Light leak (onde se fala de infiltrações, de espuma de poliuretano e de algumas angústias do autor)

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Infelizmente, não consegui obter a ajuda que esperava dos leitores do Número f/ quanto ao problema com as fotografias feitas na Praia de Matosinhos. Foi pena, porque quando decidi escrever um blogue, foi com o propósito que este fosse útil para quem se quer iniciar na fotografia, mas aparentemente esta utilidade não é recíproca e só funciona para um dos lados. Não quero elaborar críticas, até porque a maioria dos leitores vive na era digital e problemas como este ser-lhes-ão certamente desconhecidos, mas não consigo dissimular uma ligeira amargura. Fica o meu agradecimento ao leitor João e a um utilizador do Facebook, Filipe Bonito, que identificaram o problema: é uma fuga de luz (light leak). Não é bem uma fuga, mas antes uma entrada de luz no compartimento do rolo. Suspeitei desde o início que fosse esta a causa das manchas de luz, mas não podia excluir outras possibilidades: quando adquiri a câmara, esta funcionava impecavelmente e aparentava estar em excelente estado de conservação, pelo que a possibilidade de ocorrer uma fuga de luz me pareceu altamente improvável. A verdade é que é esta a causa das aberrações visíveis nas fotografias que publiquei ontem.

Por que acontece a entrada de luz no compartimento do rolo? A causa mais plausível é a degradação do material vedante que circunda o compartimento do rolo na parte em que a tampa do compartimento fica em contacto com o corpo. O desgaste da espuma de poliuretano que reveste aquele compartimento diminui o isolamento da luz, potenciando o surgimento de fendas por onde esta se infiltra. Uma vez que o rolo apenas está preparado para receber as quantidades de luz necessárias à exposição, o excesso de luz manifesta-se através daquelas manchas.

A espuma de poliuretano é mesmo assim. Há dois anos, um primo meu ofereceu-me uma caixa de LPs com uma gravação d’O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, com a Orquestra de Bayreuth dirigida pelo magnífico Karl Böhm, que ele havia adquirido cerca de vinte e cinco anos antes. Os discos, que aparentemente foram ouvidos poucas vezes e se mantiveram fechados na caixa durante décadas, vinham separados entre si por placas finas de espuma de poliuretano. Quando lhes toquei, estas placas desfizeram-se de imediato. Apesar de a espuma empregue pelos fabricantes para vedar o compartimento do rolo ser muito mais densa, também está sujeita a desgaste. E a degradação pode ser maior quando não se usa a câmara com frequência, como parece ter sido o caso da minha OM-2, por a elasticidade do material ficar comprometida devido aos longos períodos de compressão.

Contudo, a infiltração de luz pode dar-se de outras maneiras. Pode ser pela baioneta ou mesmo pelo visor, através de um fenómeno de feedback que a Canon identificou e procura evitar, aconselhando o fotógrafo a obstruir o visor durante exposições longas – como as que se usam na fotografia nocturna – com uma tampa que incorpora na alça de alguns modelos, de maneira a evitar que o excesso de luz possa prejudicar a qualidade da imagem. Ou pode dar-se por qualquer outro ponto. Pela informação que recebi de Filipe Bonito, é fácil determinar a origem das infiltrações quando se usam rolos a cores: se as manchas forem brancas, o problema está na parte da frente da máquina; se forem avermelhadas, o problema está na parte de trás.

Mais alarmante ainda foi saber que estas fugas podem ser o prenúncio de uma avaria no obturador. Se for este o caso, posso estar a viver os últimos dias da minha aventura com a fotografia em película, porque não estou disposto a comprar outra câmara nem a reparar a actual.

Não tenho conhecimentos suficientes que me permitam identificar com precisão o local por onde ocorre a infiltração de luz (foi por esta razão que pedi a ajuda dos leitores), pelo que vou ter de entregar a OM aos cuidados de alguém que tenha a competência necessária para identificar e reparar este problema. A OM é uma câmara cuja antiguidade não posso determinar, mas terá seguramente cerca de vinte anos; o facto de ter exposto uma quantidade de rolos considerável desde que a adquiri pode ter contribuído para acelerar a degradação do vedante da porta do compartimento do rolo, mas este é um problema bastante comum em câmaras antigas, pelo que talvez devesse ter verificado o estado desse vedante no momento em que adquiri a câmara. Não o fiz porque o seu estado cosmético me inspirou confiança.

Seja qual for a causa desta infiltração, não está na minha esfera de conhecimentos. Mal acabe de expor o rolo que estou a usar neste momento, vou entregar a câmara para que diagnostiquem o seu problema e a reparem, se o conserto não for demasiado oneroso. Prometo que vos mantenho informados.

M. V. M.

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2 thoughts on “Light leak (onde se fala de infiltrações, de espuma de poliuretano e de algumas angústias do autor)”

  1. Só para constar: realmente não contribui por não ter ideia de qual seria o problema. Inclusive porque, há anos, só fotografo com digital. Mas para que não fiques achando que as postagens sobre fotografia analógica não repercutem efeito, gostaria de dizer que elas vem me empolgando a ponto de eu estar prestes a comprar uma Nikon Fm3 e voltar a usar filme. Talvez, então, eu tenha mais a contribuir nessa área.
    Abraços

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