantes que observassem alguns objectos e fotografassem outros. Quanto aos objectos que apenas foram vistos, os participantes foram capazes de descrevê-los com precisão, mencionando os seus pormenores com um grau elevado de exactidão. Contudo, não foram capazes de descrever os objectos que fotografaram. A autora do estudo, que de resto é filha de um fotógrafo, chamou a este fenómeno photo-taking-impairment effect.

Independentemente de se saber se o grupo de participantes é representativo, podendo, em caso afirmativo, estabelecer-se um padrão, o estudo sugere que a memória visual deixa de ser estimulada quando se fotografa um determinado objecto. O que permite inferir que fazer a memória depender de fotografias é uma maneira de esquecer o que se vê. Depender exclusivamente de fotografias para memorizar algo não é, deste modo, uma boa prática se queremos recordar um motivo.

Isto parece fazer algum sentido. Ao confiarmos no poder documental da fotografia, abstemo-nos de memorizar os objectos. O que se passa nos nossos cérebros é mais ou menos o seguinte: se queremos recordar um determinado objecto, não precisamos de fixá-lo porque temos sempre a fotografia. Isto levanta uma série de problemas: ao não memorizarmos, estamos a deixar de exercitar a memória visual. Tal como todas as funções, se esta não for exercitada vai degradar-se e, eventualmente, perder-se por completo. (Quem diria que a fotografia podia tornar-se num caminho para a demência…)

De resto, a falta de memória visual pode levar a que nos tornemos completamente dependentes do aparelho fotográfico. Da mesma maneira que hoje em dia a maioria de nós precisa de um aparelho electrónico para escrever, porque a falta de treino destruiu a caligrafia (vá lá: quantos de nós, desde que usamos os computadores, conseguem escrever um parágrafo à mão sem nenhum erro?), pode dar-se o caso embaraçoso de não conseguirmos fixar objectos na memória. O que pode ser pouco importante quanto a muitos objectos, mas – e se for uma cara? Vamos cruzar-nos com uma pessoa com quem estivéramos no dia anterior e não reconhecê-la?

Diga-se, de resto, que uma pessoa que tiver a memória visual prejudicada sentir-se-á perdida se não tiver consigo uma câmara. Quem confiar demasiado nas fotografias para se lembrar de alguma coisa no futuro corre ainda o risco de, se a fotografia de um objecto desaparecer (o que não é difícil), o mesmo desaparecer também da memória.

Isto é assustador. Não bastavam as selfies e as fotografias completamente estúpidas: a proliferação de câmaras pode tornar-nos senis! Em breve teremos uma geração incapaz de descrever o que acabou de ver sem olhar para o telemóvel. Não é triste? O pior é que confirmei que este estudo demonstra um facto real. Eu mesmo experimentei-o. Depois de ter fotografado o DS no domingo, apercebi-me, enquanto estava a editar as imagens, que não me lembrava da matrícula. Nem sequer das letras, que geralmente memorizo com facilidade. E eu nem sou daquelas pessoas que anda sempre a fotografar a torto e a direito com um telemóvel. Oh well…

M. V. M.

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