A minha melhor fotografia

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Aqui está um assunto bom para escrever quando não me consigo lembrar de nada mais oportuno! Na verdade, não sou o melhor apreciador das minhas próprias fotografias. Sei distinguir uma fotografia boa de uma má e, felizmente, já sei dizer o que correu mal numa determinada fotografia – o que, com um pouco de sorte, posso converter num ensinamento que me ajudará a evitar erros no futuro. Nada disto significa, contudo, que seja capaz de eleger uma fotografia em particular como a minha melhor. Talvez por nunca ter feito uma fotografia tão boa que sobressaísse em relação às demais, o que pode significar que ainda não consegui ultrapassar um nível mediano. Seja como for, penso que, em último caso, a decisão deve pertencer a quem vê as minhas fotografias e não a mim. Eu posso ser demasiado influenciado por factores como a técnica na minha apreciação.

Há, contudo, uma fotografia de que me sinto particularmente orgulhoso, apesar de as suas falhas serem evidentes. É a que está no topo deste texto. A criança que figura na fotografia é a minha sobrinha, que já se chamava Maria Luís antes de os pais saberem que existia uma criatura com o mesmo nome pronta a aceder ao cargo de ministra do dinheiro. (Eu participei em algumas conversas em que se debateu o nome da criança e fui entusiástico no apoio à escolha do nome que acabou por prevalecer.) Fiz esta fotografia num fim de tarde de Outubro, com luz já escassa e a câmara regulada para 160 ASA quando acabara de instalar um rolo Kodak Tri-X, de velocidade ASA 400.

Não guardaria rancor se alguém me dissesse que a fotografia está desfocada; apenas corrigiria e diria que não está desfocada – o ecrã de focagem das Olympus OM é à prova de erros –, mas sim distorcida por arrastamento. Ou tremida, se preferirmos uma terminologia mais simples. O tempo de exposição, mesmo com um bom valor de abertura, foi demasiado longo para uma câmara que não tem estabilização da imagem. Fotografar com nitidez nestas condições só teria sido possível com recurso ao tripé. Deste modo, não posso gabar-me da perfeição técnica desta fotografia.

Mas posso gabar-me de outras coisas. A despeito das dificuldades técnicas, consegui aquilo que é o mais importante quando se retrata uma pessoa: capturar uma boa expressão. O olhar da Maria Luís e o seu sorriso não podiam estar melhores: são espontâneos. Surpreendi-a num dos raros momentos em que a rapariga estava mais ou menos quieta, sem deambular pela casa – o que, acreditem, é muito raro. De facto, a Maria Luís estava entretida a brincar com as tampas das minhas lentes, o que ajudou a congelar o movimento, mas este congelamento não foi completo – como se pode ver facilmente, em especial se atentarmos na mão esquerda.

Outro bom aspecto desta fotografia é a iluminação. Está perfeita. O rosto da miúda está homogeneamente iluminado, sem sombras que perturbem a harmonia da composição, e o fundo está suficientemente escurecido para destacar a Maria Luís. Seria difícil fazer muito melhor num estúdio. Felizmente a fonte de luz era uma janela ampla, pelo que a natureza encarregou-se de contribuir para o êxito da fotografia. A Maria Luís destaca-se perfeitamente do fundo, fazendo com que nada interfira com o retrato (e eu que sou péssimo a fazer retratos!).

É, portanto, uma fotografia com imperfeições técnicas evidentes. Um entendido notará imediatamente os defeitos da fotografia, tal como eu os notei. Contudo, os aspectos técnicos são, nesta fotografia, absolutamente secundários. Tenho pena que não haja mais nitidez? Um pouco, sim; mentiria se não dissesse que gostava que houvesse um pouco menos de distorção por arrastamento, mas o importante foi capturar aquele momento. A Maria Luís é uma criança cheia de vida e irrequieta, como todas as crianças deviam ser, pelo que não surgem muitas oportunidades como esta. E eu sinto que a aproveitei.

Há mais. A imagem que ilustra este texto fica muito longe da qualidade que se percebe quando se vê a fotografia impressa. A sensação de tridimensionalidade, dada pela iluminação, é exacerbada pela impressão. Tal como o contraste, que é ajudado pela qualidade e sensibilidade com que Raúl Sá Dantas imprime as minhas fotografias. Não sei se esta é a minha melhor fotografia – mas é certamente a que mais me satisfez. Pelo menos até agora.

M. V. M.

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