O que é um fotógrafo?

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É uma das palavras mais impropriamente aplicadas do mundo. Hoje qualquer um parece pensar que basta ter uma câmara para ser um «fotógrafo». É só ir ao Facebook e publicar fotografias irrelevantes, mas profundamente modificadas com o HDR e programas como o Photoshop, com a menção «fulano-de-tal photography» ou «sicrano fine art» inscrita num canto em letra cursiva, e pronto – eis a obra de um fotógrafo. Isto está tão mau que até os iPhonógrafos se arrogam o título de fotógrafos. A questão é – será lícito, a pessoas como estas, autorotularem-se como «fotógrafos»? Tenho para mim que não é qualquer um que é fotógrafo e que é necessário preencher certos requisitos para aceder a essa condição. Compreendo muito bem o interesse de muitos por fotografia e o facto de hoje, com a proliferação de câmaras em tudo o que é aparelho electrónico, aquela ser acessível a praticamente toda a gente, mas isto não basta para se ser um fotógrafo.

Sendo eu alguém que sempre repudiou autointitular-se «fotógrafo», os meus critérios são bastante apertados. Quanto a mim, não é qualquer um que merece ser intitulado fotógrafo. O meu conceito é tão restritivo que, na minha opinião – e eu posso estar errado –, a qualidade de fotógrafo deve ser reservada a quem vive da fotografia. É certo que me podem apontar a objecção de que, nesse caso, seria uma redundância qualificar alguém de «fotógrafo profissional». De facto, esta expressão pode ser pleonástica – mas o seu oposto, «fotógrafo amador», pode tornar-se tão extenso que permite englobar pessoas que não fazem a mais pequena ideia do que é fotografia, mas têm uma câmara. De resto, será que algum desses tipos que andam nos passeios da nossa marginal montados nas suas bicicletas a aterrorizar os peões merece ser reputado de «ciclista»? Um sujeito que pega nas suas canas e vai pescar para a Rua do Ouro é um «pescador»? Podemos dizer que este último é um pescador «desportivo» ou «amador», mas não será a mera presença do substantivo «pescador» insultuosa (ou, pelo menos, ridícula) para os pescadores verdadeiros, aqueles que arriscam as suas vidas na faina e permanecem longe das famílias durante meses a bordo de embarcações? Se isto é verdade – e duvido que haja muitos a discordar do que exprimo com estes exemplos –, que sentido faz apodar de «fotógrafos» os turistas que se acotovelam todos os dias à porta da Livraria Lello?

A fotografia merece mais respeito do que aquele que hoje lhe é reservado. Uma forma de exprimir esse respeito é não abastardar ainda mais a fotografia e os fotógrafos. A fotografia não é – não pode ser – apenas ver um motivo que parece bonito e fotografá-lo. Fazer uma fotografia que não seja casual (os anglo-saxónicos usam os conceitos de photograph e snapshot para distinguir as fotografias casuais, mas nós não temos nenhuma expressão equivalente) é um acto de criação que envolve muito mais do que enquadrar e premir o botão do obturador. A fotografia é uma forma de expressão, pelo que importa, antes de mais, que lhe esteja subjacente uma ideia. Esta ideia pode ser apenas estética, mas deve ser uma interpretação pessoal de um motivo. Depois, como qualquer outra forma de expressão, carece de ser transmitida correctamente, o que envolve um domínio razoável da técnica. A técnica – já perdi a conta ao número de vezes que o escrevi aqui – é um mero auxiliar da expressão e o seu domínio não deve ser tomado como o objectivo principal da fotografia, mas é importante, porque sem ela não somos capazes de nos exprimir correctamente.

Para que alguém aceda à qualidade de fotógrafo, é pois necessário que tenha ideias fotográficas e que saiba como exprimi-las. A fotografia é, deste modo, uma ars e uma teknê que são interdependentes. Uma não pode existir sem a outra. Não é qualquer um que tem este domínio. Por regra, apenas os profissionais – os bons profissionais, entenda-se – o têm, mas há outros que o podem atingir, mesmo que não façam da fotografia profissão. Penso que estes últimos apenas podem ser reputados como «fotógrafos» quando atingem algum grau de reconhecimento. Ao atingir esta consagração, a pessoa está, de um modo ou de outro, a viver da fotografia, pelo que a minha definição – assumida e propositadamente estreita – de fotógrafo como alguém que vive da fotografia faz sentido. Com a vantagem de preservar o respeito que a fotografia e os fotógrafos merecem.

M. V. M.

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