Qualidade da imagem (ou: da impossibilidade de estabelecer conceitos científicos universais a partir de impressões subjectivas)

Por Sebastião Salgado
Por Sebastião Salgado

Existe um conceito universal de “qualidade de imagem”, entendendo-se como tal a existência de um parâmetro que nos permita distinguir entre duas fotografias e dizer, com grau suficiente de objectividade, que uma delas é boa e a outra não? Esta é uma dúvida que tenho desde há muito: o que define a qualidade de uma imagem fotográfica?

Uma solução possível para esta questão é ultrapassar as considerações técnicas e confinar o conceito de qualidade de imagem ao domínio da subjectividade. Uma fotografia é uma boa se for agradável de contemplar. Isto tem a virtude de suprimir quaisquer obstáculos conceituais pelo simples método de destruí-los, mas não providencia uma resposta completa. Muitas vezes me perguntei o que faz uma “boa” imagem e a distingue de uma “má” – abstraindo do motivo e do interesse inerente da fotografia – e, de cada vez que pensei nisto, não consegui chegar a uma conclusão satisfatória. A nitidez não define a qualidade de imagem; se o fizesse, nem sequer olharíamos para algumas fotografias históricas. A Derrière la Gare de St. Lazare tem distorção por arrastamento e as mais célebres fotografias de guerra de Robert Capa teriam de ser consideradas, na melhor das hipóteses, medíocres. E que dizer da resolução? Na minha opinião, este atributo não é suficiente para definir a qualidade de uma imagem. Um retrato não é melhor porque se pode contar os poros no rosto da pessoa retratada.

Em última análise, o debate sobre a qualidade da imagem deve restringir-se ao equipamento. Podemos ver as repercussões dessa qualidade na imagem, mas o inefável conceito de “qualidade de imagem” deve ser deixado para os nossos sentidos. Pode medir-se a qualidade de uma lente através de alguns parâmetros e exprimi-los em gráficos e tabelas, mas não se pode medir o prazer visual. Este permanece firmemente no terreno das sensações. Não pode traduzir sensações por gráficos. Não há nenhuma medida para o prazer e o enlevo. Tudo o que podemos fazer é confrontar a intensidade de sensações diferentes, mas mesmo isto não pode ser sujeito a medidas exactas.

Claro que seria tudo muito fácil e confortável se fôssemos capazes de reduzir a qualidade da imagem a uma única palavra, a um conceito simples que nos permitisse afirmar que a imagem A tem melhor qualidade que a imagem B, mas isto não pode ser feito pois aqui estamos no reino da subjectividade. Alguns, contudo, têm convicções muito firmes sobre qualidade da imagem: para eles tudo se resume a nitidez ou resolução, mas essas qualidades são apenas contribuições para o que nós percebemos como a qualidade geral de uma imagem. Algumas pessoas não sentem qualquer embaraço em publicar fotografias dos seus gatos na internet – e eu já me deparei com várias fotos de um quadro de cortiça no DPReview! – para mostrar ao mundo aquilo de que as suas câmaras são capazes, mas podemos dizer, mantendo uma cara séria, que essas são fotografias de qualidade?

Talvez devêssemos contentar-nos com a aceitação de que a “qualidade de imagem” é um juízo subjectivo e deixar que a discussão fique por aí. Uma imagem é de qualidade se me agrada, e o que me agrada a mim pode não agradar a outrem. Há, decerto, factores objectivos: fotografias com deficiências notórias de focagem, desastrosamente mal enquadradas ou mesmo com infiltrações de luz são universalmente consideradas como deficientes sob o ponto de vista da qualidade, mas mesmo em certas circunstâncias há lugar para a subjectividade. Alguns lomógrafos gostam de fotografias com manchas causadas por infiltrações de luz; há quem aprecie fotografias ligeiramente desfocadas e há quem use enquadramentos pouco ortodoxos. É tão difícil definir o que torna uma fotografia má como o oposto.

M. V. M.

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1 thought on “Qualidade da imagem (ou: da impossibilidade de estabelecer conceitos científicos universais a partir de impressões subjectivas)”

  1. Olá M.V.M.

    Acho que devemos distinguir a qualidade de imagem da qualidade da fotografia.

    A qualidade de imagem leva-nos para aspetos como a nitidez, resolução, contraste, saturação da cor e outros que podem ser mais ou menos mensuráveis. Esta é a via seguida por vários sites de análise de equipamento fotográfico.

    Já a qualidade da fotografia tem a ver com o conteúdo, com a composição e outros aspetos mais ou menos subjetivos. Por exemplo numa mesma fotografia a imagem pode estar “tremida” ou completamente desfocada (qualidade de imagem baixa), no entanto ser extremamente rica em termos de de composição e de conteúdo o que a pode tornar agradável ou por outro lado chocante do ponto de vista visual e levar-nos a concluir que se trata de uma “grande fotografia”.

    Se repararmos nas fotografias vencedoras do world press photo deparamo-nos quase sempre com imagens de um conteúdo muito forte (normalmente cenários de guerra ou sofrimento) que causam um grande impacto no observador e por isso são faladas, discutidas e publicadas até à exaustão.

    Mas até nestes casos a subjetividade é enorme. Para mim a fotografia vencedora de 2013 (de Paul Hansen) tem um excesso (muito) de tratamento em programa de edição de imagem, no entanto a mensagem que transmite é muito poderosa. Todavia, e sem querer ser nacionalista, a fotografia de Daniel Rodrigues – também ela premiada – é muito mais agradável à (minha) vista e transmite uma mensagem completamente diferente. Isto para dizer que se eu fosse o juri não teria escolhido a foto de Paul Hansen.

    Para concluir concordo em absoluto com o último parágrafo do seu texto.

    Abraço

    PR

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