O tirano malvado e as forças da revolução

imagesUm dos meus textos mais antigos relata as minhas frustrações com o fotómetro, esse tirano cujas indicações por vezes parecem contraditórias, arbitrárias ou simplesmente estúpidas. Contudo, quando se fotografa com uma câmara convencional, a informação providenciada pelo fotómetro é a única forma de podermos calcular o modo como a fotografia vai surgir quando for revelada, pelo que devemos combater a sua tirania e aprender a analisar e interpretar correctamente a informação que o déspota nos transmite.

O facínora que habita a nossa câmara tem um traço de personalidade que o torna particularmente obtuso: ele, na sua infinita estupidez, pressupõe que os objectos – todos eles – reflectem apenas cerca de 18% da luz que incide sobre eles. Na exposição média captada pelo fotómetro, esta percentagem está correcta e serve para a maior parte das ocasiões. O problema é que o déspota não tem flexibilidade mental para conceber situações em que os objectos reflectem ou absorvem mais do que aquela percentagem média. Um objecto branco reflecte muito mais que 18% da luz, enquanto um negro absorve mais do que aquela percentagem. Como o infame, à semelhança de todos os ditadores, gosta que os seus súbditos se mantenham nivelados por baixo, sendo avesso ao brilho que o pode ofuscar e temoroso da penumbra sob a qual se escondem possíveis conspirações para derrubá-lo, nas fotografias que se fazem confiando nas medições perversas e mentirosas do fotómetro os objectos negros surgem mais claros do que deviam. E os brancos, por seu turno, aparecem cinzentos.

É assim que as fotografias surgem quando se confia no fotómetro: um automóvel negro parece cinzento
É assim que as fotografias surgem quando se confia no fotómetro: um automóvel negro parece cinzento

Isto significa que, se tivermos três objectos, como por ex. três cartões, sendo um completamente branco, outro cinzento e um outro negro, e os fotografarmos com os mesmos valores de exposição, todos eles vão ficar com o mesmo tom, que é igual ao cartão cinzento. Isto acontece porque o ditador entende que os três reflectem a mesma quantidade de luz. É demasiado asinino para entender que o branco reflecte mais luz e o negro absorve-a mais do que aqueles 18%.

Eu, o Fidel Castro da fotografia, vou ensinar-vos como podemos iludir esse bandido do fotómetro e evitar que a sua ignorância destrua por completo os nossos sonhos de liberdade fotográfica. Num destes domingos fotografei um automóvel negro (um automóvel particularmente burguês e reaccionário, aliás) e, para uma das fotografias, usei um truque que impediu o automóvel de parecer cinzento, pelo que posso escrever com a segurança que este sucesso me deu, sem induzir os camaradas e companheiros em erro na sua luta contra a escravidão do fotómetro. É muito fácil: em todas as nossas câmaras existe um comando que controla a compensação da exposição. O déspota maldito, para nos enganar e nos manter subjugados à sua opressão, faz-nos pensar que este comando opera da maneira inversa à real, de forma a que nunca usemos este instrumento de libertação (é o Tribunal Constitucional das câmaras), mas a mim, que li Hegel, Marx e Althusser no meu exílio em Moscovo, ele não me engana.

O mesmo automóvel negro, mas com compensação de exposição de -0.7 EV
O mesmo automóvel negro, mas com compensação de exposição de -0.7 EV

Como já referi, quando estamos diante de um objecto negro, a luz medida pelo amaldiçoado fotómetro vai fazer com que aquele surja cinzento na imagem. Para obter a tonalidade correcta – ou o mais correcta possível –, o que há a fazer é aplicar compensação de exposição negativa. Isto pode parecer ilógico, porque poderíamos pensar que o objecto, por não reflectir luz, ficaria gravemente subexposto, mas isto seria deixarmo-nos cair no logro do bandido sanguinário que nos quer condenar a fazer fotografias tecnicamente medíocres para sempre. Ao aplicarmos a compensação de exposição negativa, não só estamos a recuperar o negro como a compensar a exposição nas áreas claras da imagem, as quais recebem mais luz do que deviam por causa dos artifícios mentirosos desse farsante que é o fotómetro.

O mesmo com objectos brancos. Aqui opera-se a compensação de exposição oposta, dando cerca de 1 EV de compensação positiva. Porquê? É que o branco reflecte mais luz do que a medida pelo opressor malvado. Ao aplicarmos a compensação de exposição positiva – o que, tal como nos negros, parece ir contra a intuição – estamos a restituir o tom branco ao objecto e a corrigir as áreas que de outro modo ficariam subexpostas.

Assim podemos iludir o tirano que nos quer obrigar a fazer fotografias medíocres. A fotografia vive muito destas acções de guerrilha e, embora o tirano ganhe cada vez mais adeptos à custa das câmaras completamente automatizadas dos telemóveis – que são o ópio do povo –, nós, os lutadores clandestinos, sabemos que temos razão e venceremos.

Morte ao tirano!

M. V. M.

Anúncios

8 thoughts on “O tirano malvado e as forças da revolução”

  1. Manuel, não sei se você sabe mas, o fotômetro é um dipositivo que tem vida útil. Minha câmera é uma OM-1, mais antiga que a sua. Quando eu confiei no fotômetro, percebi que as fotos saíam superespoxtas. Quando eu levei a câmera a um profissional, ele condenou o fotômetro, dizendo que não havia mais regulagem. Daí, eu pesquisei e vi que esta peça não é mais fabricada. E agora?
    Descobri um site que ainda tem algumas peças para venda. Eu encomendei uma, mas ainda não chegou.
    A recomendação do sujeito que identificou este problema foi regular o ISO em 400 para um filme de 100 e assim por diante.

      1. Sim meu caro. Tenho uma Trip 35 com célula de Selênio e este nunca me deixou na mão. Pena que a Oly OM-1 não possui ma mesma tecnologia. Eu gosto muito da Trip 35 pois, esta não precisa de pilhas para funcionar e sua lente é muito eficiente.

  2. Na minha Yashica Mat 124 G, o fotómetro é alimentado a pilha pelo que com o desgaste da pilha estou sujeito ao erro nas indicações do fotómetro.
    Com a minha digital, a Canon 550D, não há problemas desses. Só há os do fotografo, que por vezes confia demasiado, ou regula mal as configurações.
    A propósito de erros e enganar a câmara, quando frequentei o workshop no IPF de Técnica Fotográfica, fizemos um exercício muito engraçado de personalizar o white balance.
    Na altura o formador disse que íamos ver o Porto de uma forma que nunca tinhamos visto, e teve toda a razão.
    Tiramos uma fotografia a uma superfície qualquer (no meu caso foi ao tabuleiro superior da ponte D. Luís), e utilizamos essa mesma fotografia como pré-definição do white balance da câmara. Tirei algumas fotografias à ponte D. Luís e ficou completamente diferente. Foi uma experiência interessante e engraçada.

  3. O meu formador foi o Rui Lourosa.
    Adorei o workshop muito por causa do formador. Iniciávamos sempre as aulas com uns livros que ele trazia para nós conhecermos o trabalho dos mais variados fotógrafos.
    Até frequentar o workshop, fotografava com a minha Canon 550D sempre com prioridade à abertura ou ao obturador. Depois do workshop é quase sempre Manual. Descobri uma forma diferente de fotografar e de utilizar a câmara.
    Ele é o culpado ( esta é a palavra correcta) de eu me ter virado para o analógico. Houve uma aula que ele levou uma câmara daquelas que o fotógrafo tinha de se por debaixo de um pano para tirar a fotografia, e posso dizer que esse foi o”momento mágico”. Adorei aquela experiência de colocar debaixo do pano, olhar pelo vidro despolido e ver tudo invertido.
    Fiquei de imediato com o bichino cá dentro a remoer.
    E esse bichino foi sempre a crescer até que tomei a decisão de comprar uma TLR, o que aconteceu há poucos meses. Comprei no ebay, com algum receio de comprar gato por lebre, mas tive sorte.
    Adoro usar a minha Yashica Mat 124 G. Adoro andar nas ruas do Porto, ver os turistas e outras pessoas com as digitais e eu orgulhosamente com a minha analógica. Neste momento, dá-me muitíssimo mais prazer fotografar com a minha Yashica do que com a Canon.
    Mas fotografar com a Yashica requer alguma habituação que ainda não a tenho.
    Infelizmente, como anoitece muito cedo, inviabiliza as minhas saídas fotográficas pós laborais com a Yashica.

  4. Manuel, parabéns pelo artigo. Mais um texto bem escrito e muito informativo. E mais um texto a me fazer ficar ansioso para pegar minha nikon fm3 e queimar os kodaks e ilfords. O que farei e, breve.
    E uma pergunta. Você, por caso, já escreveu algum artigo discutindo o valor EV?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s