Do absurdo

18h50 do dia 31 de Outubro de 2013. Estou fechado no meu carro em plena VCI, avançando vinte e cinco metros em cada minuto. Estou morto por chegar a casa depois de um dia de trabalho que me deixou a cabeça em água – ainda à custa das contas dos créditos salariais de um trabalhador cuja entidade empregadora, em lugar de contabilidade organizada, tem papeluchos que evocam o chavão contas de mercearia. E eu precisei de penetrar aquele monte obscuro de papéis incôngruos, o que, para quem seguiu a área de estudos humanísticos por causa da matemática, é uma verdadeira punição. Para onde quer que olhe apenas vejo automóveis parados ou em marcha muito lenta. Tenho tempo para pensar e concluir que a vida é um absurdo. Compreendo por que o absurdo foi uma ideia central no pensamento do Século XX. Kafka e Camus, de repente, começaram a fazer sentido.

Aqui estou eu, sem poder gozar o descanso que mereço porque estou prisioneiro duma fila estúpida de trânsito. Eu e os milhares de pessoas dentro dos milhares de automóveis. Não consigo deixar de pensar que nada disto faz sentido: aquelas pessoas trabalham horas e horas, a maior parte das vezes sem as compensações que mereciam, e que há depois do trabalho? Arrelias, como estes engarrafamentos. Na rádio, escuto que a EDP cortou a energia de vários blocos do Bairro do Lagarteiro, aqui no Porto. Muitos dos moradores que ficaram sem electricidade são beneficiários do Rendimento Social de Inserção, mas alguns nem isso têm. Ouço os casos dramáticos, como o de um paraplégico que não pode alimentar a sua cadeira de rodas motorizada. Logo de seguida, mais notícias de negócios e dinheiro: informam-me que a EDP, a mesma que cortou a luz no Lagarteiro por não receber alguns milhares de euros, teve um lucro de cerca de 900 milhões de euros. Isto já não é absurdo – é loucura.

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A vida é um absurdo. Se não fossem os poucos momentos de fuga deste quotidiano, nada faria sentido. Se não fossem as pessoas que amo (e mesmo aquelas de que apenas gosto) e as coisas não laborais que gosto de fazer, nada me restaria para justificar a existência. E eu sou um privilegiado, pois há muitos que nem estas coisas têm e cuja vida se resume ao trabalho.

A fotografia, uma dessas coisas não laborais, tem crescido de importância na minha vida. talvez demasiado, já que lhe sacrifico tempo que poderia despender de outra maneira. Mas está a tornar-se num espaço onde posso esquecer o trabalho, os créditos laborais, os patrões chico-espertos e os engarrafamentos. (Eu considero os engarrafamentos a forma mais estúpida de perder tempo.) Está a tornar-se no meu refúgio, quase na minha droga favorita. Olho as fotografias que fiz e dou-me por contente: posso não ter o maior talento, mas sinto que a minha dedicação está a dar frutos.

Por vezes penso como seria bom se conseguisse viver da fotografia. Se pudesse ter trabalhos regularmente e clientes fiéis, talvez não me dedicasse a outra actividade profissional. Gosto da minha profissão, mas não quando sou obrigado a fazer coisas absurdas. (Ou ridículas, como este processo que me deixou extenuado nestas duas semanas.) Tal como a vida está, isso é impossível. Mais vale que a fotografia seja meramente uma diversão; vendo bem, talvez seja melhor assim: não tenho prazos, não tenho objectivos prédefinidos nem a dor que é ser credor e não receber. Deste modo é tudo mais divertido, e uma diversão que vai do momento em que insiro o rolo na câmara até àquele em que recebo as impressões ou trabalho as imagens no computador. Não há nenhum momento aborrecido quando fotografo. Até os pormenores arreliantes, como quando o botão do obturador decide encravar – sinal de que não fiz avançar o rolo como devia – são ultrapassados sem angústias e sem stress desnecessário. Ah!, se a minha vida pudesse ser um longo fim-de-semana, na companhia de gente de quem gosto e a fazer o que me dá prazer…

M. V. M.

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