Da notoriedade

Quando fui entregar a OM-2 para selar o compartimento do rolo, R. S. D., a alma mater da Câmaras & Companhia, informou-me que, depois de ter saído daquela loja numa ocasião anterior, um dos seus clientes o abordou, perguntando-lhe se eu era o Manuel Vilar de Macedo. R. S. D. respondeu que sim, ao que o cliente retorquiu que era um seguidor do Número f/. Isto mostra que tenho alguma notoriedade mesmo fora do domínio virtual, o que me merece algumas considerações.

Há uma coisa que não compreendo: por que não se dirigiu aquele cliente a mim? Eu não acredito que a minha figura seja intimidante, ou que inspire temor reverencial. Não sou – não me considero nem tenho aspirações a sê-lo – uma autoridade em fotografia. Há decerto muitos que usam os seus blogues para se auto-investirem numa autoridade que não merecem, já que é tão fácil ter um blogue nos dias que correm, mas não é por nada disso que mantenho o Número f/. O único mérito que me reconheço como escritor da atmosfera virtual é o de ter tido uma certa dose de coragem para iniciar um blogue de fotografia português quando praticamente não existia nenhum. Mesmo fora dos blogues, tudo o que havia com origem em Portugal era um website que acabou por degenerar num espaço de publicidade à Canon e à Adobe. Estava consciente de que corria riscos: eu tinha uma experiência insignificante quando comecei com o ISO 100 (que tive de interromper, sendo o Número f/ a sua continuação), pelo que tudo o que escrevi podia ser mal interpretado. O blogue tinha por fim ser a crónica de uma aprendizagem, e em larga medida ainda o é.

De resto, que sei eu de fotografia? Que autoridade tenho eu? Há gente muito mais habilitada do que eu para versar o tema da fotografia, mas se abstém de fazê-lo. Tudo o que tive foi alguma coragem para lançar um blogue e escrever textos sobre fotografia. Poderá perguntar-se o que leva alguém a escrever, e as respostas obtidas podem ser o mais negativas possíveis: por arrogância, por presunção, por pretensão do autor em arvorar-se numa autoridade em matéria de fotografia. Nada disso – escrever sobre fotografia é, pelo menos do meu ponto de vista, um fim em si mesmo. A fotografia é um fenómeno tão rico, abrangendo uma quantidade tão vasta de campos do conhecimento, que é, enquanto tema de discussão, praticamente inesgotável. A fotografia é uma manifestação artística e é também um repositório de conhecimentos e progressos científicos. E é tudo o que está pelo meio: é um fenómeno de comunicação e um componente do acervo de memórias pessoais, é uma diversão e um desafio técnico em simultâneo. O que torna escrever sobre fotografia aliciante é poder escrever textos em que reflicto sobre a fotografia e outros em que me refiro aos materiais que uso – e tudo isto sem nunca sair do tema, de tão vasto que este é.

E para que escrevo? A resposta óbvia – e em certo sentido a única possível – é esta: para ser lido. Não faria sentido de outra maneira. Contudo, muitas vezes abstenho-me de desenvolver certos assuntos porque me faltam os conhecimentos. Nunca poderia entrar numa discussão sobre revelação de negativos porque o meu desconhecimento sobre as técnicas usadas é total. Prefiro seguir a máxima de Ludwig Wittgenstein: «sobre aquilo que sabemos, devemos falar abertamente; sobre o que não sabemos, devemos permanecer calados». Escrever sobre o que não sei é algo que me abstenho de fazer e, se acaso sou obrigado a fazê-lo, é sempre sob reserva de melhor opinião. Ser lido é uma responsabilidade enorme: estou sujeito à apreciação crítica dos leitores, o que obriga a usar algum acerto e a escrever com consciência do que estou a fazer.

Não tenho qualquer pretensão de ser um fenómeno da Internet. Detestaria sê-lo. E muito menos quero ser alguma espécie de autoridade porque, muito sinceramente, não a tenho. Os conhecimentos que tenho, contudo, são razoavelmente sólidos – pelo menos o suficiente para poder escrever com segurança, na certeza de que não estou a proferir disparates muito graves. Quanto a estes, tenho a certeza de que incorri em muitos, sobretudo por ter conhecimentos e experiência insuficientes, mas nunca o fiz com a intenção malévola de induzir os leitores em erro ou de me arrogar conhecimentos que não possuía. E sou suficientemente honesto para os identificar e me retractar por eles.

Como qualquer outra área do conhecimento, a fotografia exige um estudo e uma evolução constantes. Estagnar e pretender-se que se sabe tudo – ou mesmo que se sabe o que é necessário – é a maior das estultícias. O Número f/ não é nada doutrinal: pelo contrário, é um work in progress. Mentiria se dissesse que não tenho orgulho no número de leitores e seguidores e se não admitisse que o pequeno episódio da Câmaras & Companhia me envaideceu, mas não escrevo por ambição nem por querer ser um vulto da fotografia: faço-o porque gosto de fotografia e de escrever. E de escrever sobre fotografia, evidentemente. Contudo, prefiro ser reconhecido pelas minhas fotografias a ser reputado pelos meus textos. É que estes não existiriam sem aquelas.

De qualquer modo, fica aqui expresso o meu agradecimento aos leitores e seguidores. Sem vós não faria sentido continuar a escrever. Bem hajam.

M. V. M.

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2 thoughts on “Da notoriedade”

  1. No penúltimo parágrafo o Manuel refere que o episódio na Câmaras & Companhia o envaideceu, tenho a dizer-lhe que também fiquei envaidecido por ter sido o “causador” deste artigo.
    Na altura o Manuel estava acompanhado com um amigo que estava com alguma pressa, motivo pelo qual não o interpelei, além de não ter a certeza que era efectivamente o autor deste blog.
    O que confirmei depois com o sr. Dantas.

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