Overdose fotográfica

Não, isto não é um extraterrestre nem um louva-a-deus
Não, isto não é um extraterrestre nem um louva-a-deus

Não sou só eu. Aparentemente há mais quem se preocupe com o rumo que a fotografia está a tomar. Um artigo publicado na semana passada no The Guardian (ler aqui) levanta a mesma questão (quem leu os meus textos sobre as selfies sabe que cheguei primeiro…) com um título elucidativo: A Morte da Fotografia: Os Telemóveis Estarão a Destruir Uma Forma de Arte?

Eu não seria tão radical nesta matéria – o Número f/ não é um tablóide –, mas a questão é pertinente. Pode uma actividade (chamemos-lhe assim) que essencialmente se resume a tirar umas selfies e fotografias sem qualquer interesse ser considerada uma arte? Não será ridículo pretender que a fotografia é uma arte? Os telemóveis com câmara vieram trazer a fotografia a muita gente, mas esta disseminação não poderá ter os efeitos de uma overdose fotográfica? É licito questionarmo-nos se esta proliferação de fotografias, que na sua esmagadora maioria não têm qualquer qualidade, não tem efeitos perniciosos sobre a fotografia artística.

Quanto a mim, já tive oportunidade de dizer o que penso sobre isto: as selfies, a iPhonografia e o incrível caudal de fotografias publicadas todos os dias nas redes sociais não fazem nada de bom pela fotografia enquanto arte porque a banalizam e abastardam. Contudo, também penso que o que isto traz é, não a morte da fotografia, mas o seu confinamento, enquanto forma de arte, a um espaço cada vez mais reduzido. Ao mesmo tempo, estabelece-se mais nitidamente a fronteira entre a fotografia casual e a artística. A fotografia com telemóveis não vai matar a fotografia, tal como na música o karaoke e o Justin Bieber não destruiram o acervo musical guardado ao longo de séculos nem a Margarida Rebelo Pinto e o Nicholas Sparks vão matar a literatura. O que vai acontecer é o núcleo de apreciadores tornar-se mais pequeno e selectivo.

Isto não é nada que não tivesse acontecido antes na fotografia – embora em menor escala – com o advento da fotografia digital. Esta pôs câmaras nas mãos de muita gente que não sabe fotografar, mas como nesse tempo o fenómeno não tinha as proporções que assume agora, ninguém se preocupou com ele – pelo contrário, praticamente toda a comunidade fotográfica acolheu o digital de braços abertos. O que não é bom nem mau: entre o advento da fotografia digital e o iPhone já havia uma distinção forte entre fotografia casual ou documental e fotografia artística e esta era largamente minoritária. O que veio mudar tudo não foram tanto os telemóveis, mas sobretudo a partilha de imagens nas redes sociais. O que as câmaras dos telemóveis trouxeram foi maior rapidez e facilidade a essa partilha.

Deste modo, eu não culparia os telemóveis com tanta veemência. Fazê-lo é ver apenas uma parte da questão – a do equipamento. Este é um vício muito típico da comunidade fotográfica. Pode dizer-se que hoje vivemos na era da imagem, pelo que tenho a certeza que, mesmo se não houvesse smartphones e telemóveis com câmaras, a partilha de imagens teria lugar na mesma. Em menor quantidade, certamente, mas as pessoas teriam sempre compactas baratas ao seu dispor. Penso que a compulsão pela imagem é tão forte que os fenómenos actuais de erosão da qualidade da fotografia e dos critérios da sua feitura e apreciação se verificariam, mesmo se retirássemos os smartphones da equação. Haveria sempre selfies (não é para elas que servem aquelas compactas com ecrã à frente?) e fotografias de bolos de aniversário no Twitter e no Facebook.

Dito isto, existe uma questão que nos deve preocupar: a profusão de fotografias que existe hoje está a fazer erodir o prestígio da fotografia enquanto arte e enquanto técnica. Há fotojornalistas a ser substituídos por repórteres com iPhones, os fotógrafos profissionais não têm trabalho e a pretensão de fazer fotografia artística não é levada a sério – a não ser por um núcleo cada vez mais restrito de pessoas. Isto preocupa-me um pouco, mas não tanto que me torne num arauto da desgraça e proclame o apocalipse da fotografia. Estou até bastante tranquilo quanto à sobrevivência da fotografia artística. O que lhe vai acontecer é ser apreciada – e feita, evidentemente – por menos gente. Mas de que nos podemos queixar? Foi sempre assim! As pessoas de bom gosto foram sempre uma minoria, por que havia agora de ser diferente? O único risco é sermos vistos como excêntricos que vivem no passado, mas com isso posso eu bem. Como sabem, eu escrevo os textos do Número f/ numa Remington de 1955…

M. V. M.

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1 thought on “Overdose fotográfica”

  1. “Photography is in direct proportion with our time: multiple, faster, instant. Because it is so easy, it will be more difficult. (…) Only a vision – that is what one must have. “[ernst haas]

    Isto não dito depois de ter surgido o telemóvel, nem mesmo depois de ter surgido a fotografia digital. Foi antes, mas mesmo muitíssimo antes.

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