Et voilà!

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Eu não consigo fazer as contas aos quilómetros que palmilhei à procura de um Citroën DS desde que se me meteu na cabeça que fotografar um destes carros era uma das minhas maiores ambições fotográficas. Passei manhãs e tardes inteiras dos meus fins-de-semana a caminhar pelas ruas e avenidas onde seria possível encontrar automóveis clássicos, e encontrei automóveis belíssimos, que fotografei com prazer – mas, do DS, nem um sinal. Por vezes dei por mim a pensar se o que estava a fazer não seria uma loucura, ou pelo menos uma enorme insensatez.

Pois bem – hoje, 15 de Dezembro de 2013, encontrei um Citroën DS… a cerca de um quilómetro de casa! Há ironias completamente desconcertantes. É como quando passamos horas à procura de algo que perdêramos e, afinal, estava mesmo debaixo do nariz.

E por que desenvolvi eu esta extraordinária obsessão pelo Citroën DS? Por uma razão meridianamente simples – eu adoro este automóvel. Quando eu era criança, os automóveis eram, no geral, feios e desinteressantes. Só os desportivos eram bonitos. Os automóveis familiares eram todos iguais, com as suas carroçarias de três volumes e linhas quadradas. O DS, esse, parecia, mesmo mais de uma dezena de anos após o seu lançamento, um OVNI, um objecto estranho e diferente de tudo o resto – mas, ao mesmo tempo, era um automóvel intrigante e sedutor. Como me interessei por automóveis desde muito cedo, descobri rapidamente que o boca-de-sapo era também um automóvel cujo conteúdo tecnológico reduzia todos os outros automóveis do seu tempo à condição de carroças motorizadas. Em 1955, este automóvel tinha uma caixa de velocidades semi-automática, travagem assistida com travões de disco à frente, direcção assistida, suspensão hidropneumática auto-nivelante e tracção dianteira, esta última com uma implementação bem mais interessante do que a do motor transversal que hoje todos os automóveis de tracção à frente – à excepção de alguns Audi – utilizam. Além de outras inovações, como os vidros laterais sem moldura e os faróis direccionais.

OK: chega de tecnologia automóvel. Quem quiser documentrar-se sobre o Citroën DS pode ver este documentário. Quando vi o DS, não tinha nenhum equipamento comigo. Apesar da minha devoção à fotografia, eu não sou um daqueles tarados que levam o equipamento para onde quer que vão nem sou dos que imaginam que o telemóvel é uma boa alternativa a uma câmara decente. Já havia fotografado de manhã e não fazia planos para fotografar antes do próximo fim-de-semana. Francamente, há mais na vida para além da fotografia. Quando vi o DS, porém, voltei a casa para apanhar o equipamento. Peguei na OM-2, na 50mm, na E-P1 e na 28mm. Voltei ao lugar onde vira o DS e, como os deuses da fotografia haviam decidido presentear-me com uma bênção, o carro ainda lá estava. O lugar não era lá muito bom: estava estacionado na diagonal, em cima de um passeio – ou, mais exactamente, daquilo a que o novo Código da Estrada chama «zona de coexistência» –, com a frente a escassa distância de um portão de garagem cuja cor branca contrastava com a carroçaria negra do automóvel. Tinha aqui alguns desafios interessantes, sem dúvida, mas este é o tipo de contraste que o Ilford FP4 favorece.

A sessão fotográfica começou com a OM e fotografias à la M. V. M., com planos aproximados de partes do automóvel, mas os 50 mm de distância focal não eram suficientes para capturar convenientemente alguns aspectos do carro. Isto, em conjunto com a distância escassa entre a frente e o tal portão de garagem branco, fez com que tivesse de recorrer à 28mm para ter um ângulo de visão mais largo sobre a frente. Depois de cerca de uma dezena de fotografias com a OM, passei à E-P1, com a 28mm a fazer as vezes de uma lente standard de 56mm. Foi o anticlímax habitual de fotografar através de um ecrã, ainda por cima debaixo de um sol quase primaveril, com grandes dificuldades em focar por os reflexos serem de tal ordem que mal conseguia ver a imagem no ecrã, mas felizmente correu tudo bem.

No final da sessão, não me deu para euforias: não senti que tinha acabado de cumprir uma velha ambição, não me senti eufórico nem orgulhoso. Senti-me satisfeito, sem dúvida, e as fotografias feitas com a E-P1 ficaram mais que razoáveis (as da OM, essas, só poderei dizer alguma coisa sobre elas depois de o rolo ser revelado e de ver as digitalizações), mas não foi nenhuma sensação especial. Talvez fotografar o DS não fosse, afinal, tão importante. Ou talvez me tenha acontecido o que acontece a quem espera longamente por algo: quando chega o momento, está-se pronto para ele. Ou, se calhar, as minhas prioridades fotográficas já não estão concentradas nos automóveis. Como referi mais acima, a fotografia é importante na minha vida, mas não é uma obsessão. Há vida para além da fotografia. (Claro que as pessoas que olimpicamente desprezaram os meus textos sobre a música alemã dos anos 70 não são da mesma opinião…)

M. V. M.

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