Um pouco de ciência

Exemplo de fotografia com rolo de grão tabular (Kodak T-Max 100)
Exemplo de fotografia com rolo de grão tabular (Kodak T-Max 100)

Ter uma mente não científica, como é o meu caso, tem vantagens: deste modo aceita-se mais facilmente que há coisas que não são quantificáveis ou mensuráveis ou que, de qualquer modo, não se podem exprimir através de fórmulas. Uma mente científica está preparada para encontrar explicações para tudo, atribuindo, por ex., a atracção sexual a fenómenos químicos produzidos pelo organismo. Claro que nem todas as mentes científicas são assim, tal como as mentes não científicas podem procurar explicações para os fenómenos pela razão. Não há compartimentos estanques, e uma pessoa que pertença exclusivamente a um desses campos é um ser obtuso e limitado. Porque é importante compreender que todos os fenómenos têm uma causa, mas também que a ciência tem limites.

O parágrafo que antecede serve, não só para tornar o texto mais longo, mas sobretudo para servir de prólogo ao que se segue. Ao comparar dois rolos que já usei, o Kodak T-Max 100 e o Ilford FP4, as diferenças são evidentes: o primeiro – ou melhor: as fotografias que ele produz – tem um aspecto mais límpido e suave, ao passo que o Ilford parece mais antiquado, mais grosseiro e menos sofisticado.

Estrutura (microscópica) do grão tabular
Estrutura (microscópica) do grão tabular

Ora, esta diferença na aparência das fotografias feitas a partir destes rolos tem uma explicação. O “T” de “T-Max” não faz parte da designação do modelo por acaso: é a inicial de tabular. Este adjectivo caracteriza o tipo de grão usado nestes rolos (bem como nos Fuji Neopan e nos Ilford Delta), que é o grão tabular, um desenvolvimento relativamente recente da tecnologia dos rolos de preto-e-branco. O outro tipo de grão, empregue nos Ilford FP4 e HP5, bem como no Kodak Tri-X, é o grão cúbico. O que distingue estes tipos de grão é a sua estrutura. Cada grão – seja ele cúbico ou tabular – é uma partícula metálica de prata, formada durante o processo de revelação a partir dos haletos que entram na composição do negativo, mas o impacto de cada um destes tipos de grão na imagem final é substancialmente distinto, produzindo as diferenças visuais a que aludi no parágrafo anterior. Ao contrário do cúbico, o grão tabular é plano, o que explica a maior suavidade aparente nas imagens.

Não faz muito o meu género fornecer explicações através de fórmulas químicas e de equações. O que me importa é a maneira como cada uma destas tecnologias se repercute nas fotografias, e neste aspecto os dois tipos de grão conferem aspectos muito diferentes às imagens. O Kodak dá uma aparência mais moderna e polida às fotografias, mas estas são também menos entusiasmantes que as produzidas a partir do FP4. Para aplicações profissionais e grandes ampliações, é provável que o T-Max seja melhor – mas quem é que usa rolos profissionalmente, e quem faz grandes ampliações a partir de negativos nos dias que correm? Rolos old school como o Ilford FP4 encontraram uma segunda vida com o advento da fotografia digital, por paradoxal que isto pareça. É que, não sendo os rolos usados profissionalmente, o seu papel concentra-se na expressão fotográfica. Neste aspecto os rolos mais antiquados vencem os modernos.

Exemplo de fotografia com rolo de grão cúbico (Ilford FP4 Plus 125)
Exemplo de fotografia com rolo de grão cúbico (Ilford FP4 Plus 125)

Não é de admirar, diante do que expus no parágrafo anterior, que o primeiro rolo para preto-e-branco que rejeitei de entre os que experimentei até agora tenha sido o T-Max. Também não é de espantar que o Tri-X e os Ilford me tenham impressionado. As fotografias que fiz com o T-Max são, de longe, as mais límpidas, o que tem uma explicação na qualidade e natureza do grão. Simplesmente, as fotografias do T-Max não têm nada de muito entusiasmante: o contraste é reduzido e o ar delas é asséptico. É certo que são mais perfeitas, mas esta foi uma inovação comparável à de um hipotético carburador perfeito: uma irrelevância nos dias da injecção electrónica. Quem se dedica à fotografia convencional fá-lo, em grande parte, pela estética que o grão cúbico confere às fotografias. Quem quer fotografias sem o carácter do grão cúbico tem uma alternativa melhor na fotografia digital.

M. V. M.

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