Impressões e o Ilford FP4

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Ontem escrevi um texto em que afirmava que o Número f/ estava a pender demasiado para os aspectos técnicos da fotografia e que devia corrigir esta tendência; hoje vou escrever um pouco mais sobre técnica. Isto pode ter muitos nomes, mas «coerência» não é nenhum deles. Se o faço, porém, é por uma boa razão: ontem pude apreciar mais algumas impressões, neste caso feitas a partir de fotografias em que usei o Ilford FP4. As impressões servem-me, acima de tudo, para confirmar a ideia com que fico sobre as fotografias depois de ver as digitalizações de um dado rolo. A fotografia convencional precisa da impressão porque foi concebida a pensar nela, pelo que nenhuma apreciação sobre um rolo e as fotografias feitas a partir dele está completa antes de ver como ficam quando passadas para o papel. Podemos discutir se a fotografia digital precisa de impressões, mas a convencional depende delas. Esta é, porventura, uma expressão demasiado drástica, mas olhando para a história veremos que as fotografias feitas com rolos tinham como destino serem impressas.

Ao ver as impressões, posso concluir que aprendi bem os truques deste rolo. Como sabem – pelo menos se leram o que escrevi antes sobre estes negativos – o FP4 é um rolo cuja característica principal é o elevado contraste que proporciona. Isto implica ter de se tomar cuidados especiais quando se fotografa, em particular quando a cena a fotografar compreende áreas de luz intensa e outras de sombras profundas. Em situações fotográficas como estas é muito fácil que a fotografia corra mal quando se usa um rolo com as características deste FP4. Se optarmos pela exposição determinada pelo fotómetro, o mais provável é que as zonas mais luminosas fiquem estouradas e as de sombra severamente subexpostas, resultando em chiaroscuri involuntários. Isto é verdadeiro com qualquer rolo e com qualquer câmara, seja ela de rolo ou digital, mas com o Ilford FP4 a probabilidade de a fotografia acabar com erros de exposição é maior, atentas as características de alto contraste deste rolo.

Isto significa que o Ilford FP4 Plus 125 requer tempo, paciência e – por que não dizê-lo – mestria. Quem fotografar com este rolo sem estar prevenido das suas características pode não gostar dos resultados. Como já o tinha experimentado antes, sabia de antemão o que fazer para tirar partido das suas características. Ver as digitalizações confirmou que compreendi o que este rolo exige do utilizador, mas faltava o teste das impressões. Agora que vi os resultados, posso afirmar, sem margem para dúvidas, que o Ilford FP4 é o melhor rolo para preto-e-branco. Decerto serão possíveis resultados muito bons com os rolos de grão tabular da Ilford – os da linha Delta –, mas o FP4 tem um carácter muito especial que só o grão cúbico transmite às fotografias. Já me referi a isto aqui.

Observando as impressões, pode perceber-se por que teima a fotografia convencional em sobreviver: as sombras são isentas dos artefactos que arruínam a fotografia digital; os pormenores obscurecidos pelas sombras surgem com contornos bem definidos, ao passo que, numa fotografia digital, o ruído destruiria a qualidade da imagem. Uma vez domada a tendência para estourar as altas luzes que é característica deste rolo, percebe-se por que razão a fotografia digital ainda não conseguiu estabelecer-se como a referência em qualidade da imagem. Uma das impressões é a de uma porta vidrada, voltada para o exterior, numa sala escura – o pesadelo de qualquer fotómetro. Pois bem, as altas luzes surgem bem discriminadas, em caso algum ocultando os motivos existentes no exterior; no interior, as sombras deixam ver os pormenores com uma nitidez inconcebível para quem apenas fotografa com câmaras digitais. Se fosse a fazer esta fotografia com a E-P1, teria de ter sacrificado as sombras ou as altas luzes; com o FP4 pude fazer uma fotografia em que tudo surge perfeitamente exposto – e sem ruído.

Não posso dizer, de modo nenhum, que o Ilford FP4 é um rolo fácil de usar. Este rolo requer muito cuidado a expor e um uso intensivo da compensação da exposição. Contudo, depois se de aprender a usá-lo, os resultados são profundamente satisfatórios. Tanto que levantam a dúvida se vale a pena usar qualquer outro rolo para preto-e-branco. Mesmo que esse outro rolo seja o Kodak Tri-X.

M. V. M.

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2 thoughts on “Impressões e o Ilford FP4”

  1. Uma curiosidade. Estou começando, finalmente, a queimar meu primeiro (nesta retomada da fotografia analógica) rolo de Kodak Tri-X. Onde eu comprei o filme – numa antiga casa de materiais fotográficos de São Paulo – eles também fazem a revelação. Mas quanto à ampliação, fui avisado de dois poréns. Em primeiro lugar, o papel da ampliação não é P&B, mas sim um papel comum. Em segundo lugar, a ampliação não é mais feita por meio do projetor, mas sim numa impressora à laser. Segundo o dono do estabelecimento hoje praticamente não se encontra mais papel fotográfico P&B e nem ampliação por projeção, pelo menos em São Paulo. Aí no Porto, também é assim que funciona?

    1. Boas.
      Na loja onde revelam os meus rolos as impressões comuns são assim mesmo como lhe indicaram: feitas em papel normal a partir de digitalizações. Ainda fazem impressões com o ampliador e papel especial para preto-e-branco, mas são inacreditavelmente caras (dependendo embora da qualidade do papel).
      Duvido que a indicação que lhe deram quanto à disponibilidade de papel esteja correcta, porque a Ilford ainda o produz em quantidades industriais e lançou na semana passada mais três produtos. O mais provável é que exista muito pouca procura para este tipo de impressões, levando a que os laboratórios vão abandonando progressivamente as técnicas convencionais e que sejam cada vez mais raros os que as sabem fazer.
      As impressóes comuns não são lá muito boas: o preto-e-branco não é puro – surge sempre com alguma matiz – e, em muitas fotografias, é possível ver aberrações cromáticas que não surgem no negativo nem nas digitalizações. Tive oportunidade de ver fotografias impressas em papel próprio para preto-e-branco, aumentadas em ampliador, e posso dizer que a diferença para as impressões comuns é como da noite para o dia. Claro que têm um preço mais elevado, mas penso que é inevitável. De resto, só se justifica usar impressões destas para as fotografias MUITO boas, que são apenas uma por cada dez (ou mais) rolos.
      Continue a procurar: de certeza que em São Paulo há alguém que tenha gosto por cultivar a fotografia convencional, tal como a Câmaras & Companhia aqui no Porto.

      M. V. M.

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