O que eu aprendi com a fotografia convencional até hoje (parte 2)

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4. É importante capturar o momento. Uma vez perdido, o momento perde-se para sempre. Não se dá o caso de a fotografia digital ser muito diferente neste aspecto, mas a consciência da limitação do número de fotogramas e a necessidade de desenvolver o domínio da técnica tornam mais premente a necessidade de capturar o momento decisivo. Com a fotografia digital esta urgência torna-se relativa, já que podemos repetir a fotografia no espaço de fracções de segundo (embora nunca mais seja a mesma que idealizáramos).

5. Os sensores pequenos são uma perda de tempo e de dinheiro. Mais à frente referir-me-ei aos aspectos em que a fotografia digital ainda não ultrapassou a convencional, mas para já devo dizer que concluí que, se os sensores full frame ainda não são capazes do mesmo desempenho que os rolos de 35mm quanto às altas luzes (e, de uma maneira geral, à gama dinâmica), pouco sentido faz haver sensores cuja área mais reduzida compromete ainda mais a qualidade da imagem. Mesmo se é certo que os sensores mais recentes que a Sony fabrica para os formatos APS-C e 4/3 são uma enorme evolução, ainda não chegam ao mesmo patamar que os full frame – e muito menos, como é evidente, ao do rolo de 35mm. Em digital é full frame ou nada.

6. A fotografia convencional não é rudimentar. Também aprendi que, ao contrário do que o senso comum pode imaginar, a fotografia convencional não é primitiva ou arcaica. Muitos comparam-na a outros domínios da tecnologia que hoje estão ultrapassados, como locomotivas a vapor ou barcos à vela, mas estas equiparações não passam de caricaturas. A maior parte dos desenvolvimentos que hoje conhecemos na fotografia foi inventada na era do filme. O RGB, no qual os sensores se baseiam para captar cores, foi inventado no tempo da fotografia convencional: os rolos de cor são compostos por uma camada de gelatina vermelha, uma verde e outra azul. Levou décadas até que a Sigma entendesse que esta era a melhor maneira de captar cores no domínio digital e concebesse o melhor sensor existente, o Foveon. A única inovação verdadeira que a fotografia digital trouxe foi o controlo do equilíbrio dos brancos. Como hoje, graças ao computador, se valoriza a tecnologia digital acima de tudo, torna-se fácil esquecer a incrível complexidade da química que a fotografia convencional envolve. Desde os processos usados nos rolos – que, por vezes, se aproximam da pura magia–, até à revelação, há uma ciência que nada tem de primitiva e que, de tão complexa, se torna incompreensível para o comum mortal.

7. A qualidade da imagem não nasceu com a era digital. Uma boa câmara de filme, equipada com uma boa lente e usando um rolo com a qualidade dos Ilford ou Kodak, é capaz de resultados absolutamente espectaculares. Uma fotografia feita com o melhor equipamento convencional é pelo menos tão boa como aquela que é feita com o melhor equipamento digital. A nitidez é um bom exemplo dessa qualidade: para obter o mesmo tipo de resultados que consigo com a OM-2, a 135mm-f/2.8 e um Ilford FP4 quando uso a E-P1, preciso de ajustar drasticamente o contraste (em particular o microcontraste) na edição de imagem e recorrer ao unsharp mask. As fotografias feitas com bom equipamento convencional podem mesmo ser melhores do que as captadas com equipamento digital em matéria de qualidade da imagem. Esta foi uma das minhas grandes surpresas quando comecei a fazer fotografias minimamente decentes com a OM, e a nitidez foi a característica que mais contribuiu para esta sensação.

8. A fotografia digital ainda tem muito para aprender com a convencional. A maneira como as boas câmaras convencionais lidam com as altas luzes ainda não foi superada pela fotografia digital. O mesmo quanto às cores, já que os fabricantes de equipamento digital preferem dar-nos a sua versão do que as cores devem ser do que aproximar-se da verosimilhança de que rolos como o Kodak Portra 160 são capazes. Mesmo em Raw: a Nikon gosta de cores dessaturadas, a Canon dá-lhes uma saturação que tem pouco de natural. Dir-se-ia que estão mais preocupados em agradar aos compradores do que em mostrar cores precisas.

9. A fotografia convencional tem fronteiras muito bem delimitadas. Por exemplo, não se pode fotografar a cores objectos debaixo de sombras. Isto tem quase o valor de uma proibição. Ao contrário do que acontece na fotografia digital, na qual os erros cromáticos podem ser corrigidos antes do disparo, regulando o equilíbrio dos brancos, ou depois, na edição, a fotografia convencional é um domínio onde “não” significa não. A fotografia digital é mais versátil e perdoa muitos erros, a convencional não.

10. A descoberta mais importante, porém, foi a de que é possível fotografar de maneira mais cuidadosa, mais pensada e ponderada e também – o que pode parecer paradoxal – mais divertida. O desafio de fotografar com rolos é muito maior, mas saber que é possível obter bons resultados, com uma qualidade tão grande ou maior do que ao fotografar digital, torna a experiência mais excitante. De tal maneira que voltar para a E-P1 pode ser um anticlímax.

M. V. M.

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