Escritos políticos, n.º 1

Afghanistan, por james Nachtwey
Afghanistan, por James Nachtwey

Se repararmos bem, os artistas são pessoas com convicções sociais e políticas bem definidas. Se olharmos para a biografia de fotógrafos como Eduardo Gageiro ou Alfredo Cunha, no caso nacional, veremos isto mesmo. Se, porém, estendermos esta observação a outros fotógrafos internacionais, poderemos verificar que quase todos eles usam a fotografia como manifesto político e social. Isto é particularmente notório entre os grandes fotojornalistas, de Robert Capa e Steve McCurry a Kevin Carter e James Nachtwey até Paolo Pellegrin e Paul Hansen, mas também com fotógrafos como Robert Frank, Adriana Lestido, Lewis Hine e muitos outros. Em todos eles há uma denúncia dos desequilíbrios da sociedade que os filia no lado esquerdo (em breve veremos que apenas uso a dicotomia esquerda/direita para simplificar ideias) das opções políticas.

Se alargarmos esta especulação a outras artes, o resultado é o mesmo. Com excepção de alguns – Mario Vargas Llosa é o primeiro nome que vem à mente –, os grandes autores são intervenientes cujas convicções se situam naquilo a que podemos chamar a «esquerda». Há casos, como o português, em que as artes parecem mesmo ser um monopólio da esquerda, o que pode não significar nada: já me referi aqui por várias vezes ao monopólio perverso das artes que existe em Portugal, onde a esquerda, através da Sociedade Portuguesa de Autores e do enraizamento dos comunistas no estado que se operou após o 25 de Abril de 1974, fez com que as artes funcionem em circuito fechado, num círculo onde só entram os amigos e simpatizantes. Fora esta anomalia, porém, a verdade é que a intelectualidade e a arte convivem melhor com a esquerda.

Por que será que isto acontece? Não é verdade que só a esquerda seja capaz de emanar criatividade, sensibilidade e intenção artística. Ao longo dos séculos, verificamos que as artes subsistiram e prosperaram, em grande parte, graças a patronos – a reis, nobres, príncipes e burgueses que não podem, de forma alguma, ser identificados com a esquerda (mesmo que esta seja entendida numa acepção muito ampla). Dos Medici e da Baronesa Pannonica de Koenigswarter, passando pelo príncipe Ludwig da Baviera, até às fundações que hoje mais apoiam as artes (instituídas também elas por milionários que decerto não teriam ideias muito socialistas de justiça distributiva, como Calouste Gulbenkian, António Cupertino de Miranda ou Ricardo Espírito Santo). De certa maneira, até se pode arguir que muitos artistas, ao perfilharem as suas opções ideológicas, cospem no prato que lhes é servido por estes aristocratas. Fora deste mecenato, na criação artística propriamente dita, seria uma mentira rotunda – e uma injustiça – dizer que só os artistas de esquerda têm mérito. Já aludi a Mario Vargas Llosa, mas há também Vasco Graça Moura e o grande Gérard Castello Lopes (entre muitos outros), que em nada se identificam com a esquerda. O problema é que, se vos pedirem para identificar artistas que assumam uma ideologia de direita, vão certamente demorar muito mais a responder do que se vos perguntarem por artistas da esquerda.

A explicação para isto é algo que se torna simples – e ao mesmo tempo difícil, porque as respostas encontradas serão sempre do domínio da subjectividade – se pensarmos que, na génese do pensamento dito de esquerda, está a vontade de mudança e transformação sociais. Filosoficamente, a ideologia a que nos referimos como de esquerda nasce da ideia de devir de Hegel, ao passo que a direita tem as suas raízes em Immanuel Kant. À esquerda corresponde a evolução, à direita a permanência, apenas atenuada por uma ideia de progresso que não é mais que a emanação do princípio, formulado por Keynes, segundo a qual o capitalismo só mantém a sua força expandindo-se. O homem de esquerda tende para o inconformismo e a contestação, o de direita à preservação do statu quo; o de esquerda tende para o universalismo, o de direita para o individualismo. Tipicamente, se perguntarem a um homem de esquerda e a outro de direita o que desejam para o futuro, o primeiro responderá: «um mundo melhor para a humanidade»; o de direita responderá: «um mundo melhor para mim e para os meus filhos». Ambos desejam um mundo melhor, mas divergem no modo de o tornar melhor. O de direita confia nas instituições, o de esquerda acredita que o mundo só se tornará melhor pela luta e pela revolução. Naturalmente, o homem de direita aceita o mundo tal como ele é, ao passo que o de esquerda tende a não se conformar. Os conservadores são, por definição, refractários à mudança. (Continua)

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s