A palavra do ano (2)

Imagem cortesia do Google
Imagem cortesia do Google

Com esta psicose das selfies, como fica a fotografia? Digamos que muito mal. Completamente banalizada, aviltada e caricaturada. Esta generalização das selfies tem um efeito devastador sobre a fotografia. Com a geração selfie, a fotografia torna-se meramente instrumental. Qualquer pretensão artística a que se aspire através da fotografia forna-se ridícula, porque a fotografia dos nossos dias tem por fim tirar selfies e pouco mais.

Note-se, a propósito, que as selfies não se confundem com os auto-retratos. Estes foram largamente usados por muitos fotógrafos com fins criativos e são frequentemente usados pelo público em geral para recordação de momentos e lugares com um significado nas suas vidas. As selfies não são nada disto. São, quando muito, auto-retratos grotescos ou caricaturas de auto-retratos. São fotografias que não têm outro propósito que não seja o de a pessoa em questão se mostrar – ou, em muitos casos, fazer prova do seu exibicionismo.

Eu não quero, com o que escrevi neste texto e no anterior, dizer que a fotografia enquanto arte criativa está ameaçada. A fotografia sempre se dividiu em dois ramos: a fotografia documental e a fotografia expressiva. A primeira tem por intenção a mera descrição visual de um motivo; a outra mostra um ponto de vista pessoal sobre o mesmo motivo. A primeira basta-se com um fim ilustrativo, enquanto a segunda consiste na expressão de uma forma individual de ver as coisas. A fotografia expressiva tornou-se desde muito cedo marginal em relação à documental, pelo menos se olharmos apenas à quantidade. A proliferação de telemóveis equipados de câmaras tem por efeito desequilibrar ainda mais a proporção quantitativa entre estas duas espécies da fotografia. As selfies inserem-se nesta tendência, fazendo com que os números de fotografias diariamente publicadas atinja o estatuto de intoxicação colectiva. O que, além de estreitar o espaço deixado à fotografia criativa, tem por efeito abastardar ainda mais a fotografia em geral. Chega a tornar-se lícito perguntar se vale a pena fotografar com um mínimo de seriedade quando a fotografia se está a tornar numa chafurdeira.

Uma palavra sobre a técnica. Esta é completamente irrelevante. Faz tanto sentido referir as qualidades estéticas de uma selfie como aludir ao design de uma sanita. A sua qualidade – ou falta dela – é apenas esfregar sal na ferida: fotografias desfocadas, tremidas e cheias de ruído não preenchem os ideais estéticos de ninguém – mas também não é esse o interesse de quem se fotografa, evidentemente. Nem é, suponho, motivo de preocupação para quem vê selfies. Quando muito, a qualidade patética das imagens serve para ilustrar aquilo que alguns insistem em negar: a completa falta de aptidão dos telemóveis para fazer boas fotografias – especialmente quando estas são feitas, como o são a maioria das selfies, em interiores com iluminação escassa. Mas, repito, nada disto é importante quando o tema é as selfies. A dimensão social do fenómeno torna qualquer discussão sobre a qualidade absolutamente secundária.

Então há alguma coisa de bom a dizer sobre as selfies? Depende. Se eu fosse accionista da Apple, Samsung ou Nokia, andaria muito contente com esta epidemia. Como sou apenas um pretendente a fazer boas fotografias e um observador da realidade a quem o cinismo bate à porta com frequência, só tenho a deplorar que uma coisa tão ridícula e decadente esteja a assumir as proporções que atinge nas redes sociais. Felizmente, na rede social em que estou inscrito não há assim tanta gente a publicar selfies, mas experimentem inserir a palavra no Google e ver as imagens que são localizadas para terem uma pequena ideia de quão alarmante é este epifenómeno. (Se o fizerem, não digam que não vos avisei…)

M. V. M.

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