A palavra do ano (1)

hp_miley_narrow-20130710195815104382-300x0O importante Oxford English Dictionary elegeu a palavra do ano de 2013. Esta palavra é selfie, a qual deriva de um termo tornado obsoleto há alguns meses, selfpic, que por seu turno é a contracção de self picture. As selfies são fotografias feitas por alguém de si mesmo com um telemóvel ou – no caso de pessoas que vivem no passado – por uma câmara compacta. Podem ser o reflexo da pessoa num espelho ou não, sendo que este último caso implica a ciência de adivinhar o enquadramento, o que pode não ser fácil (mas, se correr mal, tira-se outra, ou quantas forem necessárias até se acertar).

O que se segue, a partir daqui, poderá eventualmente ser usado pelos meus inimigos como prova de que me tornei num cota amargo, resmungão, intolerante e completamente desfasado dos tempos actuais, mas aqui vai: as selfies são muito mais que o abastardamento total da fotografia; são também uma prova da erosão dos valores sociais. Terminei o texto de ontem com a sugestão de que hoje em dia a fotografia pode ter perdido qualquer interesse intelectual; pois bem, as selfies contribuem para que seja assim. Com elas, a fotografia transpôs a fronteira entre o banal e o abominável. São, decerto, merecedoras de uma reflexão sociológica, mas apenas assinalam um epifenómeno que só impressiona pelo vazio assustador que revela. As selfies são usadas, maioritariamente, por adolescentes que querem mostrar o seu corpo nas redes sociais; são, deste modo, uma manifestação de vaidade, frivolidade e, do lado de quem vê, de um voyeurismo que se tornou socialmente aceite. Hoje vive-se uma obsessão pelo corpo, por uma ideia de beleza que se torna de difícil compreensão: os jovens contemporâneos depilam-se e tatuam-se livremente, sendo que os rapazes se aproximam da androginia nos seus cuidados estéticos e cosméticos. A geração Facebook despreza qualquer noção de privacidade e intimidade, de tanto ter assimilado o conceito de partilha que vem à mente quando o tema são as redes sociais, pelo que estas selfies – muitas delas carregadas de um erotismo primário e algumas com nudez frontal – circulam aos milhões diariamente na Internet.

Com tudo isto, como pode a fotografia ser levada a sério? Não me refiro ao aspecto técnico, porque a epidemia sociológica de que estas selfies são uma manifestação é tão avassaladora, pelas dimensões que o fenómeno assumiu, que factos como o de estas fotografias não terem um mínimo de qualidade se tornam completamente irrelevantes. Muito mais sério do que falta de nitidez e o ruído é estas selfies poderem denunciar uma decadência completa dos valores necessários à construção de uma sociedade baseada na dignidade da pessoa humana. Do lado de quem publica estas fotografias há a vaidade, a frivolidade e a perda, ainda que inconsciente, da autoestima: somos de todos, o nosso corpo é público; somos, deste modo, partilháveis. Queremos que todos nos apreciem e aprovem, não pelo que somos, mas pela nossa aparência. Do lado de quem vê há um voyeurismo que, sinceramente, me repugna: despender horas a fantasiar os corpos que se vêem nas selfies está a tornar-se num padrão comportamental que pode (a menos que entretanto surja algo ainda mais abjecto) tornar-se numa regra.

As selfies, de tão divulgadas, fazem com que as gerações mais velhas (e convém não esquecer que, para um adolescente, um velho é qualquer pessoa que tenha ultrapassado os trinta e cinco anos de idade) estejam a aderir a este fenómeno, contribuindo para a sua universalização. Estamos, deste modo, diante daquilo a que podemos chamar uma chafurdice universal. Eu não sou favorável a um regresso a uma moral conservadora feita de bons costumes; prezo a liberdade e sempre vi com bons olhos o derrube das barreiras da moral impostas pelos mecanismos castradores ao serviço dos poderes que prevaleceram até meados do Século XX, mas há excessos. E os excessos são perigosos. Um dos perigos que vejo na generalização deste comportamento é a perda de valores que são fundamentais a um desenvolvimento são da personalidade: a privacidade, a reserva da intimidade e a autoestima são essenciais à construção de seres humanos livres e autodeterminados. Esta regra da partilha pode conduzir ao desenvolvimento de uma geração promíscua, egoísta, fútil, hedonista, irresponsável, superficial e incultivada, com tendência para comportamentos obsessivos (passar o dia no Facebook é obsessivo!) e, acima de tudo, intelectualmente maleável, desprovida de vontade própria e facilmente manipulável. Isto convém a alguém: convém aos que querem que a humanidade se transforme num imenso rebanho de criaturas anestesiadas para se tornarem obedientes e sem qualquer consciência de si mesmas, de maneira a que docilmente se deixem dominar sem sequer se aperceberem do que lhes está a acontecer. As selfies são apenas uma manifestação destes perigos – mas uma manifestação que é uma metáfora poderosa da sociedade actual.

M. V. M.

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2 thoughts on “A palavra do ano (1)”

  1. Caro amigo Manuel Macedo, estou inteiramente de acordo consigo. O Senhor tem toda a razão e a provar-lo, está o facto de que aqui, neste maioritariamente inculto Portugal, segundo as noticias de hoje, a pior estação televisiva (do meu ponto de vista) é quem lidera o nível de maior audiências.

    M.M.M.

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