Mais sobre o conceito de qualidade da imagem

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Por Sebastião Salgado

É possível que tenha sido mal interpretado no meu texto sobre as dificuldades em erigir parâmetros universais de qualidade da imagem. Quando escrevi, pretendia referir-me apenas aos elementos formais da imagem – e não da fotografia, que é um conceito mais amplo – deixando de fora o conteúdo. Apenas queria referir-me ao aspecto, à aparência visual da imagem, não à sua mensagem ou substância.

Deixem-me, pois, clarificar aqui algumas questões. Para começar, o texto não pretendia referir-se à qualidade fotográfica, entendendo-se como tal a sua idoneidade para causar uma impressão emocional duradoura no espectador. O meu objectivo, apesar da linguagem fastidiosa, era o de dizer que o conceito de qualidade da imagem varia de pessoa para pessoa. Embora haja muitos aspectos em que a maioria das pessoas está de acordo, o que um pode entender como qualidade da imagem pode ser visto por outro como algo diferente.

Tomemos o exemplo do HDR: há nesta técnica um incremento dos níveis de informação, uma vez que os excessos de sombras e de altas luzes são suprimidos, revelando pormenores anteriormente escondidos. Para muitos o HDR é o maior avanço de sempre em matéria de qualidade da imagem; outros, por seu turno, poderão entender que é uma qualidade de imagem falsa, porquanto é obtida à custa de várias exposições. Quem está certo ou errado não é o que importa discutir.

Acresce que nem toda a gente aprecia os atributos da imagem da mesma forma. Uns poderão querer o máximo de nitidez, tendendo a privilegiar esta como o elemento definidor da qualidade da imagem; outros poderão satisfazer-se com menos nitidez se a imagem tiver mais contraste. Do mesmo passo, uns privilegiam cores neutras e exactas enquanto outros entendem que a saturação é um atributo da qualidade da imagem.

Em última instância esta é uma discussão estéril que não leva a conclusões úteis, porquanto nos conduz por um caminho pernicioso que nos põe a discutir pixéis, comprimentos de onda e acutâncias em lugar do que realmente importa na fotografia. Por outras palavras, situa a discussão num plano técnico que, a meu ver, tem a sua pertinência limitada ao equipamento – embora as suas consequências sobre a qualidade percebida na imagem sejam bem visíveis.

Isto não significa, de modo algum, que despreze a qualidade da imagem. Pelo contrário, sou extremamente exigente neste aspecto. Atribuo grande importância à nitidez, porque gosto de linhas fortes e bem definidas; valorizo os contrastes pela mesma razão, mas também porque não gosto de imagens esteticamente ambíguas (embora estas possam, dependendo do motivo fotografado, ter o seu lugar e beneficiar uma fotografia). Gosto de cores com uma ligeira – muito ligeira – tendência para a saturação, porque as minhas fotografias precisam delas (embora, de novo, as cores mais desmaiadas possam ser usadas em benefício de uma particular fotografia). E procuro que aberrações como o ruído, o grão, as distorções e as aberrações cromáticas estejam ausentes das minhas fotografias, as quais pretendo limpas.

Outro aspecto que muitos valorizam na qualidade da imagem é o bokeh. O desfoque é uma técnica que não tem valor per se, mas apenas enquanto instrumental para colocar o foco num determinado motivo. Contudo, há quem o eleja como critério definidor da qualidade da imagem, exigindo transições suaves e contornos esbatidos. Simplesmente, quando se discute esta questão o que está verdadeiramente em causa é a qualidade de uma lente ou de uma câmara e a sua repercussão na imagem, não a qualidade desta última.

Por aqui também se vê que, além de subjectivo, o conceito de qualidade da imagem é variável: os padrões que servem para uma determinada fotografia ou maneira de fotografar podem ser completamente inadequados para outras. A qualidade da imagem tem, assim, um carácter instrumental.

Os vários textos que escrevi sobre a busca dos meus rolos preferidos têm uma razão de ser: quero saber qual o rolo que, sem recurso à edição, me dá resultados coerentes com o meu conceito de qualidade da imagem. Notem bem: o meu conceito – que não é necessariamente semelhante ao de outras pessoas. Reitero, por tudo isto, que é impossível dizer-se que a qualidade de imagem se afere por padrões rígidos. Qualquer padrão que se escolha como definidor da qualidade da imagem é redutor e apenas versa um atributo particular da imagem. Além de poder depender daquilo que é mais importante – o seu contributo para a intenção fotográfica. O contraste, por exemplo, pode funcionar bem numas fotografias e ser indesejável noutras.

Cada um tem o seu conceito de qualidade da imagem – e é assim que deve ser. Mas parece-me que este ainda não vai ser o último texto sobre este assunto…

M. V. M.

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