Fora do tema

Confesso que tenho alguma dificuldade em entender a mentalidade de algumas pessoas que se interessam por fotografia. Aparentemente, e fazendo uma interpretação do que vejo na Internet, a maioria das pessoas usa a fotografia como mero registo de momentos que apenas tem algum significado para elas mesmas. A proliferação que teve início com a implementação de câmaras fotográficas nos telemóveis é, sem dúvida, o que está na origem dos muitos milhões de fotografias que se tiram a cada minuto que passa. Isto não me interessa: era só o que me faltava andar a tirar fotografias de bolos de aniversário, de convívios num café ou de jantares de Natal.

Outro grupo, felizmente menos numeroso, é o dos maluquinhos do equipamento. Estes visitam os sites de fotografia com a mesma avidez que um pervertido percorre websites de pornografia. Lamentavelmente, e por motivos que não sei explicar, este parece ser o grupo que mais visita o Número f/. Para além de muitos seguidores que são pessoas com um gosto genuíno pelas coisas da fotografia, os visitantes deste blogue vêm à procura de informações que têm um interesse muito relativo. Sinto-me triste por ver que um dos textos mais consultados do Número f/ é um sobre as deficiências da focagem automática de uma certa câmara CSC, que é retribuído quando se procura o modelo dessa câmara no Google. Depois deste vêm os textos sobre coisas como a profundidade de campo (o aspecto técnico que mais se dá a equívocos e preconcepções) e a distância focal equivalente.

Em contrapartida, as estatísticas provam-me que, se quiser ter muitos leitores neste blogue, não posso escrever nada que fuja aos temas técnicos. Os artigos sobre fotografias e fotógrafos têm uma aceitação relativamente boa, mas aparentemente circunscrita aos seguidores mais fiéis do Número f/ (vós sabeis quem sois e sabéis também que vos estou agradecido e que é para vós que escrevo), mas mesmo estes parecem desertar quando saio dos temas fotográficos. Não sei como interpretar isto: prima facie é uma atitude lógica, pois há websites e blogues dedicados aos temas que abordo quando publico textos fora do tema fotografia. Há páginas altamente especializadas acerca de música electrónica alemã dos anos 70, sobre literatura distópica do Século XX e sobre automóveis. Contudo, fica-me a sensação de que não sou lido quando o assunto que escolho não pertence à área das técnicas fotográficas e do equipamento. E esta é uma sensação amarga, porque o meu ser, posto que insignificante, não se reduz a um fanatismo por material fotográfico (o qual é importante, mas só se nos ajudar a fotografar melhor), nem os meus interesses se reduzem à fotografia porque há muito mais na vida do que isto.

Daqui resulta que, quando escrevo sobre assuntos que se desviam dos temas do equipamento e das técnicas fotográficas, fico com a sensação estranha de estar a falar para uma sala vazia ou uma praça deserta. Curiosamente, mesmo os textos sob o tema da fotografia em que não abordo assuntos técnicos são profundamente impopulares. Acreditem ou não, todo o entusiasmo que senti por finalmente ter encontrado um motivo fotográfico que ambicionei durante anos, e que resultou em boas fotografias (já não tenho tempo para falsas modéstias), desvaneceu quase por completo quando percebi que o acontecimento não teve a menor importância para os leitores do Número f/. Este não é mais um blogue especializado em fotografia: é um conjunto de textos em que procuro exprimir o meu ponto de vista pessoal sobre a fotografia no seu conjunto (e não apenas sob uma perspectiva meramente técnica). É, deste modo, um blogue pessoal e, se quisermos, de opinião. Os assuntos técnicos e o equipamento têm cabimento, evidentemente, mas a sua importância, dentro desse fenómeno vastíssimo que é a fotografia, é bastante limitada. Tem a mesma importância que os pincéis, as telas e os óleos têm para um pintor, ou a pedra, o martelo e o cinzel para um escultor. O que é importante, numa fotografia, é o seu interesse e significado.

Tudo isto deixa-me desgostoso. Sendo o meu interesse por algumas temáticas da fotografia relativamente recente, alimentei a ilusão que as pessoas que se interessavam por ela eram gente instruída e capaz de compreender a fotografia no seu todo. Ainda consigo, depois de alguns anos, sentir-me chocado por perceber que estava enganado. A Internet encarregou-se de me mostrar que há quem encare a fotografia da mesma maneira que um adepto de futebol, dedicando o seu fervor a marcas de equipamento fotográfico e sentindo-se no direito de insultar os adeptos de marcas diferentes. Ainda mais confrangedor, porém, é compreender que há pessoas para quem o interesse fotográfico não está nas fotografias que fazem, mas no modo como as fazem: mencionar os que fotografam o seu gato com diferentes valores ISO e profundidades de campo já se tornou cliché, mas a verdade é que há gente assim. (O Número f/ não é para estas pessoas.)

Não posso, evidentemente, obrigar ninguém a ler os meus textos. De resto, sei e assumo que este blogue não é um fenómeno de popularidade. O meu objectivo nunca foi ter milhares de leitores: foi exprimir as minhas opiniões sobre fotografia e, ocasionalmente, outros temas. Por que insisto, então, em publicar textos fora do tema? Por ser minha convicção profunda que um bom fotógrafo não pode interessar-se apenas por fotografia: as fotografias nunca podem resultar do mero interesse autofágico por fotografia, porque são uma projecção da personalidade de quem as faz. Quanto mais rica for a vida do fotógrafo, melhores e mais interessantes serão as suas fotografias. Uma pessoa rude e ignorante faz fotografias rudes e ignorantes; uma pessoa original, de bom gosto e ilustrada faz fotografias originais, de bom gosto e ilustradas. Não me lembro de quem disse que, quando saímos para fotografar, levamos connosco os nossos gostos: os nossos livros, a nossa música, o nosso sentido estético – mas isto é verdade. Tudo aquilo sobre o qual edificámos a nossa personalidade fica, mesmo que inconscientemente, incorporado nas fotografias que fazemos. Daqui resulta que os textos fora do tema tenham toda a pertinência num blogue sobre fotografia. Felizmente, alguns leitores entendem isto; outros, não. É para os primeiros que escrevo. Os outros terão sempre o Digital Photography Review e os seus fóruns sobre abertura equivalente e o bokeh.

M. V. M.

Anúncios

1 thought on “Fora do tema”

  1. Permita-me contrariar este ton cinzento com que escreveu este artigo, pelo menos fiquei com essa sensação.
    Como sabe, já o acompanho desde os tempos do ISO 100 e se por um lado tenho de dar a mão à palmatória – fraca participação com comentários – por outro lado, considero este blog e o ISO 100 de visita mais que obrigatória. Não é diária, pois as horas do dia não esticam, mas a leitura de todos os artigos é obrigatória e é feita com prazer.
    Tudo isto para dizer que tem sempre aqui um leitor interessado no que escreve, quer seja sobre fotografia, quer sobre outros temas não fotográficos (temos em comum algo mais que a fotografia, a justiça é outro ponto em comum).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s