Mais papéis (e uma nota de contrição)

Ampliador_LabFoto_H8No texto de ontem esqueci-me de mencionar uma ou duas diferenças importantes entre as fotografias a preto-e-branco cujas impressões tenho vindo a encomendar e as feitas com papéis especiais para preto-e-branco. As primeiras, salvo algumas excepções, são feitas a partir das digitalizações; as últimas têm de ser feitas a partir dos negativos, porque são feitas por intermédio de um ampliador. Imprimir em papel comum a partir de negativos ou de imagens digitais não faz muita diferença; o recurso ao negativo não constitui uma melhoria visível. O papel é que é determinante para a qualidade. O papel usado nas ampliações é sensível à luz, como veremos adiante, não sendo possível imprimir sobre ele numa impressora de jacto de tinta. Por outro lado, não é possível fazer ampliações a partir de um ficheiro digital. As impressões em papel especial para preto-e-branco são, assim, feitas a partir do negativo. Sempre.

Para obter o tamanho desejado, o negativo é exposto através de um ampliador. Esta máquina pode ser descrita, no essencial do seu funcionamento, como uma câmara fotográfica ao contrário. O ampliador projecta o negativo sobre o papel fotográfico, que é composto por quatro camadas: suporte, substrato, emulsão e camada protectora. A luz projectada vai excitar a emulsão do mesmo modo que a luz ambiente excita os haletos de prata do negativo montado na câmara. Esta é uma tecnologia fascinante que a ditadura do digital ainda não conseguiu matar.

Escusado será dizer que a qualidade do ampliador é absolutamente crucial para obter boas impressões. Afinal de contas, a imagem que vai ser ampliada e impressa (a do negativo) é minúscula, pelo que qualquer imperfeição ou defeito, seja no negativo ou nos componentes do ampliador, vai repercutir-se na impressão. (É por este motivo que os rolos de velocidade elevada não são aconselháveis para grandes ampliações: o grão pode tornar-se intolerável.) É evidente que estas ampliações requerem condições de higiene laboratoriais e um cuidado extremo no manuseamento dos equipamentos e materiais.

* * *

Já que me referi ao grão: para além da fotografia da Rua das Flores, eu encomendei uma outra que havia feito com o Kodak Tri-X. Eu sempre defendi aqui – e não vejo razões para deixar de o fazer – que a prova última da qualidade da imagem é a impressão; se esta for feita no ampliador, com toda a qualidade que é possível obter quando se usam rolos de preto-e-branco puro, com papel próprio para preto-e-branco e um bom ampliador, pode concluir-se que a ampliação é o melhor teste para a qualidade de imagem (pelo menos para fotografia a preto-e-branco). Nesta perspectiva, a comparação entre o Ilford HP5 e o Kodak Tri-X torna-se ainda mais fascinante.

Estava enganado quando dei tanta importância ao grão do Ilford nos textos em que o comparei a outros rolos, porque este é o único aspecto em que o Tri-X (que, diga-se, também tem bastante grão) se mostra melhor do que o HP5: em tudo o resto o Ilford é melhor. Que digo?: é esmagadoramente melhor. O Ilford HP5 tem mais contraste, maior nitidez e melhor discriminação dos meios-tons. O que faz toda a diferença quando se pretende dar mais expressão à fotografia. O Kodak foi certamente pensado para aplicações profissionais, nas quais a limpidez do grão é importante, mas agora, quando os profissionais trabalham exclusivamente com fotografia digital e o rolo está reservado aos entusiastas, este aspecto perdeu relavância. O que se requer hoje de um rolo é que auxilie a conferir expressão às fotografias. O Tri-X é demasiado matter of fact, demasiado textual. Mesmo em ampliações, nas quais a maior subtileza do grão poderia conferir vantagem ao Tri-X, o Ilford é melhor. Por qualquer motivo que me escapa por completo, o grão do HP5 não prejudica a fotografia impressa.

Deste modo, retiro o que escrevi antes. O grão do Ilford HP5 não é tão incómodo como eu pensava. Mesmo que o fosse, os demais aspectos são tão bons que se sobrepõem ao grão, tornando a importância deste absolutamente secundária. Não obstante estas questões terem muito de subjectivo, sendo em grande parte o gosto pessoal a determinar a preferência de cada um, a minha recomendação quanto a rolos para preto-e-branco de velocidade ASA 400 vai agora para o Ilford HP5 Plus 400.

M. V. M.

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